Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

No tempo dos redutos

A chamada Guerra do Contestado (1912/1916) tem despertado o interesse de inúmeros pesquisadores e conta hoje com volumosa bibliografia. Creio, no entanto, que ainda não surgiu uma obra unificadora, fornecendo uma visão geral e completa dos acontecimentos. Talvez isso aconteça em virtude da grande extensão do território onde se desenrolaram as hostilidades (cerca de 28.000 Km2), da longa duração do conflito e dos inúmeros locais em que ocorreram combates. Diante disso, as informações são esparsas, colhidas em numerosos livros e outras publicações, dificultando uma visão de conjunto. Nem sempre os relatos coincidem, encontrando-se contradições, omissões e discrepâncias difíceis de explicar. Alguns dos livros publicados, no entanto, fornecem informações minuciosas sobre determinados episódios omitidos em outras obras, permitindo preencher muitas lacunas.

Entre estes, destaca-se “Da cidade santa à corte celeste: memórias de sertanejos e a Guerra do Contestado”, de autoria de Delmir José Valentini, publicado pela Universidade do Contestado – UnC (Caçador – 2003). Professor dessa Instituição e pesquisador na área da História, o autor realizou um trabalho modelar, baseado em vasta bibliografia e valorizando as buscas in loco, entrevistando numerosas pessoas, algumas delas participantes dos acontecimentos ou seus descendentes, além de moradores antigos da região. Graças à história oral, obteve informações inéditas ou pouco conhecidas, enriquecendo sobremodo seu trabalho.

O livro é dividido em cinco capítulos: Cenário e Protagonistas, A Igreja e a Crença, Redutos da Fé, Personagens e Adeodato e o Crepúsculo. No capítulo de abertura o autor descreve o palco dos acontecimentos, sua geografia, fauna e flora, a extração da erva-mate e tudo mais. Examina a situação dos moradores da região, em grande parte caboclos sertanejos submetidos ao despotismo dos latifundiários, entregues à pobreza e ao abandono, sobrevivendo com dificuldade num clima hostil. Sustenta suas observações em manifestações escritas e orais, inclusive de militares e participantes diretos dos eventos. Vale-se, ainda, de seu perfeito conhecimento pessoal da região.

No capítulo seguinte aborda a decisiva influência exercida pelos dois monges que peregrinaram pela região, João Maria Agostini e João Maria de Jesus, em especial a deste último, cujas pregações calaram fundo no coração dos sertanejos. Mostra como, aos poucos, o catolicismo rústico foi superado pela crença na Santa Religião dos redutos, o relacionamento entre os padres franciscanos e os monges e a atmosfera de misticismo que envolveu o Planalto. Descreve, em seguida, a entrada em cena do monge José Maria, curandeiro que se apresentava como irmão de João Maria Agostini e que pereceu no chamado Combate do Irani, no dia 22 de outubro de 1912, sendo sepultado em cova rasa para facilitar sua prometida ressurreição à frente do exército encantado de São Sebastião. Fornece curiosos dados biográficos do monge e reafirma que seu nome era Miguel Lucena de Boaventura, hoje posto em dúvida por outros pesquisadores.

Talvez o mais interessante do livro, o terceiro capítulo aborda os principais redutos ou cidades santas onde se reuniam os revoltosos, a vida dentro deles, suas práticas, hierarquia, orações e tudo mais, a forma de arrecadação de alimentos, vestuário, armas e munições. Taquaruçu, nas proximidades de Fraiburgo, Caraguatá, em Perdizes Grandes, Bom Sossego, Caçador, Santa Maria (Timbó Grande), São Miguel e São Pedro são descritos com suas localizações, organização interna, chefes, quadros santos, sem faltarem as virgens santas e os meninos que “conferenciavam” com o monge. É um conjunto de informações difíceis de serem encontradas.

