Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O Internacional

É provável que muitos não se lembrem, mas existiu um trem internacional que cortava nosso Estado pelo meio-oeste, mais precisamente pelo Vale do Rio do Peixe. Tratava-se de uma composição de luxo, com vagões blindados e todo conforto. Possuía vagão-restaurante, cabines com leitos, fumódromo com poltronas elegantes e garçons solícitos que percorriam os corredores servindo bebidas, petiscos e até mesmo jornais e revistas. Como era uma composição curta, atingia velocidade média bem superior à dos demais trens de passageiros. Além disso, não fazia escala nas pequenas estações, parando apenas nas mais importantes e por poucos minutos. Nas estações menores limitava-se a reduzir a marcha ao entrar no quadro para que o maquinista recebesse do agente o “pode”, ou seja, o passe que permitia o prosseguimento da viagem com a linha livre de outros trens.

O Internacional partia de São Paulo e só fazia escalas em poucas estações de cidades maiores, como Ponta Grossa. Porto União da Vitória, Caçador, Joaçaba e Marcelino Ramos antes de chegar a Porto Alegre, de onde prosseguia até Buenos Aires, após receber novas locomotivas. No território dos Estados do Paraná e Santa Catarina era mantido e dirigido pela Rede Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC) e no Rio Grande do Sul pela Viação Férrea Rio Grande do Sul (VFRGS).

A composição era tirada por locomotivas grandes e possantes, lembrando-se as de números 620 e 644, ambas movidas a lenha como as “marias-fumaças” em geral Essas locomotivas sempre foram admiradas pela potência e pela elegância de seu porte. Mantidas em plena forma, apresentavam-se reluzentes como novas.

A passagem do Internacional pelas cidades menores, mesmo não fazendo escalas, era aguardada com curiosidade e muitas pessoas acorriam às plataformas das estações para apreciar o monstro negro e iluminado que avançava orgulhoso em direção a mundos diferentes. Em cidades maiores, onde fazia uma breve parada, constituía objeto de geral curiosidade e as pessoas o contemplavam com interesse. O trem aceitava passageiros para os trechos entre as cidades maiores e graças a isso tive ocasião de viajar nele algumas vezes. Comentava-se que só ferroviários mais qualificados prestavam seus serviços nesse trem. Inspetores, chefes-de-trem, maquinistas, foguistas, guarda-freios eram selecionados entre os mais esclarecidos e educados.

Como seria previsível, o Internacional provocou muita matéria de jornal e entrou na literatura e na história. Historiadores, contistas e cronistas muito escreveram sobre ele e até mesmo eu o relembrei em alguns escritos. O cronista catarinense Jocely Lona Cleto, nascido e criado em Porto União, viveu durante a melhor fase do luxuoso meio de transporte e o evocou com saudade em algumas de suas crônicas. No livro”Do mundo de minhas saudades”, publicado em 2001, rendeu suas homenagens ao trem  que fazia tanto sucesso, publicando inclusive fotos das célebres locomotivas 620 e 644 que por tantos anos o rebocaram na longa e tortuosa jornada.

“Fosse numa terça-feira, fosse numa sexta-feira, a chegada do Internacional era esperada com expectativa inusitada – escreveu o cronista. – Viesse do sul ou do norte, aqueles momentos de vibração eram vividos em Porto União da Vitória. Lá vem vindo o Internacional, anunciado pelo apito e bater do sino, inolvidáveis, que ainda hoje, na saudade dos momentos vividos, arrepia a todos. Lá vinha o Internacional pelos trilhos que chegavam de Ponta Grossa, atravessavam o rio Iguaçu na majestosa ponte ferroviária que mais tarde foi substituída por outra, feia e inexpressiva. E, quando o Internacional entrava na ponte, aquele apito parecia dizer: Estou chegando, estou chegando para vocês!”

Majestosa e elegante, a locomotiva ingressava no chão catarinense. Entre bufos e rangidos de freios, estacionava nas plataformas da bela Estação União. E ali tomava fôlego para prosseguir numa jornada longa e única, jamais esquecida pelos que conheceram o Internacional.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/07/2017 às 18h47 | e.atha@terra.com.br

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Obras de Péricles Prade

Tenho diante de mim diversos livros de Péricles Prade, um dos escritores mais versáteis e profícuos que conheço. Cada um deles, de gênero diferente, mereceria um comentário especial mas, como não é possível no momento, limitar-me-ei a algumas observações que me ocorrem, iniciando pelos contos reunidos em “Correspondências – Narrativas Mínimas” (Editora Movimento – P. Alegre – 20009).   

O volume reúne 22 contos, todos curtos e alguns curtíssimos, extremamente econômicos em palavras como, por sinal, anuncia o subtítulo. Abstraídas as considerações de ordem teórica que a obra do contista tem suscitado, dessas que poucos leem e muitos não entendem, o que prevalece nessas narrativas é a surpresa, o inesperado, o estranho, o inusitado. Como regra, o leitor é apanhado de surpresa diante do inverossímil e do desconcertante, embora tudo seja apresentado no mesmo plano, sem que o autor estabeleça limites entre o real e o imaginário, o surreal e o fantástico. Alguns exemplos talvez elucidem melhor o que senti e pretendo dizer.

Em “Rabos de Tigre”, conto muito sintético, surge um tigre branco que, mesmo não sendo o preferido do narrador, tem a singular característica de possuir três rabos. O primeiro rabo é muito fino e delicado; o segundo é muito grosso e indelicado. “O terceiro – conclui – não é muito fino e nem muito grosso. Lembra chicote de couro rústico. Inclina-se ora à esquerda, ora à direita...” E quando o leitor, curioso, se indaga da razão disso, lá vem a resposta desconcertante: “sei o porquê mas não digo” (p. 26).

