Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Um livro para morar

Dizia Monteiro Lobato que livro bom é aquele em que se pode morar, ou seja, ler, reler e tresler sem que ele se esgote. Não são muitos os afortunados que suportam tantas investidas do leitor. Para minha agradável surpresa, acabo de encontrar um deles, de autoria de autor bem próximo, e que fui lendo, voltando, relendo e repassando para bem fixar certos episódios, alguns de efeitos cinematográficos. Refiro-me ao romance “Sangue Verde”, de autoria de David Gonçalves, catarinense por opção e radicado em Joinville (Sucesso Pocket – 2014 – 400pp).

Trata-se de acalentada saga romanesca com ambiente amazônico, revelando um autor maduro, dono do ofício e de fôlego, paciência e dedicação exigidos pelos textos longos. Fica evidente também que conheceu a região em profundidade, muito além de seus aspectos pitorescos, e absorveu a atmosfera reinante naquelas paragens. A geografia, a paisagem, a floresta, os animais, os rios e igarapés, os peixes, os alimentos, os costumes, as ervas, as línguas indígenas, nada lhe escapa. Isso tudo vai se descortinando aos olhos do leitor ao natural, sem pretensões didáticas ou expositivas, mas como integração entre o texto e o enredo. O resultado é perfeito.

O romance se abre em tom sombrio. É um panorama de devastação, violência e miséria em que vive o povo numa das partes mais ricas do planeta. A derrubada sem limite ou escrúpulo da floresta com imensos tratores e fortíssimas correntes que tudo levam de roldão; os garimpos que envenenam as águas; o avanço incontido do latifúndio para o gado e a soja; o furto de espécimes vegetais e animais; a exploração do homem pelo homem pelas formas mais primárias e brutais; o contrabando em todas suas modalidades; a prostituição e o alcoolismo constituem um quadro aterrador exibido às claras diante de um Estado inerte e desinteressado. É um mundo sem lei que o Brasil não enxerga e parece ter relegado à própria sorte.

Aos poucos, porém, o leque se abre e vão entrando em cena os viventes, humanos e animais. É uma galeria imensa de personagens, todos bem caracterizados e coerentes. Existem os sedentos de lucros rápidos e fáceis, com os olhos ardentes de cobiça pelas preciosas pepitas que brotam do chão e pelas quais praticam as maiores atrocidades. Não faltam os que estendem cercas intermináveis, inclusive sobre terras indígenas, não titubeando em eliminá-los de forma sumária quando atrapalham seus planos. Cruzando-se e entrecruzando-se, segue um verdadeiro rebanho de seres estranhos em que se incluem contrabandistas, prostitutas, comerciantes de pequeno porte, índios desterrados e bêbados e a fina flor da rafuagem nacional que para lá acorre. Nesse torvelinho estonteante, ainda que correndo todos os riscos, surgem os corajosos, os honestos e os bem intencionados que tentam impedir o mergulho no caos definitivo. A luta é árdua, amarga e perigosa mas indica que a inata inclinação pelo bem ainda subsiste. E o juiz pequenino, de aparência frágil e insignificante, se lança quase sozinho numa cruzada infernal.

Aparece a figura humilde do padre que celebrava suas missas com seu cão amarelo ao lado, provocando a ira das beatas. Zé das Trilhas palmilhando sem cansaço pela floresta sem fim, certo de que ela lhe daria a fortuna sem violência ou maldade, como de fato acontece. E Doca, bafejado pela sorte, encontra imensa pepita que lhe permite reiniciar a vida abalada por intensa tragédia. Um biólogo europeu, buscando a glória no meio científico, estuda os macacos e as ervas até se converter no líder dos adoradores da Grande Pedra Preta em cujo topo vicejava uma orquídea. Em torno dela celebravam ao calor dos chás e do Santo Daime, encontrando um fim trágico e coletivo por artes de Pageú, inconformado com a invasão branca nos seus domínios. A justiça, afinal, chega, Cascalho Rico sofre uma depuração e o sol volta a brilhar radioso, exceto para os que pagaram pelos seus malefícios. Até o amor ressurge exuberante.

