Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Cendrars e o Brasil (2)

Blaise Cendrars, pseudônimo de Frédéric Sauser (1887/1961), foi uma das figuras mais curiosas do meio literário do Século XX. Nascido na Suíça, estabeleceu-se em Paris, depois de ter percorrido grande parte do mundo, envolvido nas mais incríveis aventuras, e tendo participado da I Guerra Mundial, quando perdeu um dos braços, decepado por um obus. Dizia ter exercido 36 profissões diferentes e que estava pronto para iniciar mais uma. Dentre os muitos países visitados, esteve no Brasil, onde foi recepcionado e ajudado pelos modernistas, entre os quais Mário e Oswald de Andrade, além do escritor Paulo Prado, em cuja fazenda permaneceu por algum tempo. Desde essas visitas, foi tomado de intenso amor por nosso país, do qual se tornou estudioso e divulgador incansável na Europa.

Michel Manoll, escritor e jornalista, realizou uma série de entrevistas radiofônicas com ele, depois publicadas no livro “Blaise Cendrars vos fala” (tradução livre), reproduzida no Brasil no volume “As históricas entrevistas da Paris Review”, editado pela Cia. das Letras. Nesse texto antológico, o escritor faz inúmeras referências ao Brasil, revelando que conhecia bem nossa cultura e nossas raízes. Entre muitos aspectos focalizados, mostrou a importância da literatura de cordel que vinga com tanta força entre nós e que muitas vezes é desprezada, em especial na região sul. Lembrou que essa literatura veio de Portugal e não tem origem negra, como alguns imaginam, além de ter influenciado muito mais a literatura erudita nacional que as obras acadêmicas. Afirma ainda que a literatura nacional sofreu forte influência dos autores franceses acadêmicos, o que é um fato histórico incontestável, e depois dos autores americanos, como Jack London, Mark Twain, Ernest Hemingway, John dos Passos, Scott Fitzgerald e Henry Miller, entre tantos outros, muitos deles autoexilados em Paris e pertencentes à célebre geração perdida. A influência francesa no Brasil foi de tal magnitude que ameaçou até mesmo destruir a nossa língua, provocando a reação de inúmeros escritores, entre os quais Monteiro Lobato. Hoje, a influência norte-americana é assustadora.

Explicou que os negros, trazidos como escravos, em geral não sabiam ler e escrever. Os poucos que, por alguma forma, conseguiam aprender, nada escreveram. O Brasil-colônia era proibido de publicar livros ou material impresso. Tudo vinha de Portugal, depois de passar por rígida censura. O temor de Portugal perder sua maior colônia era pânico. A falsa noção de que o cordel tinha raízes africanas deve ter sido uma das causas do arraigado preconceito contra ele.

Em seguida o escritor relembra Gregório de Matos, o Boca do Inferno. Bem moreno, ou “pardo”, no dizer da época, formou-se em Direito pela célebre Universidade de Coimbra e fez um curso brilhante. Tinha um talento genial para a poesia. Em versos cortantes, ironizava a sociedade colonial, o servilismo, a bajulação, a politicalha, e apontava a exploração de que o país foi vítima. Resultado: foi degredado para Angola, então colônia portuguesa, onde comeu o pão que o diabo amassou. Foi considerado o François Villon nacional e seus poemas, impedidos de publicação, foram transmitidos por via oral e se espalharam de maneira a alarmar os colonizadores. Voltando do exílio, veio ainda mais indignado e vituperou a metrópole e a sociedade colonial sem dó e nem piedade. Morreu na miséria e foi sepultado “como o mais miserável entre os mais miseráveis, com o violão, seu único bem.” Cendrars não esconde a emoção e a comiseração diante do que fizeram ao poeta genial.