“Esconderijo” é outro caso típico (pp. 9/12). Nesse conto, que não é dos mais curtos, o contista se superou. Sua imaginação fervilhante não encontrou limites e semeou o texto de detalhes incríveis e insólitos que deram ao tema central, objeto da história em si, um ar dos mais pitorescos. Nele o diabo, depois de infernizar Lutero, vai a uma reunião de apreciadores de bons vinhos. Chega adiantado e se esconde na rolha da garrafa do melhor dos vinhos disponíveis. O Presidente da associação, desrespeitando as regras, “resolve colocar a garrafa entre as pernas, furar a rolha com movimentos fortes e puxá-la de um só golpe.” E então o incrível acontece: “Os degustadores tiveram a impressão de ouvir um grito, mas, como estavam muito, muito alegres, limitaram-se a renovar o brinde, sem perceber, nos resquícios da cortiça, minúsculos filamentos de miolos flutuando no copo.”

O diabo, por sinal, assim como outras figuras abissais, são frequentadores da ficção pradiana. Neste caso, ora aparece travestido de mulher, ora em forma de mosca, ou ainda de jovem e aristocrático enólogo. Todos os contos deste livro vão nessa linha, premiando o leitor com o inusitado das surpresas e desafiando-o sempre a exercitar a imaginação.

Em “Pantera em Movimento – Breves poemas de muito amor” (Letras Contemporâneas – Florianópolis – 2006), Péricles reúne um conjunto de breves poemas que, na verdade, se constituem num só, impregnados de intenso sentido erótico e sensual. São textos muito trabalhados, precisos e instigantes, e que fogem um pouco à temática poética do autor, em geral voltada ao surreal e ao fantástico.

Versando gênero diverso, “”Revoluções Culturais” (Escrituras – S. Paulo – 2004) enfrenta o difícil campo do ensaio relacionado à Filosofia, à Ciência, às Tradições e às Letras. São cinco ensaios bem pensados, pesquisados e esmerados nos quais o autor confirma sua reconhecida erudição e sua admirável versatilidade. São textos que ilustram e instigam, enriquecendo a nossa ensaística que, nestes últimos tempos, anda em baixa.

Por fim, uma palavra sobre “A Pintura de Sílvio Pléticos” (Letras Contemporâneas – Florianópolis – 2010), magnífico livro-álbum em que o escritor, agora no exercício da crítica artística, disseca a obra do conhecido pintor. É um trabalho excelente e que dignifica a ambos.

Escrito por Enéas Athanázio, 17/07/2017 às 12h51 | e.atha@terra.com.br

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MEU EX-AMIGO ESCRITO

Segundo ele afirma, Pedro Albeirice da Rocha e eu nos correspondemos durante 34 anos sem nos encontrarmos. Só no dia 30 de maio passado aconteceu nosso primeiro encontro, quando ele passou um dia em minha casa e pudemos conversar bastante. Assim, Albeirice deixou de ser um amigo escrito e passou a ser um amigo falado.

Fluminense de Volta Redonda, doutor em letras, professor de literatura e escritor, Albeirice é ubíquo. No longo período em que trocamos cartas ele residiu em Tubarão, Chapecó, na Irlanda, em Malta, na Bélgica, no Tocantins e não sei mais onde, fixando-se, por fim, em Joinville, onde hoje se encontra e leciona na UFSC. É um globe-trotter que vive espargindo ensinamentos literários por toda parte. Apaixonado por Santa Catarina, o retorno definitivo está no seu horizonte.

Escreve sempre, onde quer que esteja, e sua obra se estende por vários gêneros. É contista, ensaísta, cronista, tradutor e poeta. Em rápidas pinceladas, procurarei dar uma mostra de seu trabalho.

Como ensaísta, tem se debruçado sobre a obra de Monteiro Lobato. “Esse gênio chamado Lobato”, “O paradoxo de Monteiro Lobato” e  “El fenómeno Monteiro Lobato”, este em espanhol, são alguns de seus trabalhos dedicados ao criador do Sítio do Picapau Amarelo. Observa ele que Lobato passou a vida toda advogando a simplificação da língua, despindo-a de literatice, e, no entanto, sofreu forte influência de Camilo Castelo Branco, por quem tinha verdadeira veneração. Apesar desse paradoxo, enfrentou os defensores do rigorismo gramatical e conseguiu dominar uma linguagem simples e direta, acessível a todos, em especial na literatura infantil. Foi um renovador da linguagem. Como disse Nelson Palma Travassos, Lobato começou camiliano e tertminou taubateano. Em outra passagem analisa as relações conturbadas de Lobato com os modernistas, agravadas pela crítica à pintura de Anita Malfatti. Embora classificado como pré-modernista, não se integrou ao movimento modernista, ainda que Oswald de Andrade o considerasse precursor do modernismo brasileiro. Como tradutor, acentua o ensaísta, o grande mérito de Lobato foi aproximar a linguagem literária das criaturas brasileiras que desejavam livrar-se do difícil português europeu.

Na área do conto, destaco “Leandra”, narrativa dramática em linguagem livre e solta; “Na ponte”, conto nostálgico enfocando o encontro inesperado de dois amigos de infância, na calada da noite, sobre uma ponte isolada, ouvindo-se apenas o marulhar das águas do rio; “Neofarrapo” evoca as múltiplas guerras, maiores e menores, que fazem o mundo sangrar.

O cronista se apresenta em “Crônicas do Tocantins e outras viagens”, reunindo um punhado de textos escritos ao sabor dos acontecimentos e dos eventos da vida do autor. Aqui ele revela que está sempre com as antenas ligadas e atento para captar os temas cronicáveis e transformá-los em belas peças literárias. Destaco a crônica “Lembranças catarinetas”, sentida louvação ao nosso Estado.

