Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Na cidade dos príncipes


Enéas é recebido na Academia Joinvilense de Letras

Convidado pela Academia Joinvilense de Letras, estive naquela cidade no dia 23 de março para fazer uma palestra a respeito de episódios pouco conhecidos da Guerra do Contestado (1912/1916). Recebidos no suntuoso e centenário prédio da Sociedade Harmonia Lyra, lá permanecemos, minha esposa e eu, durante várias horas de intenso e agradável convívio com os integrantes da entidade e convidados. Discorri sobre o tema proposto e em seguida respondi às perguntas que me foram formuladas em uma agradável troca de ideias e informações. Estiveram presentes os escritores Milton Maciel, presidente, Carlos Adauto Vieira, ex-presidente, David Gonçalves, Wilson Gelbcke, Nelci Seibel, Salustiano Luiz de Souza e vários outros, além de João Alberto Nicolazzi, meu antigo colega de Colégio. Foi uma noitada das mais agradáveis. O evento havia sido bastante divulgado.

A Academia Joinvilense é muito ativa e seus associados produzem trabalhos dos mais variados gêneros literários. Ela publica um suplemento mensal denominado “Hekademia”, adotando a forma original e mais antiga da palavra Academia e que conta com vários números publicados. Entre eles saíram edições especiais dedicadas a “Nossos cronistas, “Nossos contistas”, “Nossos romancistas”, “Nossos historiadores” e “Nossas escritoras.” O suplemento, editado com esmero, contém significativas amostras das obras e súmula biográfica de cada participante, sugerindo um contato mais longo e demorado com sua produção.

Dentre os múltiplos livros de autoria dos acadêmicos, tomei conhecimento de “Contos vaticanos” e “Como é caro ser mulher”, ambos de Milton Maciel, escritor experiente e de visível exigência em sua produção, criativo e dono da boa técnica da short story e também ensaísta de pulso; “O balaio gigante”, de autoria de Nelci Seibel, versando o gênero memorialista e descortinando as reminiscências da vida em família, escrito com emoção e justificada saudade; “O eterno Barnes”, de Salustiano Luiz de Souza, alentado e esmerado ensaio; “Varandão de luar” e “Bico de ouro”, ambos de David Gonçalves, escritor dos mais conhecidos e autor de uma obra robusta e variada.

Manuseei ainda a coletânea “Ensaio”, publicada pela própria Academia, reunindo textos em prosa e verso de Milton Maciel, Herculano Vicenzi, Carlos Adauto Vieira, Wilson Gelbcke, Jura Arruda, Nelci Seibel, Hilton Gorressen, Raquel S. Thiago, George Postai de Souza, Marcelo Harger, Irmã Cléa Fuck e Paulo Roberto da Silva. Bem editado, o livro contém substantiva amostra dos talentos acadêmicos, elementos da história da própria entidade e notas biográficas de alguns dos fundadores, além de curioso material iconográfico.

A Academia Joinvilense é um modelo para suas congêneres e faço votos de que seja sempre organizada e produtiva.

Devo, por fim, uma palavra sobre o amigo Carlos Adauto Vieira, decano dos advogados joinvilenses, com 60 anos de vida forense, incansável batalhador pelas coisas da cultura em geral e das letras em particular. Meu contemporâneo dos velhos tempos de Faculdade, nosso relacionamento vem de muito longe, sempre trocando livros e opiniões. Militante da cultura, sua presença na Academia é, por certo, motivo de estímulo para todos os demais.

Essa noite de convívio com os colegas de ofício da Cidade dos Príncipes foi muito estimulante e deixará saudades pela forma amiga com que fomos recebidos.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/04/2017 às 09h40 | e.atha@terra.com.br

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Do cangaço ao estrelato

O cangaço foi um fenômeno que não cessa de instigar a curiosidade dos pesquisadores e a bibliografia a respeito do tema só faz crescer. Entre os lançamentos mais recentes está o livro “Sila – Do cangaço ao estrelato”, de autoria de Elane Marques (Infographics – Aracaju – 2016), onde a autora aborda diferentes aspectos desse tipo de associação característico do Brasil e sem similar em qualquer recanto do mundo. O fio central da pesquisa foi biografar uma ex-cangaceira que se transformou em escritora e costureira de renome, obtendo grande notoriedade, mas alargou os limites para estudar a presença da mulher nos grupos cangaceiros e suas consequências. Estudou também os inúmeros casais que se formaram dentro dos bandos, seu modo de vida, a forma como as mulheres eram tratadas, os problemas decorrentes da gravidez e as implacáveis punições em caso de traição. Nesse sentido o livro é inovador, uma vez que não conheço obra semelhante.