O capítulo IV se ocupa dos personagens. O primeiro a aparecer é “Dom” Manoel Alves de Assumpção Rocha, sagrado imperador constitucional da Monarquia Sul Brasileira, em agosto de 1914, quando circulou uma carta à nação, espécie de Constituição, a ele atribuída. Curandeiro simplório, que andava descalço e com as calças arregaçadas pelas canelas, analfabeto, conhecido como Mané Rocha, o episódio aparenta ser uma troça e a autoria da Constituição, segundo li em algum lugar, seria de um Promotor Público. Seja como for, a coroação não vingou, e a participação do “imperador constitucional” foi efêmera e apagada. Chica Pelega e Maria Rosa também entram em cena, reforçando a presença feminina. Dentre os comandantes, avultam as figuras de Venuto Baiano (Benevenuto Alves de Lima), sobre quem pouco se sabe, mas que foi “comandante de briga” e chefiou o ataque a São João dos Pobres, hoje Matos Costa. Natural da Bahia, de origem italiana, teria sido marinheiro e desertou durante a Revolta da Armada, em abril de 1894, em um porto catarinense, segundo afirmou Vinhas de Queiroz. Olegário Ramos, Agostinho Saraiva, Henrique Wolland, Aleixo Gonçalves de Lima, Antônio Tavares Júnior, Bonifácio José dos Santos (Bonifácio Papudo), Conrado Grober e Francisco Alonso de Souza (Chiquinho Alonso) são outras figuras de relevo cujas personalidades e atuação são examinadas.
O último capítulo descreve o período final da revolta e a queda dos redutos diante das forças oficiais. Foi o reinado de Adeodato Manoel Ramos, cujo verdadeiro nome era Joaquim José de Ramos, mais conhecido como Leodato. Governando o reduto com mão de ferro, suas atrocidades teriam sido inumeráveis. Resistiu até o fim, embrenhando-se nas matas, até que foi aprisionado, faminto, molambento e desesperado. Numa desastrada tentativa de fuga da penitenciária de Florianópolis, depois de ter sido condenado, foi morto pelo coronel Trujilo de Melo. Adeodato teria implantado verdadeiro regime do terror durante seu comando e inspirava no povo humilde um misto de medo e admiração. Foi o último jagunço.

A leitura do livro sugere algumas observações. A primeira se prende ao monge João Maria Agostini, o primeiro. Pesquisas posteriores conseguiram rastrear seus passos. Saindo do Brasil, percorreu a América Central e foi ter nos Estados Unidos, onde teria sido morto por índios selvagens no estado do Novo México. No local, segundo consta, foi erigido um marco registrando seu falecimento. É impressionante como ele andou! A segunda observação se refere a Chiquinho Alonso. Segundo alguns autores, ele chefiou o ataque a Calmon, no dia 5 de setembro de 1915, quando teria entre 16 e 17 anos de idade. É uma informação que não fecha com o que se lê neste livro. Antes desse ataque ele já fora comandante de um reduto, sendo pouco provável que fosse tão jovem.

Escrito por Enéas Athanázio, 03/07/2017 às 16h55 | e.atha@terra.com.br

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“Vida Ociosa”: algumas notas

Depois de muito tempo, reli o romance “Vida Ociosa”, de autoria do escritor mineiro Godofredo Rangel (1884/1951). Foi o livro de estreia do autor, lançado em 1920, com o selo da Revista do Brasil, de Monteiro Lobato & Cia. Editores. Trazia como subtítulo “romance da vida mineira”, retirado nas edições posteriores.

Edgard Cavalheiro afirmou, mais tarde, que o livro teve pouca aceitação. Monteiro Lobato, porém, discordou de seu futuro biógrafo e mais de uma vez enfatizou o valor literário da obra rangelina. “Indubitavelmente – escreveu ele – foi este livro a obra-prima do ano, e tempo virá em que o juízo unânime da crítica, em coincidência admirável com o juízo unânime do público, o coloquem entre a meia dúzia de obras supremas, formadoras da cúspide da literatura nacional.” E, em outra passagem: “O que assombra neste livro é a perfeição absoluta de fatura, coincidindo com a perfeição absoluta de ideação, circunstância feliz que faz da “Vida Ociosa”, em meu humilde parecer, o único livro nosso que, embora de gênero diverso, possa ser colocado numa estante entre “Brás Cubas” e “D. Casmurro.” Poderão dizer que se tratava de opinião de amigo, mas Lobato exalava sinceridade e seu parecer não foi isolado.

Com efeito, em artigos, cartas e manifestações diretas, aplaudiram o romance: Adalgiso Pereira, Ricardo Gonçalves, Augusto de Lima, Moacir Deabreu, J. A. Nogueira, João Pinto da Silva, Tristão de Athayde, Arthur Neiva, Graça Aranha, Ronald de Carvalho, Silva Ramos, Raul Vergueiro, Antônio Cândido, Hilário Tácito, D. Antônio de Almeida Morais Jr., Mário Matos, João Dornas Filho, Guilherme de Almeida, Breno Ferraz, Antônio Salles, Alphonsus de Guimarães Filho, Rodrigo M. F. de Andrade, João Alphonsus, J. Guimarães Menegale, Benjamin de Garay e B. Sanches Sãez, estes dois últimos de Buenos Aires.