Quanto ao tradutor, merece realce o livro “El caso de ‘Mi planta de naranja lima’: literatura brasileña infanto-juvenil traducida al español”, alentado ensaio acadêmico desenvolvido em universidades estrangeiras. É um mergulho profundo na difícil arte da tradução literária, desde as origens dos estudos sobre o tema, os estudos existentes e as normas. Aborda as várias facetas do assunto, inclusive o antigo debate sobre a possibilidade ou não da tradução de poesia e as traduções para crianças. Esmiúça a técnica e a tática da tradução e enfatiza a obra de José Mauro de Vasconcelos.

Ainda no campo da tradução, como professor e orientador, realizou um trabalho que me parece único. Propôs aos seus alunos o desafio de traduzir versos de Rudyard Kipling, publicados em seus “Jungles Books”, em 1894 e 1895, relacionados aos contos de Mowgli, o menino-lobo. Os jovens se entregaram à tarefa com entusiasmo e o resultado está enfeixado no volume “Poemas a muitas mãos.” Foi um trabalho de incentivo ímpar à leitura.

Em 2015 Albeirice foi homenageado na I Coletânea “Viagens pela escrita”, publicada em Volta Redonda por Poeart Editora e com a participação de inúmeros poetas de todo o país. Em apêndice, uma súmula biográfica do escritor e suas realizações.

Para encerrar, uma pequena amostra da obra poética de Albeirice:

FLUMEN (*)

Cheiro de pequi,
gosto de bacaba...
Na cozinha, mamãe prepara a panelada
enquanto a lenha chora no fogão.
Ai, esses meninos que não voltam do rio!
Cuidado, olha as arraias!
Meus olhos, petrificados de terror,
ante as histórias de esporadas.
ataques de piranhas
e abraços de sucuris.
A mamãe não atinava
o que eu, então, já sabia:
suas invenções eram fruto
de um amor cuidadoso.
A mamãe se encontra ausente.
mas o rio segue em frente,
com suas alegres arraias
e suas afoitas piranhas.
Mas, a sucuri que aperta,
tem outro nome: saudade.

________
(*) “O rio”, em latim.

Escrito por Enéas Athanázio, 10/07/2017 às 09h21 | e.atha@terra.com.br

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No tempo dos redutos

A chamada Guerra do Contestado (1912/1916) tem despertado o interesse de inúmeros pesquisadores e conta hoje com volumosa bibliografia. Creio, no entanto, que ainda não surgiu uma obra unificadora, fornecendo uma visão geral e completa dos acontecimentos. Talvez isso aconteça em virtude da grande extensão do território onde se desenrolaram as hostilidades (cerca de 28.000 Km2), da longa duração do conflito e dos inúmeros locais em que ocorreram combates. Diante disso, as informações são esparsas, colhidas em numerosos livros e outras publicações, dificultando uma visão de conjunto. Nem sempre os relatos coincidem, encontrando-se contradições, omissões e discrepâncias difíceis de explicar. Alguns dos livros publicados, no entanto, fornecem informações minuciosas sobre determinados episódios omitidos em outras obras, permitindo preencher muitas lacunas.

Entre estes, destaca-se “Da cidade santa à corte celeste: memórias de sertanejos e a Guerra do Contestado”, de autoria de Delmir José Valentini, publicado pela Universidade do Contestado – UnC (Caçador – 2003). Professor dessa Instituição e pesquisador na área da História, o autor realizou um trabalho modelar, baseado em vasta bibliografia e valorizando as buscas in loco, entrevistando numerosas pessoas, algumas delas participantes dos acontecimentos ou seus descendentes, além de moradores antigos da região. Graças à história oral, obteve informações inéditas ou pouco conhecidas, enriquecendo sobremodo seu trabalho.

O livro é dividido em cinco capítulos: Cenário e Protagonistas, A Igreja e a Crença, Redutos da Fé, Personagens e Adeodato e o Crepúsculo. No capítulo de abertura o autor descreve o palco dos acontecimentos, sua geografia, fauna e flora, a extração da erva-mate e tudo mais. Examina a situação dos moradores da região, em grande parte caboclos sertanejos submetidos ao despotismo dos latifundiários, entregues à pobreza e ao abandono, sobrevivendo com dificuldade num clima hostil. Sustenta suas observações em manifestações escritas e orais, inclusive de militares e participantes diretos dos eventos. Vale-se, ainda, de seu perfeito conhecimento pessoal da região.

No capítulo seguinte aborda a decisiva influência exercida pelos dois monges que peregrinaram pela região, João Maria Agostini e João Maria de Jesus, em especial a deste último, cujas pregações calaram fundo no coração dos sertanejos. Mostra como, aos poucos, o catolicismo rústico foi superado pela crença na Santa Religião dos redutos, o relacionamento entre os padres franciscanos e os monges e a atmosfera de misticismo que envolveu o Planalto. Descreve, em seguida, a entrada em cena do monge José Maria, curandeiro que se apresentava como irmão de João Maria Agostini e que pereceu no chamado Combate do Irani, no dia 22 de outubro de 1912, sendo sepultado em cova rasa para facilitar sua prometida ressurreição à frente do exército encantado de São Sebastião. Fornece curiosos dados biográficos do monge e reafirma que seu nome era Miguel Lucena de Boaventura, hoje posto em dúvida por outros pesquisadores.