O romancista escreve bem, sem volteios torturantes, é claro e comedido no descritivo. Domina com segurança o diálogo e move com firmeza os cordéis dos múltiplos personagens.

A chamada literatura nortista se engrandeceu. O rico plantel de seus celebrados autores conta com mais um expoente. Alberto Rangel, Inglês de Souza, Raul Bopp, Dalcídio Jurandir, Sílvio Meira, Bruno de Menezes, Márcio Souza, Jesuíno Ramos, Jorge Tufic, Alcides Werk, Sylvia Helena, Adrino Aragão, Gaitano Antonaccio, Nicodemos Sena e tantos outros têm novo companheiro. Santa Catarina bata com alegria no peito: ganhou um grande escritor brasileiro.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/05/2017 às 15h59 | e.atha@terra.com.br

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ZYKLON B

Num gesto de admirável coragem editorial, a Companhia das Letras, capitaneada por Luís Schwarcz (S. Paulo – 2015) lançou em edição brasileira um livro que é odiado e vem sendo atacado em todo o mundo pelos neonazistas, simpatizantes e agregados. Trata-se de “Assim foi Ausschwitz”, de autoria de Primo Levi e com a colaboração de Leonardo De Benedetti, em tradução de Federico Carotti. O livro em seu conjunto se constitui numa verdadeira bomba, tão ou mais violenta que o Zyklon B, veneno destinado a exterminar ratos dos porões dos navios e outros espécimes animais indesejáveis que os carrascos dos campos de concentração usavam nas câmaras de gás onde asfixiavam judeus, velhos, doentes, aleijados, ciganos, soldados inimigos e outros condenados em sua gigantesca operação de limpeza étnica. Agora o formidável documentário está ao alcance do leitor brasileiro.

Nele se encontra o primeiro depoimento de um sobrevivente do Campo de Monowitz, pertencente ao complexo de Auschwitz, prestado ao Comando Russo, logo após a libertação dos prisioneiros com a chegada do exército soviético. O depoente era ninguém menos que Primo Levi (1919/1987), italiano de Turim, químico industrial e integrante da Resistência Italiana durante a II Guerra Mundial. Além de resistente, era judeu, ou seja, duas vezes marcado pelas sinistras SS. Tinha 24 anos de idade quando foi detido pela milícia fascista e entregue às forças alemãs de ocupação. Com um grupo de 650 prisioneiros, incluindo idosos, mulheres e crianças, foi enviado para Monowitz num trem cargueiro, com vagões destinados ao transporte de gado, sem água, alimentos ou agasalhos, viajando por seis dias até chegarem ao destino. Ao chegarem, foram divididos em dois grupos, o primeiro deles, bem menor, dos que estavam aptos para o trabalho escravo, e o outro, bem maior, foi conduzido direto para as câmaras de gás. Por estar em boas condições físicas, foi ele integrado ao primeiro grupo e graças a isso, por verdadeiro milagre, conseguiu sobreviver. Ficou preso durante quase um ano e foi um dos 11 sobreviventes de todo o numeroso grupo. Esquelético, faminto, desgrenhado, com as faces encovadas, trêmulo e claudicante, saiu da prisão como um trapo humano e necessitou de extraordinário esforço para se recuperar e reiniciar a vida.

O livro se abre com o relatório (depoimento) de Primo Levi e Leonardo De Benedetti redigido a pedido das forças soviéticas e publicado pela primeira vez na revista “Minerva Medica”, de Turim, em 1946, provocando intensa repercussão. Seguem-se outros depoimentos, inclusive os que foram prestados em processos movidos contra os nazistas, artigos publicados em livros e na imprensa, entrevistas, cartas e um sem número de documentos reunidos em apêndice. É um volumoso conjunto documental que revela todas as atrocidades praticadas por um império que pretendeu se elevar sobre milhões de cadáveres de inocentes e para isso arquitetou e montou uma verdadeira indústria da morte jamais vista na história da humanidade. Foi o império da mais extremada barbárie no coração da civilizada Europa.