Além desses, vale recordar o julgamento de Fernando Góes: “Seu livro de estreia – “Vida Ociosa” – romance da vida mineira, foi considerado no tempo (1920) e é considerado ainda hoje uma obra-prima. É o ponto alto de sua literatura.” Fernando Sales, com apoio em Wilson Louzada, vai na mesma linha. Antônio Cândido, ainda que aprovando, coloca “Os Bem Casados” em plano superior.

Uma voz solitária se elevou no Rio Grande do Sul, discordando dessas opiniões. Wilson Martins, na sua “História da Inteligência Brasileira”, publicada em 1978, fez referências desfavoráveis ao escritor mineiro. Em tempos mais recentes, Guido Bilharinho foi na mesma direção.

Mesmo na aceitação dos leitores o livro foi bem recebido. A edição se esgotou em pouco tempo. É claro que sua vendagem não poderia se comparar com a das obras de Lobato, o escritor mais célebre e lido de seu tempo. A importância dessa obra, lançada há quase um século, me parece indiscutível e sua leitura encanta até hoje. É pena que só tenha merecido uma nova edição em inexpressiva brochura e sem uma divulgação adequada. Poucas bibliotecas, pelo que tenho observado, dispõem do livro em seus acervos.

“Vida Ociosa” reflete o viver monótono de um magistrado interiorano ou de “um juiz em termos sertanejos”, como dizia seu autor. Obra de memorialista, de fundo autobiográfico, embora fugindo às posições e poses tão próprias do gênero. A narrativa é suave e permeada de um humor leve. Evidencia-se nela o visível conflito entre o juiz sem vocação aparente e o escritor ansioso por produzir mas que se vê diante de “um gordo processo de embargos” que jazia sobre a mesa e exigia sua atenção. Registra o desabafo da vítima da doença literária assoberbada pelo trabalho do juiz: “Serviço até o pescoço. É uma enchente de autos. Essa atmosfera de petições e arrazoados produz-me, como a pasmaceira habitual, efeito desalentador. As impertinências dos advogados, longe de me espicaçar o brio, tiram-me até a coragem de levantar a pena empoeirada da mesinha de trabalho. E já entreouço à volta um zum-zum de descontentamento que me turba o farniente. Preciso fugir, cobrar um pouco de vitalidade para enfrentar com valentia os desgostosos...”

A solução é escapar para o meio rural, para os sítios da região, em especial para o Córrego Fundo, onde é recebido com rapapés e salamaleques pelos moradores, e lá colher impressões com que encher laudas e laudas. E assim se desenvolve a narrativa, tranquila como o próprio autor, trabalhada, segura, límpida, composta com calma, sem premências de tempo ou preocupação com críticos e leitores.

O capítulo inicial é um poema em prosa. A estradinha coleante, ora se aproximando, ora se afastando do rio de águas barrentas, é vista com os olhos do pintor exímio no uso das tintas e contido nas cores esmaecidas. “Um resto da melancolia da noite” paira no ar da manhã na saída do povoado que ainda dorme e o viajante afunda em velhas recordações imprecisas. A velha porteira, na sua envergadura rude de largos tabuões horizontais, emite um rangido prolongado e sonoro que o eco reproduz ao longe. Nasce um sol radioso e sob a soalheira escaldante o viajante prossegue e com mais um estirão avista a fazenda do destino – o Córrego Fundo.

Não tarda a reconhecer o Américo, encarapitado sobre um cupim, a investigar o horizonte na busca do visitante tão esperado. É o filho solteirão de Próspero e Siá Marciana, os fazendeiros, com pretensões a professor e estudioso das ciências. Saudado com efusão, o viajante suarento, é conduzido para o casarão em ruínas mas amplo e acolhedor. Então é um Dr. Félix para cá, Dr. Félix para lá, culminando-o de rapapés, doces, comidas e guloseimas. Com seu incansável arrastar de chinelos, Siá Marciana vai da sala para a cozinha na preocupação constante de bem tratar o visitante. Próspero, já idoso, relata histórias de caçadas e pescarias enquanto conserta as redes danificadas pelos jacarés. Siá Marciana trata as galinhas com punhados de grãos de milho e Américo questiona sobre os mistérios do reino científico. Na sua placa, dormitando, o velho papagaio mal entreabre os olhos. As horas escoam lentas, sons difusos vêm dos fundos, da horta, do pomar e do terreiro enquanto o visitante relaxa, distende os músculos, alivia a cabeça. É verdade que às vezes o acode o remorso de ter deixado o serviço sem férias ou licença. Não demora a aparecer o José, aluno único de Américo, para a aula do dia. O menino aprendia com surpreendente rapidez, ainda que reagisse a pedradas quando o chamavam de Zé Correto, alcunha que abominava.