O ingresso de mulheres nos grupos cangaceiros provocou muita controvérsia. Profetizaram alguns que seria o fim do cangaço; outros aplaudiram sem reservas. Admitida a entrada, a partir de 1929, os benefícios foram visíveis, como demonstra a autora. Desde então os cangaceiros teriam se humanizado, houve mais paz e tranquilidade no recesso dos bandos, reduziram-se os casos de estupros nas invasões de cidades e vilas e as doenças contraídas no baixo meretrício. Por outro lado, as mulheres tratavam da alimentação e do vestuário dos parceiros, contribuindo para a melhoria de sua saúde e higiene. Também não foram poucas as vidas poupadas graças à interferência delas.

Num levantamento que me parece único, a autora relacionou os inúmeros casais que se integraram nesses grupos. Dentre eles, avultam o de Lampião e Maria Bonita, ela tratada como uma rainha, sempre elegante, respeitada e querida por todos; Corisco, o Diabo Louro, e Dadá, mulher das mais corajosas e guerreiras, que não fugia aos combates, de arma na mão, e assumiu a liderança após o ferimento que impedia o marido de usar armas longas: Zé Baiano e Lídia, ele um cangaceiro feroz e desumano, célebre por marcar mulheres com ferro em brasa, e que assassinou a companheira a pauladas, depois de amarrá-la a uma árvore, em virtude de uma traição. Curioso no episódio é que o cangaceiro que a denunciou também foi sacrificado. A “ética” cangaceira não perdoava os “dedos-duros.” Destacou ainda, de maneira muito especial, a jovem Sila, quase menina na época, e seu companheiro e depois marido Zé Sereno.

Sila (Hermecília Braz São Mateus, depois Ilda Ribeiro de Souza) nasceu em Poço Redondo, Estado de Sergipe. Aos 14 anos de idade foi raptada pelo cangaceiro Zé Sereno, pertencente ao grupo de Lampião, e com ele conviveu até que a morte o levou. Permaneceu por dois anos no cangaço, tendo acompanhado o bando nas suas andanças, fugas das volantes, combates, assaltos e tropelias. Engravidou e teve um filho na caatinga, criança que foi entregue aos cuidados de coiteiros, uma vez que a presença delas era proibida. Mais interessante, porém, em sua vida cangaceira foi o fato de estar presente ao ataque das forças policiais na Grota do Angico na ocasião em que foram mortos Lampião, Maria Bonita e vários outros cangaceiros, em 1938, e que, segundo os historiadores, pôs fim ao cangaço. Desesperada, amedrontada, observando os que caíam em meio ao tiroteio e à fumaça das armas, Sila conseguiu escapar ao cerco e se tornou uma das sobreviventes da tocaia fatídica, como também aconteceu com Zé Sereno. Beneficiados pela anistia decretada por Getúlio Vargas, entregaram-se às autoridades, e iniciaram a longa e penosa viagem em busca de um recomeço de vida, Foram para Salvador, dali marcharam para Minas e, por fim, para São Paulo, onde se fixaram. O temível Zé Sereno, por ironia do destino, se tornou inspetor de alunos em um colégio e Sila granjeou grande renome como costureira, publicando também livros sobre sua terrível experiência e participando de novelas e seriados televisivos. Recebia frequentes convites para entrevistas e passou a proferir palestras sobre o cangaço e as minúcias da vida naquele meio. Andou por muitas cidades, falando e lançando suas obras, colaborando nas pesquisas sobre o assunto e contribuindo na sua divulgação. Tornou-se, em suma, verdadeira estrela, obtendo destaque na imprensa e entre os pesquisadores do fenômeno.

Graças ao meticuloso trabalho de Elane Marques, Sila foi alvo de importante ensaio biográfico e os estudos sobre o cangaço receberam significativa contribuição.