O tratamento dispensado aos prisioneiros era brutal. Socos, pontapés, chutes, cacetadas. Alimentação miserável, acomodações apertadas, uniforme insuficiente para o frio reinante, sapatões do solado de madeira que feriam os pés. Trabalho braçal exaustivo, sem descanso ou pausa. Tudo, enfim, para destruir o ser humano por meio de um sofrimento atroz até a morte. À medida que as pessoas se debilitavam ocorriam as chamadas “seleções”, ou seja, a separação dos que eram enviados para a morte. Em seu uniforme impecável, com as botas reluzentes e um meio sorriso no rosto, o monstruoso Dr. Mengele, munido de um chicote, apontava para aquele que deveria morrer de imediato porque não servia mais para o trabalho. Decisão sumária e irrecorrível.

O livro semelha uma obra de literatura de terror, embora baseada em provas documentais e depoimentos concludentes. É de arrepiar. Deveria ser lido por todos os brasileiros, em especial pelos inocentes úteis que andam por aí a pregar ideias nazistas sem conhecer a história e as consequências delas. A leitura é ainda mais oportuna porque vivemos momentos de ódio, intolerância e xenofobia, não apenas no Brasil, mas também em outros países, como nos Estados Unidos, na França e na Holanda. Até a França, pátria da democracia, da liberdade, igualdade e fraternidade, berço de Montesquieu, o idealizador da tripartição dos poderes, dos pesos e contrapesos e da convivência pacífica dos contrários está assolada pelo obscurantismo. É desalentador. Fica a impressão de que o ser humano não aprende com as lições da história e insiste sempre em reincidir nos mesmos e trágicos erros.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/05/2017 às 13h19 | e.atha@terra.com.br

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ET VIVE LA FRANCE!

O mundo deu um profundo suspiro de alívio diante da notícia da derrota de Marine Le Pen como candidata à presidência da República Francesa. A marcha da fascistização do mundo sofreu um duro revés. A França da democracia, berço de Montesquieu, genial idealizador da tripartição de poderes independentes e harmônicos entre si, terra da liberté. égalité e fraternité, de tantas e tão gloriosas conquistas humanitárias, revelou perceber a gravidade do momento e as consequências de um erro, como não enxergaram os enfatuados ingleses e o simplórios americanos. E assim, Emanuel Macron, aos 39 anos de idade, galga o poder para um governo conservador mas de viés democrático. Enquanto Le Pen, a chamada Trump de Saias, vai curtir o ostracismo com suas horrendas ideias, tão feias quanto ela própria.

País de extraordinária cultura, detentor de uma das melhores literaturas de todo o mundo, seus grandes expoentes hão de estar vibrando com a decisão dos compatriotas. Imagino o que diria Émile Zola, a exemplo do que fez no Caso Dreyfus, num momento de perigosa vacilação antissemita de alguns políticos franceses. E o vejo fustigando sem piedade os que comprometiam os ideais franceses de liberdade e pluralismo. Penso na alegria dos grandes juristas franceses cujas obras luminosas influenciaram o Direito mundial. Então, entôo com eles com intensa emoção:

Et vive la France!

Enquanto isso, por aqui as coisas fervem no reino da política, que deveria ser a arte nobre de gerir o povo e se transformou numa via crucis para o país. O governo-tampão de Michel Temer vem decepando sem dó e nem piedade as cabeças dos ocupantes de cargos indicados por deputados que votaram contra suas propostas de reformas. É a política do crê ou morre, deixando evidente o aparelhamento do governo em troca de votos, tão combatido em passado recente. A Lava Jato é o assunto nacional e há quem não durma, não coma e nem apareça por receio da próxima delação premiada. O suspense paira no ar empestado que respiramos a contragosto. Juízes se transformam em heróis, o japonês da federal é sagrado celebridade nacional e o país se tornou um estado policial com todas as semelhanças dos regimes nazistas e soviéticos. Qualquer um, na calada da noite, poderá ser acordado com brutais batidas na porta e ser conduzido de forma coercitiva para depor em local ignorado. Eu, que vi tantas arbitrariedades, jamais imaginei que teria que voltar a presenciar tudo isso. Infeliz do país que precisa de heróis, bradou outro francês ilustre.