Próspero recorda uma caçada nada heróica em que ele e os companheiros se deram mal. Trepados num jirau, à beira de um barreiro em que os animais vinham lamber o chão salitroso, aguardavam a chegada da onça pintada. Mas o jirau desabou e com ele os caçadores que tiveram que fugir através da mata inceira, apavorados, na escuridão da noite. E o velho narrador gozava de si próprio num riso pesado de sarro. Sucediam-se incontáveis casos de outras caçadas e pescarias que o Dr. Félix ouvia com intenso prazer.

No silêncio da sala penumbrosa “um ulular remoto encheu a calma da noite com seu lúgubre ecoar.  – Que significa esse uivo, Sr. Próspero? perguntei. Fazendo um gesto vago, o velho respondeu: Não sei. A mata é misteriosa. Pode ser um pio de ave noturna ou o urrar de uma fera. Há certos sons indecifráveis, mesmo para os que estão familiarizados com a vida nas brenhas. Daí as superstições, a crença no sobrenatural, tão comum entre os rústicos...”

O silêncio recai  na varanda onde todos rodeavam uma bacia de brasas como que hipnotizados pelo lume. E o tempo corre lerdo, macio, sem cuidados e atropelos.

Sobrevém a chuva violenta, as bátegas tamborilando no telhado e nas paredes. O chão vai aos poucos sugando a água e o pátio se transforma num lodaçal. A natureza ressequida parece reviver; o gramado, as árvores, a mata, tudo reverdece. Surgem visitas inesperadas escapando da intempérie. Mas o sol ressurge, o céu retoma seu azul anilado e os viventes, humanos e animais, se reanimam ao frescor da tarde.

Próspero organiza excursões a que Dr. Félix adere a contragosto. A cavalo, visitam a fazenda de Nhô Quim Capitão que, entrevado na cama, anseia por notícias dos conhecidos e do mundo. Vão à cachoeira onde a piracema acontece e tanto peixe enche os balaios a ponto de enojar. Vem à memória a sina triste do sentenciado Lourenço, momento mais alto do livro, revivida de forma impactante. Moído pelos ciúmes, em momento de desvario, ele comete um crime de morte por amor à mulata Frederica. Condenado a trinta anos de prisão, conta e reconta os dias, os meses e os anos da pena, ajudado pelo carcereiro, já transformado em amigo. Mas tudo na vida tem um fim e um dia a reclusão termina. Avelhantado, doente, rengo duma perna e troncho duma orelha, ganha a liberdade. “Ei-lo trôpego, aturdido pelo ar livre e espaço desempeçado, buscando, em terras longes, o paradeiro da mulata. É o último anseio pela felicidade.”  Anda e anda, pergunta, indaga, procura, investiga. Estradas sem fim se afunilam no horizonte, curvas tortuosas sobem pelas coxilhas e descem pelas canhadas, e o sonho de reencontrar o amor da juventude parece cada vez mais remoto. Mas vai que um dia, num rancho à beira-chão, chega ao ponto que lhe indicaram. Num esforço para reentrar no presente grita o “Ô de casa!”  

Frederica assoma à porta. Está gorda, maltratada pela vida, tem os cabelos nevados. Nem de longe lembra a morena elegante e sensual de outrora. Ela o contempla de longe. Boas tardes. – diz ele em voz cava. – Boas tardes! – responde ela.  A mulher o observa sem dar mostra de reconhecer. Você é a Frederica? – indaga com receio. Sou, responde ela  Recai um silêncio pesado. Observam-se longamente. Convidado a entrar, ele senta numa tripeça, atiça o fogo do cachimbo e começa a baforar. Antão você é o Lourenço? – inquire a mulata. Sou, responde o visitante num jeitão tristonho. Alarido de crianças ecoa no terreiro chamando-o à realidade. Você mora com homem? – pergunta Lourenço. Com o Martinho – informa ela. – Tenho onze “famílias” dele... O pensamento dele esvoaçou frouxo para a prisão, relembrando tanta espera, tanta paciência, tanta resignação. A vida sabia-lhe amarga. Enquanto estava na prisão o mundo dava suas voltas, tudo mudava e remudava. Não havia mais o que fazer ali. O Martinho é bom sujeito? – ainda perguntou. Bebe, às vezes. Do mais não tenho queixa. A vida é dura. Adeus – murmurou ele. Adeus, Lourenço, respondeu ela. “Guardou o cachimbo, retomou a trouxa e o bordão, e afastou-se, trôpego, paciente, rebocando a custo a perna enferma, como um casco desarvorado, sem rumo, toando ao léu...” Nem um queixume, uma reclamação, um indício de revolta. Fora, o sol dardejava e o calor o enlaçou. A estrada se estendia ao infinito entre curvas sinuosas que levavam para longe, longe, longe.