Talvez o mais interessante do livro, o terceiro capítulo aborda os principais redutos ou cidades santas onde se reuniam os revoltosos, a vida dentro deles, suas práticas, hierarquia, orações e tudo mais, a forma de arrecadação de alimentos, vestuário, armas e munições. Taquaruçu, nas proximidades de Fraiburgo, Caraguatá, em Perdizes Grandes, Bom Sossego, Caçador, Santa Maria (Timbó Grande), São Miguel e São Pedro são descritos com suas localizações, organização interna, chefes, quadros santos, sem faltarem as virgens santas e os meninos que “conferenciavam” com o monge. É um conjunto de informações difíceis de serem encontradas.

O capítulo IV se ocupa dos personagens. O primeiro a aparecer é “Dom” Manoel Alves de Assumpção Rocha, sagrado imperador constitucional da Monarquia Sul Brasileira, em agosto de 1914, quando circulou uma carta à nação, espécie de Constituição, a ele atribuída. Curandeiro simplório, que andava descalço e com as calças arregaçadas pelas canelas, analfabeto, conhecido como Mané Rocha, o episódio aparenta ser uma troça e a autoria da Constituição, segundo li em algum lugar, seria de um Promotor Público. Seja como for, a coroação não vingou, e a participação do “imperador constitucional” foi efêmera e apagada. Chica Pelega e Maria Rosa também entram em cena, reforçando a presença feminina. Dentre os comandantes, avultam as figuras de Venuto Baiano (Benevenuto Alves de Lima), sobre quem pouco se sabe, mas que foi “comandante de briga” e chefiou o ataque a São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Natural da Bahia, de origem italiana, teria sido marinheiro e desertou durante a Revolta da Armada, em abril de 1894, em um porto catarinense, segundo afirmou Vinhas de Queiroz. Olegário Ramos, Agostinho Saraiva, Henrique Wolland, Aleixo Gonçalves de Lima, Antônio Tavares Júnior, Bonifácio José dos Santos (Bonifácio Papudo), Conrado Grober e Francisco Alonso de Souza (Chiquinho Alonso) são outras figuras de relevo cujas personalidades e atuação são examinadas.
O último capítulo descreve o período final da revolta e a queda dos redutos diante das forças oficiais. Foi o reinado de Adeodato Manoel Ramos, cujo verdadeiro nome era Joaquim José de Ramos, mais conhecido como Leodato. Governando o reduto com mão de ferro, suas atrocidades teriam sido inumeráveis. Resistiu até o fim, embrenhando-se nas matas, até que foi aprisionado, faminto, molambento e desesperado. Numa desastrada tentativa de fuga da penitenciária de Florianópolis, depois de ter sido condenado, foi morto pelo coronel Trujilo de Melo. Adeodato teria implantado verdadeiro regime do terror durante seu comando e inspirava no povo humilde um misto de medo e admiração. Foi o último jagunço.

A leitura do livro sugere algumas observações. A primeira se prende ao monge João Maria Agostini, o primeiro. Pesquisas posteriores conseguiram rastrear seus passos. Saindo do Brasil, percorreu a América Central e foi ter nos Estados Unidos, onde teria sido morto por índios selvagens no estado do Novo México. No local, segundo consta, foi erigido um marco registrando seu falecimento. É impressionante como ele andou! A segunda observação se refere a Chiquinho Alonso. Segundo alguns autores, ele chefiou o ataque a Calmon, no dia 5 de setembro de 1915, quando teria entre 16 e 17 anos de idade. É uma informação que não fecha com o que se lê neste livro. Antes desse ataque ele já fora comandante de um reduto, sendo pouco provável que fosse tão jovem.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/07/2017 às 16h55 | e.atha@terra.com.br

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“Vida Ociosa”: algumas notas

Depois de muito tempo, reli o romance “Vida Ociosa”, de autoria do escritor mineiro Godofredo Rangel (1884/1951). Foi o livro de estreia do autor, lançado em 1920, com o selo da Revista do Brasil, de Monteiro Lobato & Cia. Editores. Trazia como subtítulo “romance da vida mineira”, retirado nas edições posteriores.

Edgard Cavalheiro afirmou, mais tarde, que o livro teve pouca aceitação. Monteiro Lobato, porém, discordou de seu futuro biógrafo e mais de uma vez enfatizou o valor literário da obra rangelina. “Indubitavelmente – escreveu ele – foi este livro a obra-prima do ano, e tempo virá em que o juízo unânime da crítica, em coincidência admirável com o juízo unânime do público, o coloquem entre a meia dúzia de obras supremas, formadoras da cúspide da literatura nacional.” E, em outra passagem: “O que assombra neste livro é a perfeição absoluta de fatura, coincidindo com a perfeição absoluta de ideação, circunstância feliz que faz da “Vida Ociosa”, em meu humilde parecer, o único livro nosso que, embora de gênero diverso, possa ser colocado numa estante entre “Brás Cubas” e “D. Casmurro.” Poderão dizer que se tratava de opinião de amigo, mas Lobato exalava sinceridade e seu parecer não foi isolado.

Com efeito, em artigos, cartas e manifestações diretas, aplaudiram o romance: Adalgiso Pereira, Ricardo Gonçalves, Augusto de Lima, Moacir Deabreu, J. A. Nogueira, João Pinto da Silva, Tristão de Athayde, Arthur Neiva, Graça Aranha, Ronald de Carvalho, Silva Ramos, Raul Vergueiro, Antônio Cândido, Hilário Tácito, D. Antônio de Almeida Morais Jr., Mário Matos, João Dornas Filho, Guilherme de Almeida, Breno Ferraz, Antônio Salles, Alphonsus de Guimarães Filho, Rodrigo M. F. de Andrade, João Alphonsus, J. Guimarães Menegale, Benjamin de Garay e B. Sanches Sãez, estes dois últimos de Buenos Aires.