Em outra passagem, recorda com saudade “o velho amigo Souza Dantas, conhecido como o embaixador boêmio, porque não tinha cama para dormir – quando estava com sono, virava o colarinho para cima, puxava a aba do chapéu para baixo e se esticava em um canapé russo de couro, fechava os olhos e dormia feito criança, sem se importar se você já havia saído ou não.” Na embaixada brasileira, fumando charutos e tomando cafezinhos, ele passava horas conversando com Souza Dantas, figura muito estimada pelos brasileiros que viviam na Europa e por europeus que gostavam do Brasil.

No Brasil, Cendrars participou da caravana modernista às cidades históricas mineiras, apaixonou-se pela obra do Aleijadinho, pelo carnaval carioca, pelas plantações de café e ficou fascinado com a figura de Lampião. Fez incontáveis planos sobre o Brasil, quase todos fracassados, mas muito escreveu sobre o nosso país, em livros e na imprensa, além de ter sido incansável divulgador de Tarsila do Amaal e Cândido Portinari. Segundo os críticos, a maior dádiva de Cendrasr ao Brasil foi ter aberto os olhos brasileiros para seu próprio país, levando-os a criar uma arte nacional, inclusive literária, em vez de ficar imitando os franceses.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/03/2017 às 10h42 | e.atha@terra.com.br

publicidade

Indiologia Militante

Dois livros com temas indígenas me acompanham há muito tempo e a eles volto com frequência. Em cada recaída aprendo mais alguma coisa e assim ambos vão preenchendo longos momentos de leituras.

O primeiro deles é “Diários Índios”, de Darcy Ribeiro (Companhia das Letras – S. Paulo – 1996), adquirido numa banca, onde jazia esquecido e meio amarelado. É um imenso volume com 630 páginas, em tamanho grande e muito bem ilustrado com mapas, fotos e desenhos. Contém o diário minucioso, escrito em forma de carta do autor à esposa Berta, e que ela nunca recebeu, registrando as duas expedições por ele realizadas, com sua equipe, em 1949 e 1951, aos confins do Pará e do Maranhão, em busca das aldeias remotas dos índios Urubus-Kaapor, nunca jamais visitadas por brancos. Foi uma experiência incrível, pisando terras nunca palmilhadas por gente de fora, naquela que considero a maior aventura possível para um homem moderno dentro das fronteiras nacionais. No vigor de seus 27 anos de idade, tomado pela inquietude intelectual e curioso por verificar pessoalmente uma realidade desconhecida, Darcy Ribeiro realizou um trabalho único. Muito além do propósito inicial de registrar as expedições, ele enriqueceu a obra com observações valiosas que abriram os olhos de outros pesquisadores. A geografia da região, sua paisagem, os segredos da floresta, a organização das aldeias, os usos e costumes dos moradores, sua alimentação, as construções, a caça e a pesca, suas crenças e mitos, além de cenas do cotidiano, são descritas em profusão. Há relatos incríveis de episódios presenciados ou relatados por outrem, encontros com figuras curiosas e o registro das marchas do grupo, em batelões pelos rios ou em penosas caminhadas através da mata virgem. É, enfim, um painel inesgotável de informações sobre a região e seus arredios habitantes. Sobre essa obra escrevi dois ensaios que estão em meu livro “Mundo Índio” (2003).