Não obstante, a vida no Córrego Fundo continua e os dias escorrem para o poço sem fundo do tempo. Tudo acontece devagar. Siá Marciana “opera” o papo do frango Manequinho, atravessado por um graveto; a gata da estima, lanuda e confiada, aparece em busca de afagos; Américo dedilha a sanfona e sons algo desafinados enchem o ambiente; Sontonho, cego de um olho, ocupa-se do engenho e da farinha. Insiste em presentear o visitante com dois polpudos sacos do produto preparado com grande zelo.

Mas Dr. Félix necessita voltar ao trabalho. Afinal, é juiz e deve retomar as inquirições, os despachos e as sentenças, enfrentando o rábula chicaneiro que vivia espiolhando seu trabalho na busca incessante de falhas, senões e nulidades. Que fazer se não voltar ao batente e enfrentar com coragem a luta cotidiana. E assim, levando acavalados na garupa da montaria os sacos de farinha, entra no povoado. Sente-se ridículo aos olhos dos passantes que o observam com curiosidade em virtude de tão estranha carga.

E sobrevém o epílogo humano e comovente. Dias depois, numa visita surpreendente, surgem no foro os moradores do Córrego Fundo. Trazem pequeno presente, acondicionado em elegante caixinha. É um anel valioso, adquirido com as moedas que o juiz lhes deixava em paga da hospitalidade. Foram guardando, em segredo, para comprar a jóia valiosa. Emocionado, Dr. Félix nem sabe como agradecer o gesto espontâneo daqueles seres rudes na aparência mas humanos no coração. “Retiraram-se, por fim. Tornando ao escritório, retomei o estojo e contemplei melancolicamente a jóia coruscante de rebrilhos, calculando  comigo o quanto de privações e amarguras se condensariam naquela cercadura chispante e naquela gota de sangue mineralizado. Em vez da festiva alegria com que os pobrezinhos contavam, com que aperto de coração eu recebia a sua dádiva!”

Para compensar, obteve para o Américo a criação de uma escola e sua nomeação como professor, realizando um sonho há muito acalentado. “E foi um nunca acabar de mútuos agradecimentos...”

Como observou José Afrânio Moreira Duarte, “Vida Ociosa” é o retrato do hinterland mineiro de corpo e alma. Ali estão a geografia, a paisagem, a natureza, os usos e costumes, a linguagem e as figuras humanas com seus cacoetes e sua fala característica. É um quadro perfeito, traçado pela mão de mestre de fino observador.

Desde 1977 – quarenta anos! – venho sustentando uma cruzada para reerguer Godofredo Rangel e retirá-lo do injusto ostracismo. Perdi a conta das ocasiões em que pesquisei, escrevi e falei sobre ele. Devo reconhecer que o resultado tem sido pífio mas ainda alimento a esperança de que surja um editor corajoso que reedite suas obras completas, em caprichados volumes, e com ampla divulgação em todo o país. Será demonstrado, então, que a justiça literária também pode demorar mas não costuma falhar.

Escrito por Enéas Athanázio, 26/06/2017 às 11h20 | e.atha@terra.com.br

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Aniversariante ilustre

Fundada em 11 de fevereiro de 1932, a Faculdade de Direito de Santa Catarina completou 85 anos de existência. Criada por inspiração do professor, desembargador e escritor José Arthur Boiteux (*), foi a primeira escola de Direito em nosso Estado, embora não tenha sido a primeira de nível superior. Funcionava, no início, à rua Felipe Schmidt, em dependências que ficavam sobre a célebre “Confeitaria do Chiquinho” e, mais tarde, foi transferida para sua sede própria, à rua Esteves Júnior, número 11, onde funcionou por longos anos até ser instalada no campus da Trindade, integrada à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com o estranho nome de Centro de Ciências Jurídicas, denominação inexplicável, uma vez que as mais tradicionais Faculdades de Direito do País conservaram o nome antigo. Exemplos são a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, as “Arcadas”, em São Paulo, e a Faculdade de Direito do Recife, ambas conservando o nome original mesmo após todas as peripécias de nossa história. Seria a troca de nome uma forma de escamotear o passado contestador e polêmico da velha Faculdade? Funcionou por vários anos como escola particular e depois estadual, embora houvesse o pagamento de mensalidades por parte dos alunos, ônus que só foi extinto com a federalização.