Além desses, vale recordar o julgamento de Fernando Góes: “Seu livro de estreia – “Vida Ociosa” – romance da vida mineira, foi considerado no tempo (1920) e é considerado ainda hoje uma obra-prima. É o ponto alto de sua literatura.” Fernando Sales, com apoio em Wilson Louzada, vai na mesma linha. Antônio Cândido, ainda que aprovando, coloca “Os Bem Casados” em plano superior.

Uma voz solitária se elevou no Rio Grande do Sul, discordando dessas opiniões. Wilson Martins, na sua “História da Inteligência Brasileira”, publicada em 1978, fez referências desfavoráveis ao escritor mineiro. Em tempos mais recentes, Guido Bilharinho foi na mesma direção.

Mesmo na aceitação dos leitores o livro foi bem recebido. A edição se esgotou em pouco tempo. É claro que sua vendagem não poderia se comparar com a das obras de Lobato, o escritor mais célebre e lido de seu tempo. A importância dessa obra, lançada há quase um século, me parece indiscutível e sua leitura encanta até hoje. É pena que só tenha merecido uma nova edição em inexpressiva brochura e sem uma divulgação adequada. Poucas bibliotecas, pelo que tenho observado, dispõem do livro em seus acervos.

“Vida Ociosa” reflete o viver monótono de um magistrado interiorano ou de “um juiz em termos sertanejos”, como dizia seu autor. Obra de memorialista, de fundo autobiográfico, embora fugindo às posições e poses tão próprias do gênero. A narrativa é suave e permeada de um humor leve. Evidencia-se nela o visível conflito entre o juiz sem vocação aparente e o escritor ansioso por produzir mas que se vê diante de “um gordo processo de embargos” que jazia sobre a mesa e exigia sua atenção. Registra o desabafo da vítima da doença literária assoberbada pelo trabalho do juiz: “Serviço até o pescoço. É uma enchente de autos. Essa atmosfera de petições e arrazoados produz-me, como a pasmaceira habitual, efeito desalentador. As impertinências dos advogados, longe de me espicaçar o brio, tiram-me até a coragem de levantar a pena empoeirada da mesinha de trabalho. E já entreouço à volta um zum-zum de descontentamento que me turba o farniente. Preciso fugir, cobrar um pouco de vitalidade para enfrentar com valentia os desgostosos...”

A solução é escapar para o meio rural, para os sítios da região, em especial para o Córrego Fundo, onde é recebido com rapapés e salamaleques pelos moradores, e lá colher impressões com que encher laudas e laudas. E assim se desenvolve a narrativa, tranquila como o próprio autor, trabalhada, segura, límpida, composta com calma, sem premências de tempo ou preocupação com críticos e leitores.

O capítulo inicial é um poema em prosa. A estradinha coleante, ora se aproximando, ora se afastando do rio de águas barrentas, é vista com os olhos do pintor exímio no uso das tintas e contido nas cores esmaecidas. “Um resto da melancolia da noite” paira no ar da manhã na saída do povoado que ainda dorme e o viajante afunda em velhas recordações imprecisas. A velha porteira, na sua envergadura rude de largos tabuões horizontais, emite um rangido prolongado e sonoro que o eco reproduz ao longe. Nasce um sol radioso e sob a soalheira escaldante o viajante prossegue e com mais um estirão avista a fazenda do destino – o Córrego Fundo.

Não tarda a reconhecer o Américo, encarapitado sobre um cupim, a investigar o horizonte na busca do visitante tão esperado. É o filho solteirão de Próspero e Siá Marciana, os fazendeiros, com pretensões a professor e estudioso das ciências. Saudado com efusão, o viajante suarento, é conduzido para o casarão em ruínas mas amplo e acolhedor. Então é um Dr. Félix para cá, Dr. Félix para lá, culminando-o de rapapés, doces, comidas e guloseimas. Com seu incansável arrastar de chinelos, Siá Marciana vai da sala para a cozinha na preocupação constante de bem tratar o visitante. Próspero, já idoso, relata histórias de caçadas e pescarias enquanto conserta as redes danificadas pelos jacarés. Siá Marciana trata as galinhas com punhados de grãos de milho e Américo questiona sobre os mistérios do reino científico. Na sua placa, dormitando, o velho papagaio mal entreabre os olhos. As horas escoam lentas, sons difusos vêm dos fundos, da horta, do pomar e do terreiro enquanto o visitante relaxa, distende os músculos, alivia a cabeça. É verdade que às vezes o acode o remorso de ter deixado o serviço sem férias ou licença. Não demora a aparecer o José, aluno único de Américo, para a aula do dia. O menino aprendia com surpreendente rapidez, ainda que reagisse a pedradas quando o chamavam de Zé Correto, alcunha que abominava.

Próspero recorda uma caçada nada heróica em que ele e os companheiros se deram mal. Trepados num jirau, à beira de um barreiro em que os animais vinham lamber o chão salitroso, aguardavam a chegada da onça pintada. Mas o jirau desabou e com ele os caçadores que tiveram que fugir através da mata inceira, apavorados, na escuridão da noite. E o velho narrador gozava de si próprio num riso pesado de sarro. Sucediam-se incontáveis casos de outras caçadas e pescarias que o Dr. Félix ouvia com intenso prazer.

No silêncio da sala penumbrosa “um ulular remoto encheu a calma da noite com seu lúgubre ecoar.  – Que significa esse uivo, Sr. Próspero? perguntei. Fazendo um gesto vago, o velho respondeu: Não sei. A mata é misteriosa. Pode ser um pio de ave noturna ou o urrar de uma fera. Há certos sons indecifráveis, mesmo para os que estão familiarizados com a vida nas brenhas. Daí as superstições, a crença no sobrenatural, tão comum entre os rústicos...”