(Contato com a Autora: marqueselane2@bol.com.br)

Escrito por Enéas Athanázio, 10/04/2017 às 15h25 | e.atha@terra.com.br

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Em busca do tempo vivido

Não são muitos os memorialistas nas letras catarinenses. É um gênero literário em que poucos se destacaram no país, lembrando-se sempre os casos de Humberto de Campos, Gilberto Amado e Pedro Nava como os mais expressivos. Surge agora, entre nós, um livro marcante e cuja leitura me comoveu porque retrata com fidelidade a cidade de Canoinhas e, em especial, o distrito de Marcílio Dias, terra natal da autora. Há bons momentos de lirismo e poesia, outros tantos com mergulhos na intimidade subjetiva da autora e retratos enternecedores de figuras que marcaram sua trajetória de vida. As reminiscências, em forma de crônicas, fogem sempre das tão frequentes poses encontradiças em obras do gênero. O estilo é leve, a linguagem é correta e desenvolta e a autora se revela arguta observadora do meio e dos fatos, condição essencial ao cronista. Para quem residiu em Canoinhas, como eu, o livro é uma rara oportunidade de reencontro com a cidade e sua gente.

Refiro-me a “O Meu Lugar”, de autoria de Adair Dittrich (UNIUV – União da Vitória – 2016). Nascida em Marcílio Dias e médica de profissão, a autora é testemunha presencial de considerável período da história local em contato direto com o povo na sua lida cotidiana. Começa relembrando a instalação da família naquele distrito na luta árdua para a construção de um hotel e restaurante à margem da estrada de ferro, destacando a atividade de seus pais e a fama dos pastéis preparados pela mãe, sempre procurados pelos viajantes e ferroviários. Lembra, de passagem, a cerveja “Nó de Pinho” e as gasosas de “seu” Loefler, e que ainda conheci. Marcílio Dias se ligava a Canoinhas através de um ramal percorrido pelo Trenzinho, distinguindo-se do Trem Grande, aquele que fazia o trajeto entre Porto União e Mafra. Ali ela viveu inesquecíveis momentos de uma infância livre e feliz, relembrados com justificada saudade.

São tantas as lembranças evocadas que não é fácil destacar algumas nos limites de um artigo. No conjunto, elas revelam como são lentos e tortuosos os caminhos para a construção de uma cidade e os esforços de seus habitantes, ainda mais em uma região do Estado que sempre padeceu do mais completo abandono. Entre tantos acontecimentos, ressalta a memorialista a luta para a construção do hospital, a ampliação do colégio, a criação da fábrica para produzir cafeína, o Salão Metzger e suas festas e o chamado Campo de Trigo. E surgem retratos de épocas que parecem longínquas mas que, para nossa geração, são de ontem. Os carros movidos a gasogênio em face da escassez de gasolina, o estafeta que transportava de carroça as malas do correio, os sons sinistros dos machados e das serras na devastação da mata verde, os festejos de Natal, da Semana Santa e as domingueiras em que se espalhava serragem no soalho, a confraternização com amigas e colegas, a lembrança imorredoura dos dias do internato, as mestras que deixaram marcas, as peraltices, a rotina de uma vida disciplinada. Também não faltam os amores e as desilusões, os sonhos e as decepções inevitáveis na caminhada terrena, mas tudo contribuindo para a formação do ser humano e profissional em que se tornou.

Mas nem sempre foi um mar de rosas. Momentos chocantes deixaram marcas indeléveis. Assim foi quando fecharam a Escola Alemã, no correr da Guerra Mundial, e a prisão de conhecidos que falavam alemão. Num desabafo repleto de amarga surpresa, a menina confessou compungida: “E então eu entendi que o mundo não era feito de irmãos.” Tempos depois, em outra fase, aconteceu o cerco do distrito de Marcílio Dias. Com armas nas mãos, em aparatosa operação militar, varejaram a casa dos pais da autora em busca do “perigoso comunista”, seu irmão, Aldo Pedro Dittrich, num episódio deprimente e desnecessário. Meu contemporâneo de Faculdade, Aldo foi um homem de extraordinária coragem, firme nas suas convicções inabaláveis e, mais tarde, ainda que padecendo os efeitos das torturas, exerceu a advocacia na comarca com dedicação e dignidade. “Foi um dia inútil – escreveu a autora -, de uma imobilização inútil, por causa de uma inútil denúncia de algum inútil, onde muitos pagaram um preço de algo que nunca haviam ficado devendo.”

Muito bem fez Adair ao lançar no papel suas lembranças. Elas ficarão para sempre como um documento vivo das lutas e vitórias de seu povo. “A narrativa escrita – afirmou a escritora Zenilda Lins – pereniza a memória e materializa as observações. De que outra forma é possível compor as imagens, reter as cores, descrever as emoções? O livro é mágico: cristaliza as memórias perecíveis, evitando que se apaguem e se percam no nevoeiro do tempo e no emaranhado de novas experiências.”