A Faculdade de Direito tem formado inúmeras gerações de bacharéis desde sua turma inicial, muitos deles ocupando posições de relevo na vida pública como advogados, magistrados, integrantes do Ministério Público, policiais, políticos, professores, escritores, jornalistas etc. Tive a sorte de frequentá-la em um dos melhores momentos de sua existência, entre 1955 e 1959, ainda na vigência da Constituição Federal de 1946, a mais democrática das Cartas brasileiras, que garantia o amplo debate de todos os assuntos sem os medos e receios que o regime autoritário viria a instalar no seio das universidades. Fui aluno de professores de primeira linha, inesquecíveis, e tive colegas do maior destaque na vida profissional, parte deles pontificando até hoje em suas múltiplas atividades. Sempre ligados no que acontecia no Estado e no País, os acadêmicos discutiam, protestavam, sabatinavam candidatos, criticavam e aplaudiam. Nossas assembléias, ainda que acaloradas, constituíam exemplos do espírito democrático vigente entre os estudantes, muito diferente da alienação e do desinteresse com que me deparei, mais tarde, como professor em duas universidades.

O ambiente da Faculdade vivia em permanente ebulição. Cursos de extensão universitária eram constantes e sobre os mais variados temas. Ao longo do Curso, frequentei pelo menos uma dúzia deles. Júris simulados também aconteciam. Num deles funcionei como Promotor de Justiça, tendo como assistente de acusação meu colega de turma Telmo Marengo. Em outro, tempos depois, servi como jurado. Houve júris sobre assuntos não-criminais, como a construção de Brasília, um dos grandes temas da época. Por inacreditável que seja, havia forte oposição à construção da nova Capital e as discussões a respeito costumavam ser furiosas. Conferencistas de fora, alguns de grande renome, compareciam com frequência, pronunciando suas palestras no salão nobre com suas cadeiras de palhinha. Graças a isso, conheci muitos expoentes da cultura nacional, jurídica ou não. Nelson Hungria em campanha pela comutação da pena de morte de Caryl Chessman, o Bandido da Luz Vermelha, sem resultado; Nelson Carneiro em sua incansável luta pela adoção do divórcio; Mozart Victor Russomano, luminar do Direito do Trabalho; Darcy Azambuja, doublé de cientista social e escritor regionalista; Buys de Barros, notável economista; Ataliba Nogueira, expoente do Direito Tributário; Plínio Salgado, eterno candidato a presidente da República; Carlos Lacerda, o célebre orador padre Godinho, Roland Corbisier, o criminalista José Bonifácio de Andrada, Pedro Calmon, magnífico reitor da Universidade do Brasil, Andrés Daglio, conferencista uruguaio, Osny Duarte Pereira, Dagoberto Salles, Benjamim de Oliveira, Josué de Castro e sua luta contra a fome, o processualista Galeno Lacerda, o folclórico criminalista Mário Jorge, tantos e tantos outros que a memória não reteve. Entre os grandes eventos da época, lembro-me da realização da Semana Nacional de Estudos Jurídicos, em 1957, reunindo em Florianópolis o melhor dentre acadêmicos e professores. No concurso nacional de oratória, nessa ocasião, destacou-se o então acadêmico Norberto Ulysséa Ungaretti, em magnífico discurso, e que perdeu a primeira colocação por insignificante diferença em julgamento muito questionado. Os concursos para a cátedra e a livre-docência, expondo ao público os conhecimentos dos candidatos a professores, também despertavam grande interesse. Assisti a alguns memoráveis.

Dentre os mestres, começo por evocar Othon D’Eça, tanto pela ligação pessoal como pela afinidade com o escritor. Nos tempos em que residiu em Campos Novos, minha cidade natal, ainda solteiro, tornou-se grande amigo de meu pai e jamais o esqueceria. Sempre que me encontrava, na rua ou nos corredores da Faculdade, abraçava-me com efusão, exclamando: “Parece que estou vendo o José ainda mocinho!”, referindo-se a meu pai. Professor de Direito Romano e homem de vasta cultura, era irrequieto durante as aulas, gesticulante, movimentado, descendo e subindo no estrado onde ficava a mesa. Apaixonado por Eça de Queiroz, bastava mencionar o escritor luso para que se desmanchasse em comentários. Suas aulas eram ministradas aos sábados à tarde, em dia e horário inacreditáveis, mas a maioria dos alunos marcava presença. Sobre ele muito tenho escrito e prefaciei seu livro “...Aos espanhóis confinantes!”, edição de suas Obras Completas, publicadas pela FCC.