O segundo livro a que me referi é “Trabalho Índio em Terras da Vera ou Santa Cruz do Brasil”, de autoria de José Martins Catharino (Salamandra Consultoria Editorial – Rio – 1995). É também um trabalho imenso, com 630 páginas, fundamentado numa bibliografia impressionante. Seu autor é um dos pioneiros nos estudos de Direito do Trabalho Rural, na época em que vigorou o respectivo Estatuto. Neste livro ele surpreende, com base em numerosas fontes, os indígenas brasileiros na época do descobrimento e examina o que aconteceu em seguida. Mostra o terrível equívoco dos europeus quando “atribuíram ao índio o defeito de não ser trabalhador.” É que, para eles, trabalho implicava em sedentarismo, horário, métodos, chefia etc., enquanto os índios sempre trabalharam – e muito! – mas de outra forma. Enquanto os europeus trabalhavam pela propriedade, para o mercado, pelo lucro e pela poupança, os índios não visavam nada disso. Aliás, Darcy Ribeiro observou que os índios não entendiam muito bem quando ele reservava comida para o dia seguinte; tratavam de comer enquanto tinham. Catharino, então, expõe as variadas áreas do trabalho indígena: trabalho necessário à sobrevivência (caçador e coletor), trabalho culinário, trabalho útil (construção de moradas e abrigos, confecção de vestuário, vasilhame), trabalho voluptuário (adornos, pinturas do corpo, enfeites), trabalho para elaborar bebidas, chás e fumo, trabalho musical (confecção de flautas, outros instrumentos, aprendizado de cantos), trabalho desportivo (treinamento para aloites) e trabalho locomotor (confecção de canoas, jangadas e remos), além de inúmeros outros afazeres, como a confecção dos próprios instrumentos. Diante disso, - conclui ele, - o trabalho indígena não foi apenas constante mas árduo, ainda mais que não dispunham de avançada tecnologia. Portanto, a invasão europeia provocou autêntica “desculturação indígena”, desorganizando a cultura local autêntica e conduzindo à sua destruição.

Por tudo isso, o conhecimento da literatura indigenista é indispensável para afastar mal entendidos e preconceitos. As obras acima mencionadas são tratados de “indiologia”, vocábulo em geral não dicionarizado, mas que resulta de “índio”+”logia” (do grego “logus”+”ia”), sufixo que exprime a noção de estudo, um campo de estudo, o estudo de um assunto em particular. Assim, o nosso Manifesto Nheçuano, liderado com bravura por Marco Marques, se avantaja e cresce de importância. Nós não apenas estudamos o índio, em especial o guarani, mas estamos lutando por ele. Praticamos uma “indiologia militante” e esse é o espírito que nos anima.

Escrito por Enéas Athanázio, 28/02/2017 às 12h27 | e.atha@terra.com.br

publicidade

No fundo do poço

A cada dia o governo-tampão de Michel Temer mais desvenda sua verdadeira face. Tanto o próprio presidente como vários de seus ministros mais chegados são suspeitos de envolvimento em negócios duvidosos investigados pela Polícia Federal. O presidente da Câmara e o ex-presidente do Senado, por ele apoiados, integram o mesmo rol, além do atual presidente da Câmara Alta e do recém-eleito presidente da Comissão de Constituição e Justiça. Sua bancada de apoio na Câmara tenta, à socapa, impedir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de punir partidos corruptos numa manobra por sorte descoberta a tempo pela imprensa. Se tudo não bastasse, cria um ministério e nomeia para titular seu amigo do peito Moreira Franco, também envolvido em conchavos nada edificantes. Fez exatamente aquilo que tanto foi condenado no governo deposto. Para completar, criou três novos ministérios, esquecendo as promessas de diminuir o tamanho da máquina governista. Agora, em mais uma manobra, indica para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) um de seus subordinados, pessoa notoriamente despreparada para a função e de equilíbrio discutível, esquecendo-se de tantas figuras ilustres e competentes existentes no mundo jurídico do país. Para completar, nestas últimas horas, correu a notícia de que o indicado é plagiário. Aliás, fico me perguntando se um suspeito pode indicar um ministro da Corte que poderá julgá-lo num futuro próximo. Tenho para mim que se trata de uma indicação nula pelo vício da suspeição. José Yunes, outro íntimo do presidente, também foi flagrado em maracutaias e pediu demissão. O governo pratica verdadeira ação entre amigos.

Ao discursar na ONU, na abertura dos trabalhos, deferência sempre concedida ao Brasil, Temer viu os delegados de vários países se ausentarem num gesto de protesto. E o OPALC (Observatório Político da América Latina e do Caribe) condenou a forma de implantação do atual governo, considerando-a anti-democrática. A Odebrecht se revelou uma corruptora internacional.