O silêncio recai  na varanda onde todos rodeavam uma bacia de brasas como que hipnotizados pelo lume. E o tempo corre lerdo, macio, sem cuidados e atropelos.

Sobrevém a chuva violenta, as bátegas tamborilando no telhado e nas paredes. O chão vai aos poucos sugando a água e o pátio se transforma num lodaçal. A natureza ressequida parece reviver; o gramado, as árvores, a mata, tudo reverdece. Surgem visitas inesperadas escapando da intempérie. Mas o sol ressurge, o céu retoma seu azul anilado e os viventes, humanos e animais, se reanimam ao frescor da tarde.

Próspero organiza excursões a que Dr. Félix adere a contragosto. A cavalo, visitam a fazenda de Nhô Quim Capitão que, entrevado na cama, anseia por notícias dos conhecidos e do mundo. Vão à cachoeira onde a piracema acontece e tanto peixe enche os balaios a ponto de enojar. Vem à memória a sina triste do sentenciado Lourenço, momento mais alto do livro, revivida de forma impactante. Moído pelos ciúmes, em momento de desvario, ele comete um crime de morte por amor à mulata Frederica. Condenado a trinta anos de prisão, conta e reconta os dias, os meses e os anos da pena, ajudado pelo carcereiro, já transformado em amigo. Mas tudo na vida tem um fim e um dia a reclusão termina. Avelhantado, doente, rengo duma perna e troncho duma orelha, ganha a liberdade. “Ei-lo trôpego, aturdido pelo ar livre e espaço desempeçado, buscando, em terras longes, o paradeiro da mulata. É o último anseio pela felicidade.”  Anda e anda, pergunta, indaga, procura, investiga. Estradas sem fim se afunilam no horizonte, curvas tortuosas sobem pelas coxilhas e descem pelas canhadas, e o sonho de reencontrar o amor da juventude parece cada vez mais remoto. Mas vai que um dia, num rancho à beira-chão, chega ao ponto que lhe indicaram. Num esforço para reentrar no presente grita o “Ô de casa!”  

Frederica assoma à porta. Está gorda, maltratada pela vida, tem os cabelos nevados. Nem de longe lembra a morena elegante e sensual de outrora. Ela o contempla de longe. Boas tardes. – diz ele em voz cava. – Boas tardes! – responde ela.  A mulher o observa sem dar mostra de reconhecer. Você é a Frederica? – indaga com receio. Sou, responde ela  Recai um silêncio pesado. Observam-se longamente. Convidado a entrar, ele senta numa tripeça, atiça o fogo do cachimbo e começa a baforar. Antão você é o Lourenço? – inquire a mulata. Sou, responde o visitante num jeitão tristonho. Alarido de crianças ecoa no terreiro chamando-o à realidade. Você mora com homem? – pergunta Lourenço. Com o Martinho – informa ela. – Tenho onze “famílias” dele... O pensamento dele esvoaçou frouxo para a prisão, relembrando tanta espera, tanta paciência, tanta resignação. A vida sabia-lhe amarga. Enquanto estava na prisão o mundo dava suas voltas, tudo mudava e remudava. Não havia mais o que fazer ali. O Martinho é bom sujeito? – ainda perguntou. Bebe, às vezes. Do mais não tenho queixa. A vida é dura. Adeus – murmurou ele. Adeus, Lourenço, respondeu ela. “Guardou o cachimbo, retomou a trouxa e o bordão, e afastou-se, trôpego, paciente, rebocando a custo a perna enferma, como um casco desarvorado, sem rumo, toando ao léu...” Nem um queixume, uma reclamação, um indício de revolta. Fora, o sol dardejava e o calor o enlaçou. A estrada se estendia ao infinito entre curvas sinuosas que levavam para longe, longe, longe.

Não obstante, a vida no Córrego Fundo continua e os dias escorrem para o poço sem fundo do tempo. Tudo acontece devagar. Siá Marciana “opera” o papo do frango Manequinho, atravessado por um graveto; a gata da estima, lanuda e confiada, aparece em busca de afagos; Américo dedilha a sanfona e sons algo desafinados enchem o ambiente; Sontonho, cego de um olho, ocupa-se do engenho e da farinha. Insiste em presentear o visitante com dois polpudos sacos do produto preparado com grande zelo.

Mas Dr. Félix necessita voltar ao trabalho. Afinal, é juiz e deve retomar as inquirições, os despachos e as sentenças, enfrentando o rábula chicaneiro que vivia espiolhando seu trabalho na busca incessante de falhas, senões e nulidades. Que fazer se não voltar ao batente e enfrentar com coragem a luta cotidiana. E assim, levando acavalados na garupa da montaria os sacos de farinha, entra no povoado. Sente-se ridículo aos olhos dos passantes que o observam com curiosidade em virtude de tão estranha carga.

E sobrevém o epílogo humano e comovente. Dias depois, numa visita surpreendente, surgem no foro os moradores do Córrego Fundo. Trazem pequeno presente, acondicionado em elegante caixinha. É um anel valioso, adquirido com as moedas que o juiz lhes deixava em paga da hospitalidade. Foram guardando, em segredo, para comprar a jóia valiosa. Emocionado, Dr. Félix nem sabe como agradecer o gesto espontâneo daqueles seres rudes na aparência mas humanos no coração. “Retiraram-se, por fim. Tornando ao escritório, retomei o estojo e contemplei melancolicamente a jóia coruscante de rebrilhos, calculando  comigo o quanto de privações e amarguras se condensariam naquela cercadura chispante e naquela gota de sangue mineralizado. Em vez da festiva alegria com que os pobrezinhos contavam, com que aperto de coração eu recebia a sua dádiva!”