Minhas saudações a Adair, uma escritora que já veio feita da experiência jornalística e que ingressa no mundo literário com passo firme. Ao contrário de Proust, que buscava o tempo perdido, ela recupera um tempo muito bem vivido.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/04/2017 às 09h47 | e.atha@terra.com.br

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Não conteste o Contestado ...

Não são muitas as tentativas de levar ao palco os eventos da Guerra do Contestado (1912/1916), pelo menos que eu saiba. Entre elas, no entanto, avulta “O Contestado”, de Romário José Borelli, publicada em livro por Orion Editora (Curitiba – 2006). Historiador, musicista e dramaturgo, o autor nasceu em Porto União e vem realizando longa e bem sucedida carreira na arte cênica, tanto no país como no exterior. A peça em questão foi montada pela primeira vez em 1972, numa época em que a bibliografia a respeito do Contestado ainda era bastante resumida. Ademais, havia no ar o risco da censura pelo governo autoritário de então, mas a peça foi exibida em diversas localidades, algumas delas em plena rua, e sempre com grande sucesso. Segundo o autor, até a época da publicação a peça fora montada mais de vinte vezes e nela haviam trabalhado mais de quinhentos atores, desde São Paulo até o Rio Grande do Sul. Como se vê, fez uma brilhante carreira.

A primeira observação que se impõe é de que o autor conhece bem o assunto, os personagens, a geografia da região onde se desenrolou o conflito, percebendo-se que palmilhou por lá e escreveu com base na experiência própria. Foi fiel aos usos e costumes locais, ao modo de vida dos nossos caboclos, suas crenças e convicções e, acima de tudo, procurou manter absoluta fidelidade à linguagem rude, ao mesmo tempo conservadora e criativa, falada pelos habitantes da Serra-Acima. Também foi muito feliz na construção dos diálogos, aliando assim duas condições que Hemingway considerava básicas na arte literária: a sinceridade e a expressão exata nas conversações dos personagens.

Quanto a estes, são numerosos e muitos deles pinçados da realidade histórica. O monge João Maria, cuja visita era esperada com ansiedade; a entrada em cena do monge José Maria, cuja morte no Combate do Irani semeou um rastro de ódio e um grito de vingança pelos campos e matos; as virgens santas Maria Teodora e Maria Rosa; o prefeito Amazonas Marcondes; Elias e Euzébio; o tenente Kirk e seu aeroplano; o temível Adeodato, por eles chamado Leodato, derradeiro chefe dos revoltosos no momento em que os redutos caíam um a um. Além de incontáveis atores e figurantes.

Também os locais dos acontecimentos são mencionados, desde os rios Iguaçu e Uruguai, dentro de cujos limites o conflito se estendeu, o rio Timbó, Porto Amazonas, Valões, Porto União, Calmon e Curitibanos, sem faltarem os redutos de maior expressão. A fuga em massa dos habitantes de Porto União na iminência da invasão dos revoltosos, os ataques a Calmon e Curitibanos, tudo é recordado com tintas fortes e sugestivas. Como se vê, tantos foram os acontecimentos, espalhados por uma imensa região e com tais detalhes que colocá-los numa peça teatral se torna uma tarefa das mais complexas. Mas o dramaturgo catarinense conseguiu e sua obra fornece um panorama geral do conflito e seu impacto emociona o leitor. Não tive oportunidade de vê-la no palco mas imagino o seu efeito.

O autor insistiu sempre na necessidade de conservar a linguagem regional “para manter a autenticidade do processo cultural através da fala e dessa forma o documento linguístico complementa o documento histórico. Não é uma imitação, não é uma caricatura. É, antes de tudo, um resgate preciso e assim deve ser tratado.” Também o ambiente de revolta dominante na região em face da exploração, da miséria e do abandono daquele povo fica bem visível, justificando o nascimento de um movimento espontâneo, de baixo para cima, tentando transformar pela força o statu quo vigente. Nesse contexto, o conflito do Contestado, segundo os cânones da Ciência Política, foi uma verdadeira revolução para a qual não faltaram razões. Pois, como diz o refrão tantas vezes lembrado na peça:

“Não conteste o Contestado,
sem sabê sua razão. .
.”