Inesquecível também é Joaquim Madeira Neves, talvez o mais popular entre os alunos, sempre em meio a um círculo deles. Professor de Medicina Legal, tinha uma erudição espantosa e suas aulas nos deixavam embasbacados. Osmundo Wanderley da Nóbrega, magistrado sério e circunspeto, mestre de Direito Civil respeitado pelo grande conhecimento, embora um tanto arredio e de pouca conversa. Creio que foi o pioneiro no estudo e na aplicação da obra de Pontes de Miranda aqui no Estado. Severino Nicomedes Alves Pedrosa, pernambucano que jamais perdeu o sotaque, magistrado e professor de Direito Civil, pragmático nas lições e irônico nas respostas. Edmundo Acácio Moreira, modesto, quase humilde, mas que parecia reter todo o Direito Civil na cabeça, citando dispositivos, teorias e decisões de memória, sem recorrer a anotações. Luna Freire, professor de Direito Processual Civil, também sábio na sua matéria, conhecendo-a tanto no passado como na atualidade. João Bayer Filho, político e professor de Direito Penal, um artista na gesticulação e na impostação da voz. Alcebíades Valério Silveira de Souza, mestre de Direito Internacional Público, conhecedor profundo da matéria e que guardava na cabeça, como que desenhado em traços fortes, o complicado mapa geopolítico mundial. Atualizado como poucos, abordava qualquer fato novo que eclodisse no mais recôndito do Globo. Abelardo de Assumpção Rupp, mestre de Direito Comercial, pessoa de rara bondade e por isso muito querida. João David Ferreira Lima, professor de Ciência das Finanças, lutador incansável pela federalização e diretor da Faculdade. José do Patrocínio Gallotti, apaixonado socialista, e Pedro de Moura Ferro, sempre indignado com as injustiças do mundo e os entraves da burocracia. Ferreira Bastos, nosso iniciador nos meandros do Direito Penal, Renato Barbosa, mestre de Direito Internacional Privado, tantas vezes irritado com as urzes do caminho, Telmo Vieira Ribeiro e suas lições de Direito Constitucional. Henrique Stodieck, mestre de Direito do Trabalho, como tal respeitado em todo o País. E outros, muitos outros, inclusive os mais jovens que lecionaram por pouco tempo e talvez por isso não deixaram maiores marcas. Todos, porém, contribuíram para a formação de verdadeiros profissionais e são credores de nosso reconhecimento. Não fui aluno de Henrique da Silva Fontes, já aposentado, embora tenha assistido a várias de suas palestras.

Com colegas de turma e contemporâneos em geral  também mantive um relacionamento muito rico e agradável. Entre os primeiros, vem-me à memória a figura de Telmo Marengo, creio que o mais inteligente de todos. Questionava os professores, em pé, com argumentação perfeita e, às vezes, colocando-os em dificuldades. Costumava ir à minha pensão, à noite, e ficava caminhando entre as camas, no quarto onde eu dormia, gesticulando e falando como quem procurava convencer. Bem humorado, ria com facilidade e gostava de relembrar fatos engraçados que havia presenciado. Henrique Gabriel Botelho Berenhauser, estudioso como poucos, leitor incansável, foi outro de meus companheiros ao longo de todo o Curso. José de Brito Andrade, simpático e alegre, tornou-se renomado criminalista. Luiz Henrique Baptista, muito amável, místico, sempre conversando com Deus, com quem parecia manter relações muito chegadas. Yara Coelho de Souza, sempre na nossa roda, grande colega e amiga. E outros, muitos outros, embora esses fossem os mais próximos, aqueles que ficaram para sempre na lembrança.

Com estas desalinhavadas, registro minha homenagem à nossa provecta Faculdade, proclamando mais uma vez – como tantos outros ex-alunos – que não concordo e não gosto do atual nome. Para nós, ela será sempre a Faculdade de Direito de Santa Catarina.

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(*) Apesar de sua importância na vida pública e na literatura catarinense, José Arthur Boiteux não tem merecido maior destaque. A “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, dedica-lhe algumas magras linhas, e o mesmo faz o “Dicionário Literário Brasileiro”, de Raimundo de Menezes. A “Enciclopédia Brasileira Globo”, tão rica em temas nacionais, nem sequer o menciona. Sua sobrevivência se deve aos pesquisadores locais, como Celestino Sachet, Lauro Junkes e Iaponan Soares. Por mais que indague, nunca consegui saber o destino do busto do Fundador que havia diante da Faculdade.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/06/2017 às 13h57 | e.atha@terra.com.br

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João do Rio e as ruas

A Editora Martin Claret, de São Paulo, vem se esmerando em publicar caprichadas reedições de obras importantes de nossa literatura na coleção a que denomina a obra prima de cada autor. São livros em pequeno formato, editados com esmero, contendo sempre textos interpretativos que auxiliam o leitor na plena compreensão da obra. Entre estas, destaca-se o volume “A alma encantadora das ruas”, de João do Rio, publicada em 2013.