Para compensar, obteve para o Américo a criação de uma escola e sua nomeação como professor, realizando um sonho há muito acalentado. “E foi um nunca acabar de mútuos agradecimentos...”

Como observou José Afrânio Moreira Duarte, “Vida Ociosa” é o retrato do hinterland mineiro de corpo e alma. Ali estão a geografia, a paisagem, a natureza, os usos e costumes, a linguagem e as figuras humanas com seus cacoetes e sua fala característica. É um quadro perfeito, traçado pela mão de mestre de fino observador.

Desde 1977 – quarenta anos! – venho sustentando uma cruzada para reerguer Godofredo Rangel e retirá-lo do injusto ostracismo. Perdi a conta das ocasiões em que pesquisei, escrevi e falei sobre ele. Devo reconhecer que o resultado tem sido pífio mas ainda alimento a esperança de que surja um editor corajoso que reedite suas obras completas, em caprichados volumes, e com ampla divulgação em todo o país. Será demonstrado, então, que a justiça literária também pode demorar mas não costuma falhar.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/06/2017 às 11h20 | e.atha@terra.com.br

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Aniversariante ilustre

Fundada em 11 de fevereiro de 1932, a Faculdade de Direito de Santa Catarina completou 85 anos de existência. Criada por inspiração do professor, desembargador e escritor José Arthur Boiteux (*), foi a primeira escola de Direito em nosso Estado, embora não tenha sido a primeira de nível superior. Funcionava, no início, à rua Felipe Schmidt, em dependências que ficavam sobre a célebre “Confeitaria do Chiquinho” e, mais tarde, foi transferida para sua sede própria, à rua Esteves Júnior, número 11, onde funcionou por longos anos até ser instalada no campus da Trindade, integrada à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com o estranho nome de Centro de Ciências Jurídicas, denominação inexplicável, uma vez que as mais tradicionais Faculdades de Direito do País conservaram o nome antigo. Exemplos são a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, as “Arcadas”, em São Paulo, e a Faculdade de Direito do Recife, ambas conservando o nome original mesmo após todas as peripécias de nossa história. Seria a troca de nome uma forma de escamotear o passado contestador e polêmico da velha Faculdade? Funcionou por vários anos como escola particular e depois estadual, embora houvesse o pagamento de mensalidades por parte dos alunos, ônus que só foi extinto com a federalização.

A Faculdade de Direito tem formado inúmeras gerações de bacharéis desde sua turma inicial, muitos deles ocupando posições de relevo na vida pública como advogados, magistrados, integrantes do Ministério Público, policiais, políticos, professores, escritores, jornalistas etc. Tive a sorte de frequentá-la em um dos melhores momentos de sua existência, entre 1955 e 1959, ainda na vigência da Constituição Federal de 1946, a mais democrática das Cartas brasileiras, que garantia o amplo debate de todos os assuntos sem os medos e receios que o regime autoritário viria a instalar no seio das universidades. Fui aluno de professores de primeira linha, inesquecíveis, e tive colegas do maior destaque na vida profissional, parte deles pontificando até hoje em suas múltiplas atividades. Sempre ligados no que acontecia no Estado e no País, os acadêmicos discutiam, protestavam, sabatinavam candidatos, criticavam e aplaudiam. Nossas assembléias, ainda que acaloradas, constituíam exemplos do espírito democrático vigente entre os estudantes, muito diferente da alienação e do desinteresse com que me deparei, mais tarde, como professor em duas universidades.

O ambiente da Faculdade vivia em permanente ebulição. Cursos de extensão universitária eram constantes e sobre os mais variados temas. Ao longo do Curso, frequentei pelo menos uma dúzia deles. Júris simulados também aconteciam. Num deles funcionei como Promotor de Justiça, tendo como assistente de acusação meu colega de turma Telmo Marengo. Em outro, tempos depois, servi como jurado. Houve júris sobre assuntos não-criminais, como a construção de Brasília, um dos grandes temas da época. Por inacreditável que seja, havia forte oposição à construção da nova Capital e as discussões a respeito costumavam ser furiosas. Conferencistas de fora, alguns de grande renome, compareciam com frequência, pronunciando suas palestras no salão nobre com suas cadeiras de palhinha. Graças a isso, conheci muitos expoentes da cultura nacional, jurídica ou não. Nelson Hungria em campanha pela comutação da pena de morte de Caryl Chessman, o Bandido da Luz Vermelha, sem resultado; Nelson Carneiro em sua incansável luta pela adoção do divórcio; Mozart Victor Russomano, luminar do Direito do Trabalho; Darcy Azambuja, doublé de cientista social e escritor regionalista; Buys de Barros, notável economista; Ataliba Nogueira, expoente do Direito Tributário; Plínio Salgado, eterno candidato a presidente da República; Carlos Lacerda, o célebre orador padre Godinho, Roland Corbisier, o criminalista José Bonifácio de Andrada, Pedro Calmon, magnífico reitor da Universidade do Brasil, Andrés Daglio, conferencista uruguaio, Osny Duarte Pereira, Dagoberto Salles, Benjamim de Oliveira, Josué de Castro e sua luta contra a fome, o processualista Galeno Lacerda, o folclórico criminalista Mário Jorge, tantos e tantos outros que a memória não reteve. Entre os grandes eventos da época, lembro-me da realização da Semana Nacional de Estudos Jurídicos, em 1957, reunindo em Florianópolis o melhor dentre acadêmicos e professores. No concurso nacional de oratória, nessa ocasião, destacou-se o então acadêmico Norberto Ulysséa Ungaretti, em magnífico discurso, e que perdeu a primeira colocação por insignificante diferença em julgamento muito questionado. Os concursos para a cátedra e a livre-docência, expondo ao público os conhecimentos dos candidatos a professores, também despertavam grande interesse. Assisti a alguns memoráveis.