Escrito por Enéas Athanázio, 27/03/2017 às 09h52 | e.atha@terra.com.br

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A terra sem mal

Graças à gentileza de Carlos Adauto Vieira, colega de ofício, pude ler o livro “História do Caminho de Peabiru”, de autoria de Rosana Bond (Editora Aimberê – Rio de Janeiro – 2009). Jornalista e pesquisadora, residente em Florianópolis, a autora realizou verdadeiro manual sobre os índios guaranis, seus costumes, modo de vida, crenças, mitos, história e tudo mais, baseado em longas e minuciosas pesquisas em copiosa bibliografia, documentos, entrevistas e visitas a diversas aldeias indígenas, tanto aqui no Estado como em outras regiões, mantendo contato direto e pessoal com seus habitantes. O resultado é um panorama amplo e completo da civilização guarani desde suas origens até os dias de hoje como não encontrei igual. A autora, sem dúvida, é possuidora de um conhecimento ímpar a respeito de tão complexo quanto vasto tema.

Embora o objetivo central da obra fosse investigar o lendário Caminho de Peabiru, ela foi muito além e tratou de inúmeros outros aspectos, muitos deles inéditos ou pouco conhecidos. Originários da Amazônia, os guaranis sempre foram dados a grandes andanças, embora não fossem propriamente nômades. No correr dos séculos se deslocaram para o sul e se instalaram no Paraguai e dali, em ondas sucessivas, se espalharam por outras regiões. Mesmo sendo um povo da mata, da selva, sempre cultivou uma fixação pelas areias das praias litorâneas. Para os guaranis, o litoral era o fim do mundo e só dali poderiam chegar à Terra Sem Mal ou Terra do Sol, segundo a mitologia situada numa ilha do Atlântico. Seria uma espécie de paraíso, de céu, de terra de benesses. Com tal propósito, percorreram imensos trechos da costa nacional, fixando aldeias em diversos lugares, inclusive aqui no Estado.

Objetivo maior, porém, teria sido a construção do Caminho de Peabiru, ligando o Atlântico ao Pacífico, o nascente ao poente, o leste ao oeste do continente. Com a construção, fariam o mesmo trajeto do Sol no seu dia-a-dia. Pesquisadores de várias áreas científicas, em criteriosas buscas, encontraram trechos do lendário Caminho em locais onde não foram destruídos pelo desmatamento, pelas lavouras mecanizadas e pela instalação dos latifúndios. É provável que alguns trechos tenham sido construídos por outros povos e foram reaproveitados. A estrada, cruzando as distâncias, contém trechos compactados pelo pisoteio dos viajantes, outros revestidos de gramíneas de um tipo especial cujas sementes são transportadas pelos pés das pessoas e assim se disseminam, escadarias em lugares íngremes, estacas sinalizadoras nas regiões pantanosas, cortes nas rochas e locais para descanso e guarda militar, muros e escoras. Partindo do litoral catarinense e paulista, o Caminho se estendeu para o oeste, cruzando o Paraguai, a Bolívia e o Chile, terminando em Copiapó, ponto provável da chegada dos guaranis ao Pacífico. Além do leito principal, o “caminho longo”, havia ramais ou “caminhos curtos.” É impressionante o esforço necessário, o trabalho incansável e a dedicação dos silvícolas para a realização de tão inaudita proeza. “É importante expor – escreveu a autora – que do ponto de vista guarani tudo indica que o Peabiru era tido como o Caminho Comprido (Tape Puku/Itapocu), que reproduzia na terra o caminho solar no céu. Portanto, poderia ser chamado também de Caminho do Sol.”

Tudo indica que eles de fato buscaram esse paraíso, tanto no leste como no oeste, muito antes da invasão europeia no Século XVI. Muitas das informações contidas no livro foram obtidas ao custo de paciência e persistência, conquistando devagar a confiança dos guaranis que, por índole, “só falam aos pouquinhos.” Falar à toa é considerado um dos piores defeitos. Algumas de suas crenças constituem segredos guardados a sete chaves e que jamais revelam. O não-índio, por mais íntimo que seja, “jamais possuirá a integralidade de tal código porque não é índio, pertence a outro tipo de sociedade.”

Segundo a autora, os guaranis alcançaram elevado grau de desenvolvimento técnico e científico, dominando muitos conhecimentos antes mesmo de serem descobertos pelos sábios europeus. A invasão europeia os “desaculturou”, como dizia Darcy Ribeiro, violentando seus costumes, crenças e modus vivendi, como se lhes tirassem o solo de baixo dos pés. Abandonados, vítimas do desprezo e do preconceito, lutam com extrema dificuldade pela sobrevivência em espaços cada vez mais limitados pela ganância e incompreensão de muitos.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/03/2017 às 09h28 | e.atha@terra.com.br

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Um Cangaceiro Diferente

O mundo do cangaço é repleto de surpresas. Fenômeno típico brasileiro, esse banditismo organizado e característico fascina pesquisadores e curiosos e revela aspectos inusitados e figuras das mais curiosas. Entre estas se destaca o caso de Jesuíno Brilhante (1844/1879) que se orgulhava de não ser ladrão e foi considerado pelos estudiosos um cangaceiro romântico. Ora, o cangaço se nutria do roubo, do furto, do assalto e da extorsão, de forma que encontrar um de seus expoentes, chefe destacado de bando, que foi romântico e não se apropriava do alheio parece algo impossível. Mas foi essa a imagem que deixou.