Em compensação, há surpresas deveras impressionantes e que só não fazem rir porque são um esboço de tragédias mal escritas. Os Bornhausen, por exemplo, se tornaram socialistas desde crianças; Roberto Freyre, quem diria, se converteu ao neoliberalismo e até mesmo pratica o velho aparelhamento; Esperidião Amim votou contra as reformas, enquanto outro deputado da decantada “base” não compareceu. Parece que, no último momento, uma breve centelha brilhou em suas consciências e perceberam a monstruosidade que estava prestes a perpetrar contra o povo. Renan Calheiros, vejam só, se posiciona contra o governo e o critica com severidade inacreditável. Tucanistas fanáticos de ontem agora alinham FHC, Alckmin, Serra e Aécio como suspeitos e duvidosos. Nem a imaginação portentosa de um Simenon poderia arquitetar tal quadro. Mas uma maioria dócil e submissa, baixa a cabeça de maneira carneiral e, em palavras cândidas e melosas, procura justificar as atrocidades sem pensar por um momento nas consequências que recairão sobre milhões de miseráveis espalhados pelo país.
Tudo isso me choca e espanta e me lembra de uns versinhos caboclos muito ouvidos na infância:

“Tatu sobre em pau?
Mentira de vassuncê!
Tatu faz buraco,
isso sim pode sê!”

Confesso que nunca vi tatu subir em pau, mas, como diz o povo, na sua inata sabedoria, a gente morre e não vê tudo.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/05/2017 às 09h44 | e.atha@terra.com.br

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Excursão ao nada

 

Fordlândia e Belterra foram iniciativas do magnata norte-americano Henry Ford na Amazônia, mais precisamente no Estado do Pará, na região de Santarém, proximidades do rio Tapajós. Mediante concessões de imensas áreas de terras, ele pretendia cultivar grandes quantidades de seringueiras para produção de borracha destinada à fabricação de pneus necessários ao esforço bélico durante a II Guerra Mundial. Com esse propósito foram implantadas vilas, organizadas em extensas quadras, com estradas numeradas, e edificadas casas padronizadas para funcionários e operários, além de prédios públicos para sede administrativa e escolas. Em longas fileiras, como soldados em formação, foram plantadas milhões de mudas de seringueiras, tudo dentro de rígidas normas técnicas e total controle dos funcionários. Por variados motivos, no entanto, o ambicioso projeto falhou, o grupo econômico suportou enorme prejuízo e tudo foi abandonado, retirando-se os americanos para sua pátria de origem. As vilas entraram em decadência, grande parte da população migrou para outras regiões, deixando um imenso vazio. Com o correr do tempo o governo estadual as transformou em municípios, ainda que com escassa população e minguados recursos.

Em Belterra, nos seus tempos áureos, Bernardino Sena viveu sua infância e depois se transferiu para outras cidades na luta pela vida. Permaneceu ausente por 65 anos até que decidiu visitar a cidade numa espécie de realização do eterno retorno de que trata o antigo mito abordado por tantos escritores. Com esse objetivo, ele e o filho, Nicodemos Sena, empreenderam uma excursão àquela cidade, partindo de carro de Santarém, e dedicando um dia inteiro à exploração do palco de um passado remoto. Essa excursão ao nada, que, para Bernardino, era o tudo, é narrada por Nicodemos Sena em dezenove episódios, em formato de crônicas, no livro “Choro por ti, Belterra” (Editora Letra Selvagem – Taubaté – 2017). Mais do que o relato de um mergulho no passado, o livro serve ao autor para reflexões sobre a vida, o presente e o futuro, a sabedoria e a experiência vivida, a exploração do homem pelo homem, a devastação provocada pela monocultura no coração da selva amazônica, o pensamento de seus autores e poetas e os eventos de sua própria vida.