É um vexame atrás do outro para o Brasil!

Como brasileiro, patriota e nacionalista, confesso que me sinto acabrunhado.

Mas, por curioso que seja, não escuto os costumeiros panelaços com os quais até estava habituado. Por que será?

Enquanto isso, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE), do Rio de Janeiro, cassa os mandatos do governador e do vice daquele Estado. É verdade que nunca tive fé em ambos, de modo que não houve grande surpresa. O vice, aliás, quando senador, foi acusado de adulterar a redação de uma lei depois de aprovada, fato que em qualquer país lhe teria custado o mandato. E o novo prefeito do Rio, para não perder a onda, nomeia o próprio filho para cargo do primeiro escalão. Não é apenas demagogo, mas também nepotista.

Pesadas suspeitas também recaem sobre o falecido Eduardo Campos, aquele que se apresentava como novo salvador da pátria. E sua companheira Marina foi citada nas investigações da Polícia Federal, embora a mídia tenha feito rigoroso silêncio a respeito.

Para complicar a situação, a violência cresce de maneira assustadora. O Espírito Santo é o palco dos horrores neste momento em que escrevo. É como se os Aloes tivessem fugido e os Morlochs tomassem conta do território. Algo semelhante ocorre no Rio.

Não bastasse tudo isso, Donald Trump assombra o mundo e enfrenta cerrada oposição em seu próprio país. Em pouco tempo de governo ele deu uma “banana” à globalização, mostrando que ela só é boa quando beneficia os Estados Unidos mas é péssima quando beneficia os demais países. Globalizem-se os mais pobres porque a grande potência se fecha em copas. Pergunto-me onde andarão agora os arautos da globalização, pregoeiros de suas formidáveis “vantagens”. Por que Delfim e Maílson nada dizem sobre isso?

Estamos no fundo do poço!

Escrito por Enéas Athanázio, 20/02/2017 às 11h12 | e.atha@terra.com.br

publicidade

Viventes do Sertão

Leio e ouço com frequência que o regionalismo literário está morto e sepultado. Os fatos, no entanto, parecem desmentir tal afirmação. Aqui em Santa Catarina, onde a corrente regionalista é forte, apesar dos hiatos, surge um Mario Tessari tecendo contos com o cheiro da terra e inspirados em experiências próprias. Depois de Tito Carvalho, Guido Wilmar Sassi, Edson Ubaldo, Fernando Tokarski, Márcio Camargo Costa e eu, vem ele dar continuidade à escola que, a rigor, nunca morreu.

Também em outras regiões do país isso vem acontecendo. Agora mesmo acabo de ler com intenso prazer o livro “Do Sertão”, de autoria de Napoleão Valadares, coletânea de contos ambientados no sertão mineiro (André Quicé – Brasília – 2016). É obra de um autor experiente e que revela dominar a arte e a técnica da short story.

Valadares escreve em linguagem clássica e correta, usando os termos e expressões regionais com moderação, mas sempre no local e momento apropriados. Como diria o crítico Lauro Junkes, é um regionalista mais de fundo que de forma. O conjunto é harmônico e autentico, evidenciando um conhecedor da região, observador atento de seus usos e costumes e do modus vivendi daquele povo. Os contos são, em geral, leves, permeados de humor, e são raras as tragédias que, quando ocorrem, surgem apenas debuxadas, indicando que as cenas cruentas não são do gosto do autor.