Jesuíno Alves de Melo Calado nasceu no sítio Tuiuiú, na localidade de Patu, no Rio Grande do Norte, de uma pacata família de agricultores. Em virtude do furto de uma cabra, gerou-se um conflito entre sua família e o numeroso clã dos vizinhos conhecidos como Limões. Enquanto os Alves de Melo eram brancos (“marinheiros”, de olhos azuis), os Limões eram negros, o que contribuía para acirrar os ânimos, ainda em época de escravidão. Os brancos recebiam o tratamento depreciativo de “amarelos”, enquanto os outros eram rotulados com desprezo de “cabras”.

O desentendimento degenerou em guerra franca e os ataques recíprocos se sucederam. A velha politicalha interferiu em favor dos Limões e a vida de Jesuíno se tornou impossível na região. Abraçou então o cangaço e em pouco tempo já chefiava poderosa quadrilha. Em homenagem a um tio, cangaceiro célebre, adotou o nome de Jesuíno Brilhante, com o qual se celebrizou. Segundo a voz do povo, tornou-se o protetor dos pobres, das famílias, dos fracos e das moças seduzidas. Tirava dos ricos para distribuir entre os pobres. Obrigava os sedutores a casar e atacava os comboios de provisões do governo, nos períodos de secas, para distribuir entre os famintos. Virou, em suma, uma espécie de Robin Hood matuto e foi louvado pelos cantadores das feiras e mercados na literatura de cordel. Descobriu uma gruta na encosta de uma serra e a transformou em fortaleza inexpugnável de onde fazia frente a numerosas volantes policiais – a famosa Casa de Pedra.

O cangaceiro foi morto em virtude da traição de um seleiro a quem havia feito uma encomenda e sepultado em cova rasa no próprio local. Anos depois, um médico, amigo dele, exumou os restos mortais e levou a caveira. Mais tarde ela foi entregue ao célebre psiquiatra Juliano Moreira. E desapareceu sem deixar vestígio porque “caveira não tem letreiro.”

Dois foram seus feitos mais notáveis. Com um grupo de oito cangaceiros, atacou em pleno dia a cadeia de Pombal, na Paraíba, destruindo-a e libertando 43 presos, entre eles seu irmão Lucas. Um ano antes, com dez homens, foi à cidade de Imperatriz, hoje Martins, para buscar uma moça “depositada” na casa de um figurão local. Cercados pela polícia e cidadãos armados, fugiram ilesos de maneira cinematográfica. Para isso, arrombaram a parede que ligava à casa contígua e desapareceram na escuridão da noite. Ambos os episódios tiveram intensa repercussão e até o governador do Estado determinou “prontas providências.”

Também merecem referência as “visitas” que fazia à cidade de Mossoró, afrontando a tudo e a todos enquanto o sertão fervilhava de escoltas policiais à sua procura.

Jesuíno Brilhante, segundo os estudiosos do tema, ainda exercia o cangaço com certa ética, coisa que Antônio Silvino e Lampião, seus sucessores, ignoraram. Conta-se que certa vez pediu a um fazendeiro rico uma quantidade de dinheiro, um cavalo e uma vaca, tendo o proprietário negado e dito que, se ele quisesse, pegasse com suas próprias mãos. “Eu não sou ladrão!” – gritou Jesuíno, indignado. Montou no cavalo e se foi. Como afirmou Gustavo Barroso nenhuma comparação entre ele e os outros cangaceiros é possível.

O cangaceiro romântico tem sido estudado pelos maiores nomes do folclore nacional, como Luís da Câmara Cascudo, Gustavo Barroso, Múcio Leão, Lauro Escóssia e Raimundo Nonato, autor do excelente livro “Jesuíno Brilhante, o Cangaceiro Romântico”, edição fac-similar da Editora Sebo Vermelho (Natal/RN).

Escrito por Enéas Athanázio, 13/03/2017 às 13h27 | e.atha@terra.com.br

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