Assim, devagar, dirigindo sem pressa e com o pai ao lado, ele trafega por estradas intermináveis, retas e estreitas, que se perdem no azulado do horizonte, invariavelmente vazias. Nem carros, nem pessoas, nem sequer carros-de-bois. Vez por outra avistam alguma casinha de madeira, quase sempre com as janelas fechadas, embora sintam que são espreitados por olhos agudos de pessoas que não se mostram, escondidas por detrás das paredes ou das árvores vizinhas. Onde estarão as pessoas? Onde se encontram? Buscam com sofreguidão a Vila Bode, bairro onde o pai viveu, mas ela parece ter desaparecido. Num repente avistam um prédio maior, diferente, e o pai reconhece nele a escola em que estudou. Depois, mais adiante, a casa em que residiu. Descobertas que o emocionam e levam às lágrimas. Por fim, quando o dia já vai longo, avistam a igreja e o prédio da prefeitura, ou seja, se deparam no “centro” da cidade. Ao contrário, porém, da agitação de outros centros urbanos, ali pairam o silêncio, a solidão e o vazio. Em toda a viagem encontram poucas pessoas, muito raras, ainda que simpáticas e acolhedoras. Na despedida, iniciando o retorno, o pai se abraça a um velho trator enferrujado, resquício de uma falhada promessa de riqueza, e chora copiosamente.

É um livro pungente e que nos enche de melancolia, tanto pela decepção de Bernardino no seu recuo no tempo como pela devastação provocada pela cupidez e pela ganância. Como escreve o autor, “retornar à terra dos sonhos, à minha Amazônia querida, que, como a Ítaca de Ulisses, se encontra tomada de pretendentes gananciosos e cruéis, os quais, sem escrúpulos, saqueiam e depredam os bens da terra, auxiliados por mucamas e mordomos (degenerados filhos da terra) que, a troco de migalhas e posições, passaram-se para o lado dos inimigos.”

Além de uma crônica emocionante, o livro de Nicodemos Sena é mais um alerta sobre o que acontece na Amazônia de longo tempo. Será que um dia, afinal, o Brasil tomará consciência disso e se disporá a exercer de fato sua soberania sobre aquela imensa região?

Escrito por Enéas Athanázio, 15/05/2017 às 09h34 | e.atha@terra.com.br

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Contracenando com a Parka

Segundo a mitologia, Parkas eram as três deusas que presidiam os destinos humanos, fiavam e cortavam o fio da vida. Uma delas, em momento inexorável, o cortava com uma tesoura. Era tão poderosa que o próprio Júpiter não podia interferir nessas decisões fatais. Costuma ser representada como uma mulher muito velha e feíssima, portando uma foice ou gadanho com que ceifa as vidas humanas. Em sentido figurado é a própria morte.

A morte é um fenômeno que guarda um segredo indevassável, uma vez que não se sabe o que acontece depois dela, ensejando especulações intermináveis, gerando teorias e crenças, religiões, hipóteses e filosofias. Numa concepção materialista, é o fim da existência, a ruína, o retorno ao pó, razão pela qual é o que existe de mais temido pelos seres humanos em geral, exceto por aqueles que, por variadas razões, a procuram de forma espontânea.