Alguns contos chegam a provocar gargalhadas ao retratarem o espírito brincalhão e a malandragem do caboclo. Exemplo bem típico é o do anspeçada Antônio Domingues entregue à caça do facinoroso Antônio Dó. Em sua diligência, vai aportar na casa de um “coronel”, tendo este afirmado que o procurado lá não se encontrava. Desconfiado, o anspeçada vareja a casa e se depara com Antônio Dó enfileirado com seus jagunços de armas na mão. Retornando da busca, confessa ao dono da casa: “Não está mesmo não!” Antes renegar a verdade que enfrentar uma luta feroz! Caso exemplar também é o de Zé, encarregado de comprar um botijão de gás em una barraquinha. Mas não havia o produto e teve que ir a outra vila. O comerciante pede-lhe que traga dois botijões, colocando os vazios na velha caminhonete. Por mal da sorte, Zé encontra o Chico e o convida para acompanhá-lo. No caminho, de boteco em boteco, de trago em trago, visitando as zonas boêmias, a viagem foi se alongando como uma volta ao mundo. Trilharam caminhos fora do trajeto, “mas quem está bebendo encontra motivo para certas erradas...” E o resultado: “Chegaram depois de seis dias, com os botijões vazios na carroceria da camioneta velha.”

As expressões regionais são deliciosas. Mostram como o caboclo é conservador e criativo ao mesmo tempo; emprega palavras em desuso e inventa outras tantas quando necessário. O contista também é hábil na criação de fórmulas curiosas. Eis aqui alguns exemplos: alguma coisa faltando, tem calibre pra esse serviço, também estava trolado, cavalo de passo acertado, vivia pegando bravezas, amásio coletivo, chamou o genro na regulagem, tinham enguiço na alma, com a consciência encrencada, na fila de votação toda siligristida, essa trenheira, soltou a mão na chocolateira do Alves, mulher separadeira, doidura com lampejos de lucidez etc. Também os nomes dos personagens e das figuras são os mais estranhos, vários deles revelando as características da pessoa: Retilíneo, Rodolfo Adjuto, Damaso Sisudo, Zé Mestrança, João Lambu, Lelão.

O livro de Napoleão Valadares é um retrato fiel da vida nos ínvios mineiros e permite ao leitor a convivência íntima com os viventes do sertão.

Escrito por Enéas Athanázio, 13/02/2017 às 12h32 | e.atha@terra.com.br

publicidade

Tayó

Intrigado com as dúvidas existentes sobre a origem e o significado da palavra Itajaí, nome de sua cidade natal, o professor e pesquisador Magru Floriano se lançou numa busca intensa e exaustiva de respostas para a magna questão. Com esse objetivo, repassou todas as fontes informativas existentes, examinou obras antigas e recentes, manuseou revistas e jornais velhos, desencantou originais datilografados, entrevistou inúmeras pessoas e visitou locais relacionados com o tema, buscando in loco evidências e indícios que pudessem desvendar o mistério.

O resultado do incansável trabalho foi o livro “A lenda do Monte Tayó”, por ele considerado uma contribuição à centenária discussão sobre o significado do nome da cidade portuária (Alternativa Editora/Nova Letra – 2012).

Para bem enquadrar o assunto, fez o autor uma incursão na história da região e da cidade em busca de informações que pudessem lançar alguma luz na solução do problema. E assim foi além dos objetivos centrais da pesquisa, fornecendo ao leitor um panorama regional desde os tempos em que o Itajaí-Açu se chamava Rio das Voltas. Como de regra, o conflito entre nativos e colonizadores foi sangrento e nele os índios foram dizimados.

É curioso observar que diversos outros pesquisadores se debruçaram sobre o tema, tendo alguns deles mudado de opinião, o que tornou ainda mais obscuro o objeto da pesquisa. Por outro lado, ficou evidente que Itajaí contou até hoje com inúmeros pesquisadores de seu passado, o que é pouco comum no Estado, onde a maioria dos municípios pouco conhece de si mesma.