Dentre os mestres, começo por evocar Othon D’Eça, tanto pela ligação pessoal como pela afinidade com o escritor. Nos tempos em que residiu em Campos Novos, minha cidade natal, ainda solteiro, tornou-se grande amigo de meu pai e jamais o esqueceria. Sempre que me encontrava, na rua ou nos corredores da Faculdade, abraçava-me com efusão, exclamando: “Parece que estou vendo o José ainda mocinho!”, referindo-se a meu pai. Professor de Direito Romano e homem de vasta cultura, era irrequieto durante as aulas, gesticulante, movimentado, descendo e subindo no estrado onde ficava a mesa. Apaixonado por Eça de Queiroz, bastava mencionar o escritor luso para que se desmanchasse em comentários. Suas aulas eram ministradas aos sábados à tarde, em dia e horário inacreditáveis, mas a maioria dos alunos marcava presença. Sobre ele muito tenho escrito e prefaciei seu livro “...Aos espanhóis confinantes!”, edição de suas Obras Completas, publicadas pela FCC.

Inesquecível também é Joaquim Madeira Neves, talvez o mais popular entre os alunos, sempre em meio a um círculo deles. Professor de Medicina Legal, tinha uma erudição espantosa e suas aulas nos deixavam embasbacados. Osmundo Wanderley da Nóbrega, magistrado sério e circunspeto, mestre de Direito Civil respeitado pelo grande conhecimento, embora um tanto arredio e de pouca conversa. Creio que foi o pioneiro no estudo e na aplicação da obra de Pontes de Miranda aqui no Estado. Severino Nicomedes Alves Pedrosa, pernambucano que jamais perdeu o sotaque, magistrado e professor de Direito Civil, pragmático nas lições e irônico nas respostas. Edmundo Acácio Moreira, modesto, quase humilde, mas que parecia reter todo o Direito Civil na cabeça, citando dispositivos, teorias e decisões de memória, sem recorrer a anotações. Luna Freire, professor de Direito Processual Civil, também sábio na sua matéria, conhecendo-a tanto no passado como na atualidade. João Bayer Filho, político e professor de Direito Penal, um artista na gesticulação e na impostação da voz. Alcebíades Valério Silveira de Souza, mestre de Direito Internacional Público, conhecedor profundo da matéria e que guardava na cabeça, como que desenhado em traços fortes, o complicado mapa geopolítico mundial. Atualizado como poucos, abordava qualquer fato novo que eclodisse no mais recôndito do Globo. Abelardo de Assumpção Rupp, mestre de Direito Comercial, pessoa de rara bondade e por isso muito querida. João David Ferreira Lima, professor de Ciência das Finanças, lutador incansável pela federalização e diretor da Faculdade. José do Patrocínio Gallotti, apaixonado socialista, e Pedro de Moura Ferro, sempre indignado com as injustiças do mundo e os entraves da burocracia. Ferreira Bastos, nosso iniciador nos meandros do Direito Penal, Renato Barbosa, mestre de Direito Internacional Privado, tantas vezes irritado com as urzes do caminho, Telmo Vieira Ribeiro e suas lições de Direito Constitucional. Henrique Stodieck, mestre de Direito do Trabalho, como tal respeitado em todo o País. E outros, muitos outros, inclusive os mais jovens que lecionaram por pouco tempo e talvez por isso não deixaram maiores marcas. Todos, porém, contribuíram para a formação de verdadeiros profissionais e são credores de nosso reconhecimento. Não fui aluno de Henrique da Silva Fontes, já aposentado, embora tenha assistido a várias de suas palestras.

Com colegas de turma e contemporâneos em geral  também mantive um relacionamento muito rico e agradável. Entre os primeiros, vem-me à memória a figura de Telmo Marengo, creio que o mais inteligente de todos. Questionava os professores, em pé, com argumentação perfeita e, às vezes, colocando-os em dificuldades. Costumava ir à minha pensão, à noite, e ficava caminhando entre as camas, no quarto onde eu dormia, gesticulando e falando como quem procurava convencer. Bem humorado, ria com facilidade e gostava de relembrar fatos engraçados que havia presenciado. Henrique Gabriel Botelho Berenhauser, estudioso como poucos, leitor incansável, foi outro de meus companheiros ao longo de todo o Curso. José de Brito Andrade, simpático e alegre, tornou-se renomado criminalista. Luiz Henrique Baptista, muito amável, místico, sempre conversando com Deus, com quem parecia manter relações muito chegadas. Yara Coelho de Souza, sempre na nossa roda, grande colega e amiga. E outros, muitos outros, embora esses fossem os mais próximos, aqueles que ficaram para sempre na lembrança.

Com estas desalinhavadas, registro minha homenagem à nossa provecta Faculdade, proclamando mais uma vez – como tantos outros ex-alunos – que não concordo e não gosto do atual nome. Para nós, ela será sempre a Faculdade de Direito de Santa Catarina.

_______________________________

(*) Apesar de sua importância na vida pública e na literatura catarinense, José Arthur Boiteux não tem merecido maior destaque. A “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, dedica-lhe algumas magras linhas, e o mesmo faz o “Dicionário Literário Brasileiro”, de Raimundo de Menezes. A “Enciclopédia Brasileira Globo”, tão rica em temas nacionais, nem sequer o menciona. Sua sobrevivência se deve aos pesquisadores locais, como Celestino Sachet, Lauro Junkes e Iaponan Soares. Por mais que indague, nunca consegui saber o destino do busto do Fundador que havia diante da Faculdade.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/06/2017 às 13h57 | e.atha@terra.com.br

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