Mas existem os que a encaram de maneira fatalista e sem revelar temor, permanecendo frios e lúcidos mesmo nos momentos cruciais em que a morte pode ocorrer a qualquer instante. Como ela é inevitável, tratam de conviver com a ideia de que, mais cedo ou mais tarde, ela chegará, mesmo porque, como dizia Otto Lara Resende, é a única entidade incorruptível que existe. Agem como se estivessem contracenando com uma companheira vitalícia no palco da vida. Entre estes casos creio que se enquadra o do escritor gaúcho Nelson Hoffmann, autor de obra ponderável, professor e advogado, ocupante de cargos destacados e que acaba de publicar o livro “Companheira” (Editora Furi – Rio Grande do Sul – 2017), crônica impactante de um acontecimento que o marcou de maneira profunda e deixou indelével memória.

Estava ele no seu gabinete de trabalho, na luta diária pelo cumprimento das tarefas, quando foi acometido de um enfarte no qual se recusou a acreditar. Mesmo padecendo de cruciantes dores, insistia em prosseguir na labuta até que foi forçado a se converter à realidade para ser conduzido até em casa e depois ao hospital onde foi submetido a uma delicada cirurgia. Mesmo nos momentos decisivos, no entanto, manteve impressionante lucidez, tudo observando como se não fosse com ele e até mesmo fazendo troça da situação. Só se entregou quando perdeu os sentidos ou, como diria mais tarde, a partir do instante em que se considerou morto: apaguei, morri.

A cirurgia foi bem sucedida e ele voltou de onde não se volta, embora submetido a cuidados decisivos, entre eles a categórica determinação de mudar de vida. Começa então uma nova fase existencial a que, por força, tem que se adaptar. É imperioso deixar de lado as preocupações, esquecer o trabalho, a luta pela vida, a difícil escalada pela realização profissional e pessoal. “É a nossa condição humana – escreveu. – A real consciência dessa nossa condição humana perturba, sim. E valoriza a vida.” A dura fase da reeducação forçada é relatada nos derradeiros capítulos. Começa a prestar atenção naquilo que nem sempre a correria cotidiana permitia ver. A pequenina formiga que lhe pica o pé, o céu azul e sem nuvem, as árvores do jardim-pomar-bosque, os pássaros, a brisa suave que cochichava: eu sou. E a vida recomeça, agora em nova etapa, com outra visão, mas sempre ao lado da morte porque, como ele afirma, “a morte é minha companheira, ensina-me a viver...”

É um livro emocionante, perturbador, didático. É um alerta para que não se peça ao corpo mais do que ele pode dar. Não esquecer jamais de que a Parka está atenta e a qualquer momento poderá cortar o fio.

Nelson Hoffmann é dono de um estilo próprio e inconfundível. Suas frases são curtas, enxutas, às vezes telegráficas. Como Baudelaire, deixa a impressão de que acaricia cada uma das palavras para que ela se encaixe com perfeição como a peça de um mecanismo muito preciso. No seu texto não existem palavras superabundantes, mas também não se constatam vocábulos ausentes. O diálogo é seu ponto mais forte: contido, sumário, muitas vezes deixando a conclusão por conta do leitor, mesmo porque é intuitiva. Vislumbro em seus diálogos algo de Hemingway.

E já que lembro o mestre de “O sol também se levanta”, encerro dizendo que o livro de Hoffmann se enquadra nos rígidos critérios que ele exigia para a boa literatura: a verdade e a precisão.

Escrito por Enéas Athanázio, 08/05/2017 às 11h03 | e.atha@terra.com.br

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O triste fim do Toinzinho da Badia

O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, em seu célebre livro “Emílio”, sustentou o princípio da bondade inata do ser humano, ou seja, de que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Esse entendimento lhe valeu uma avalanche de críticas e perseguições que o obrigaram a se exilar na Suíça. É que ele contrariava o dogma do pecado original num período histórico em que isso constituía crime punido com penas muito severas. Não obstante, a história está repleta de exemplos, o mesmo acontecendo na literatura. Caso típico é o de Toinzinho da Badia, personagem central do romance “Destino de um criminoso”, de autoria do escritor goiano Edmo Nunes (Editora Kelps – Goiânia – 2011).