Enfrentou o ensaísta, a seguir, as diversas teses existentes a respeito da denominação do rio e da cidade. As dúvidas têm início com as variações da grafia da própria palavra, que são muitas e as mais estranhas, ensejando variadas interpretações. Aponta nada menos que 35 possibilidades. O significado do nome tem sido relacionado com pedras, creio que a interpretação mais disseminada, formigas, plantas, expressões idiomáticas e mineração. Esta última, pela qual se inclina o autor, encontra fundamentos em fatos históricos relativos ao Monte Tayó, no qual existiriam veios de ouro que foram explorados por mineradores em busca da fortuna, entre eles João Dias de Arzão, que requereu uma sesmaria próxima ao curso do rio, em 1658. Ele “abriu as portas do Vale do Itajaí na intenção de encontrar por aqui seu eldorado e acabou encontrando ouro em diversos locais, destacando seu achado em um tal Monte Tayó” (p. 67). Como na região não existe nenhum monte com esse nome, concluiu o pesquisador que se trata, na realidade, do Morro do Baú. “Sendo assim – conclui Floriano – o nome Itajaí teria o significado expresso de pedra brilhante, fazendo referência direta à mineração” (p. 83). Como acontece com muitos pioneiros, a sorte de Arzão não foi das melhores. Acabou preso e morreu em Portugal, na miséria e “moído de desgostos”, ainda que seu nome se perpetue na história do Vale do Itajaí.

Outras teses foram examinadas e descartadas pelo ensaísta, entre elas aquela que vincula o nome de Itajaí ao chamado Bico do Papagaio, na estraga geral de Cabeçudas. Também não agasalha as múltiplas interpretações que ligam o nome a pedras (água que corre sobre pedras, pedra de rio, rio com leito de pedra, rio das pedras, rio pedregoso etc.) e que eu tinha como as mais prováveis.

Mas o autor não se fecha em conclusões definitivas e continua aberto ao debate. “Nenhum estudo sobre o termo Itajaí deve ser considerado conclusivo enquanto não for encontrado o elo perdido entre as diversas civilizações que habitaram a região do Vale do Itajaí até mesmo antes dos povos dos sambaquis” – escreveu (p. 90).

Concluí do exame do livro que o Monte Tayó em questão nada tem a ver com aquele onde estaria encantado o “monge” João Maria, apóstolo do Contestado.

O livro é muito bem escrito, em estilo límpido e direto, contém interessante material iconográfico, mapas, bibliografia e diversos apêndices com informações complementares. Constitui, sem dúvida, importante contribuição para o conhecimento do Vale do Itajaí e alarga os horizontes sobre o nosso Estado.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/02/2017 às 16h07 | e.atha@terra.com.br

publicidade

O Sertão em Chamas

O cangaço foi um fenômeno brasileiro sem similar na história ou no mundo. Salteadores de estrada e assaltantes de vilas existiram em toda parte, e ainda existem hoje, mas jamais com as características do cangaço. Esse tipo de banditismo tinha regras e organização próprias, com hierarquia, divisão em subgrupos submetidos ao comando de pessoas de estrita confiança do chefe e com suas áreas de atuação delimitadas. Em situações de emergência ou em ataques mais importantes, todos se reuniam sob um comando único, do chefe maior. Também dominavam táticas e estratégias para escapar das perseguições das chamadas volantes policiais que os perseguiam, além de conhecer com perfeição as regiões onde atuavam, inclusive aperfeiçoando métodos de sobrevivência em lugares semi-desertos e hostis à vida humana, onde era difícil penetrar e viver. Mantinham com muito cuidado uma rede de protetores e informantes que forneciam armas, munições, víveres e roupas, bem como permitiam que se refugiassem no recôndito de suas grandes propriedades rurais. Chamavam-se coiteiros, muitos deles registrados pela crônica cangaceira. Esses coiteiros viviam em permanente perigo; quando descobertos pelas volantes sofriam severas punições e, quando suspeitos de traição, eram eliminados sem perdão. Até nas vestimentas o cangaço mantinha fisionomia própria: portavam chapéus com as abas dobradas na testa, adornados com moedas, medalhas e enfeites, usavam meias ou perneiras protetoras e calçavam alpercatas de couro. Além da cartucheira bem munida, transportavam junto ao corpo os embornais em que levavam os objetos de valor, dinheiro e papéis. As alças se cruzavam no peito, como uma canga, daí advindo o nome cangaceiro. Gostavam de perfumes e os usavam com profusão. Como viviam na caatinga seca e poeirenta, não podiam se banhar com frequencia, compensando a inhaca com o uso de loções aromáticas. Isso produzia um cheiro especial, conhecido pelos integrantes das volantes como cheiro de cangaceiro.

O cangaço teve início no Século XIX e se estendeu até 1938, considerado o ano de sua extinção. Muitos chefes de bandos cangaceiros se notabilizaram ao longo do tempo, desde o Cabeleira, Jesuíno Brilhante, Sinhô Pereira, Antônio Silvino e, mais ainda, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Quase todos foram homens frios e cruéis. Aterrorizavam as pessoas dos povoados, vilas, fazendas e até mesmo cidades onde apareciam, praticando as maiores atrocidades. Saqueavam o comércio, incendiavam as casas e plantações, sequestravam pessoas em troca de resgate, estupravam, torturavam e matavam quem se atrevesse a enfrentá-los. Não perdoavam os policiais, a quem chamavam de macacos, e maltratavam as autoridades que lhes caíssem nas garras. Houve o caso de um juiz de direito que foi montado e esporeado como cavalo na presença de populares horrorizados. O cangaceiro Zé Baiano portava um ferro de marcar animais com suas iniciais, usando-o para ferrar o rosto de mulheres. Para compensar tudo isso, às vezes distribuíam moedas aos mais pobres, conquistando a simpatia do povo humilde que via neles uma espécie de Robin Hood caboclo, que tirava dos ricos para dar aos pobres. Alguns cangaceiros desfrutavam de grande prestígio e simpatia.

Apesar do tempo decorrido, o cangaço continua instigando os pesquisadores e a bibliografia a respeito não cessa de crescer. Entre os mais recentes lançamentos está o extraordinário livro “O sertão anárquico de Lampião”, de autoria de Luiz Serra (Outubro Edições – Belo Horizonte – 2016). Escrito em linguagem elegante e contendo interessantes fotos, o autor faz uma abordagem histórica e sociológica do fenômeno, mostrando como o meio anárquico e a ausência do poder estatal permitiram o surgimento e a sobrevivência do cangaço por tanto tempo, mesmo perseguido sem cansaço pelas forças policiais de todos os Estados nordestinos. Segundo revela, desde longa data, o sertão fervilhava de combatentes engajados em variados movimentos sediciosos. Entre eles, recorda a Guerra de Canudos, a chamada sedição de Juazeiro, em que o Padre Cícero Romão Batista chegou a derrubar o governador do Estado, a Coluna Prestes, que ameaçava o poder dos “coronéis”, a chamada República de Princesa, em que o “coronel” José Pereira Lima declarou a independência de seu município, desafiando o poder estadual e, por fim, o assassinato de João Pessoa, em Recife, candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas, fato que teria sido o estopim para a deflagração da Revolução de 1930. Todos esses acontecimentos, contemporâneos ou em sequência, contribuíram para a formação do cadinho revolucionário que permitiu a criação de bandos cangaceiros que agiram por longos anos. Só a carreira de Lampião durou vinte anos.

Todos esses aspectos são estudados em minúcia, com base em extensa pesquisa, inclusive in loco, entrevistando testemunhas e conhecedores do assunto, de maneira a transmitir ao leitor um painel rico e completo sobre o curioso fenômeno. O livro de Luiz Serra se integra a partir de agora entre as obras indispensáveis ao perfeito conhecimento do tema.

Escrito por Enéas Athanázio, 30/01/2017 às 11h29 | e.atha@terra.com.br

publicidade





1 2 3 4 5 6

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br