Filho de um casal de retirantes que chegou ao centro-oeste em busca de vida melhor, depois de uma viagem penosa e longa, não tinha documentos e nem sequer sobrenome. Mirrado, miúdo, frágil, recebeu a alcunha de Toinzinho que, mais tarde, evoluiria para Tonho. Para surpresa geral, o garoto se revelou precoce, hábil e inteligente. Aos treze anos era um peão consumado, dominando as técnicas e táticas da vida fazendeira. Montava, laçava, campereava, viajava com os tropeiros e ainda prestava serviços em casa, ajudando em variados misteres. Um tanto arredio aos estudos, mesmo assim aprendeu o suficiente. Desde muito cedo se mostrou dedicado à mãe e às pessoas que o ampararam nos momentos de dificuldade; era sincero e leal, conquistando a confiança de todos. Em síntese, pessoa de bons sentimentos, honesta e dedicada ao trabalho. No decorrer dos anos, porém, se transformou num assassino duro e calculista, capaz de execuções a sangue frio, embora agindo sempre por dedicação e lealdade às pessoas que amava. Sua carreira teve início com um ataque ao indivíduo que vivia com sua mãe e que a agredira. Seus crimes provocaram tenaz perseguição, uma vez que as vítimas eram pessoas de famílias poderosas, obrigando-o a uma vida errante até que decidiu se apresentar à polícia na esperança de um julgamento justo. Foi então “suicidado” na cadeia com um tiro na nuca. O menino bom, leal e honesto de outrora teve um fim dos mais tristes.

O romance se insere na corrente regionalista e a ação é ambientada no meio rural com seus povoados, grandes latifúndios, coronéis poderosos e autoritários, tropeiros, peões e a lida com as criações. Não falta sequer a velha política municipal, o ódio partidário, o voto de cabresto dos meros “portadores de cédulas” de que falava Monteiro Lobato. Avulta a figura da mulher decidida e corajosa que toma nas mãos o destino da fazenda, desafia os mandões e se impõe na liderança local. Aparece ainda o “turco”, mascate que fornece artigos necessários aos moradores, trazidos dos centros maiores.

O autor é um narrador de fôlego e vai desfiando seu enredo sem dificuldade, superando obstáculos, até chegar onde deseja. Em certas passagens é de uma fidelidade fotográfica e o leitor observa a cena como se estivesse presente. Nota-se que conhece a fundo os temas sobre os quais escreve. O meio físico, a paisagem, os costumes, o modo de vida, a psicologia dos personagens e seus valores, ele os domina graças à experiência vivida. Sua narrativa é verossímil e convincente porque, como dizia Hemingway, a verdade é a base da boa obra literária.

Também domina a linguagem regional, usando-a com moderação e nos momentos corretos, fugindo das caricaturas ou do caboclismo exagerado. Expressões e palavras locais curiosas aparecem no texto, muitas delas semelhantes às usadas em nossos Campos Gerais. Quando Deus era servido, ajuntamento, farturentas, bois erados, berranteiro, viajor escoteiro, atilho de milho, ficar querelando, cozinhando o galo, fez bonito, comer estrada, rachando taquara, eis alguns exemplos colhidos ao acaso no correr da leitura. Os nomes dos personagens e figurantes são bem apropriados: Quelemente, Badia, Tonho, Tubertino, Bento, Eleutério, Severino, Epitácio.

Trata-se, enfim, de um romance de leitura absorvente e que ensina ao leitor mais um pouco desse Brasil distante e que muitos desconhecem. Embora se diga que o regionalismo literário está morto e sepultado, a corrente não cessa de crescer e novos valores a ela se juntam nas diversas regiões do país.

Além do livro comentado o autor publicou “Últimas bodas” e “Mulheres do pecado”, ambos merecedores de análise mais demorada para, quem sabe, futura oportunidade.

(Contato com o autor: edmo.nunes@hotmail.com)

Escrito por Enéas Athanázio, 01/05/2017 às 23h14 | e.atha@terra.com.br

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