João Paulo Alberto Coelho Barreto (1881/1921), que se tornou conhecido como João do Rio, teve uma vida breve mas vertiginosa, como escreveu seu biógrafo R. Magalhães Jr. Nascido e vivido no Rio de Janeiro, iniciou-se muito cedo no jornalismo, escrevendo sobre os mais variados assuntos e usando diversos pseudônimos. Viajou muito pela Europa, em especial a Portugal, país com o qual manteve intenso intercâmbio. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras, da qual se afastou após a eleição de Humberto de Campos, seu implacável crítico. Desfrutou da amizade de Gilberto Amado, autor de muitas páginas de admiração e carinho sobre ele publicadas em suas memórias. Pertenceu à fase literária do pré-modernismo, ao lado de seu contemporâneo Lima Barreto. Seu jornalismo foi considerado inovador, em linguagem típica de período de transição. Foi um homem de fama extraordinária em certa fase da vida, aclamado e aplaudido onde quer que fosse. Após a ferrenha campanha de Humberto de Campos, impiedosa e constante, as pessoas começaram a fugir dele, evitando qualquer contato, o que lhe provocava intenso sofrimento. Faleceu dentro de um táxi com apenas 40 anos de idade.

João do Rio foi um amante das ruas, um observador arguto de tudo que nelas acontecia, desvendando-lhes a própria alma. Era um “flâneur”, isto é, gostava de flanar vagarosamente pelas ruas, olhando, observando, cheirando, ouvindo o bruaá das pessoas conversando. Graças a isso, conhecia muito bem a cidade, não apenas nos locais elegantes e sofisticados, mas também nos feios, tristes e miseráveis. Essas andanças aconteciam também nas cidades estrangeiras que visitava. Inspirado nelas e nas leituras que fazia, escreveu a série de crônicas que compõe este livro e que não tardou a se tornar um clássico sobre o assunto, sempre exaltado pelos amantes das ruas, entre eles um Jorge Amado. João do Rio acabou se tornando uma espécie de filósofo das ruas, incluindo-se aí tudo que nelas ocorre, inclusive as feiras e mercados. Ele dizia que para bem penetrar a alma de uma cidade, é indispensável conhecer esses lugares de comércio popular.

Na primeira crônica, - A rua, - a mais longa do livro, ele abre com a confissão de que ama a rua, “espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia.” Em seguida, aborda a rua sob todos os aspectos imagináveis, inclusive como início da estrada, sinônimo de libertação. A rua faz celebridades, algumas eternizadas nos próprios nomes, e também provoca revoltas que nela se iniciam e muitas vezes desenvolvem. Certas ruas são tão individuais que parecem humanas, como diz Balzac; outras são impessoais e incaracterísticas.  Existem ruas contraditórias: a da Misericórdia abriga casas velhas a caírem, a miséria e a desgraça, “os corredores bafientos.” Existem as ruas oradoras, ostentando nomes de santos: São Francisco, São Bento, São José. Há ruas calmas e ruas nervosas, silenciosas e barulhentas. Há, enfim, ruas para todos os gostos e todas as explorações.

Nas crônicas posteriores ele desvenda todos os segredos das ruas. As pequenas profissões, os tatuadores, os vendedores de orações, os urubus (vendedores de coroas fúnebres à porta dos cemitérios), os vendedores de livros e as leituras de rua, as pinturas das ruas, as tabuletas, os viciados, os músicos ambulantes, os cordões carnavalescos e mil outros aspectos.

Após a leitura deste livro o leitor jamais voltará a ver a rua com os mesmos olhos.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 12/06/2017 às 15h15 | e.atha@terra.com.br

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Atmosfera sufocante

Entre os bons lançamentos destes últimos tempos está o livro “Mestres de Armas” (Companhia das Letras – S. Paulo). Trata-se de uma antologia reunindo seis histórias sobre duelos, cada uma de autoria de um autor diferente, subscritas por grandes nomes das letras universais, como Joseph Conrad, Arthur Schmitzler, Guy de Maupassant, Heinrich Von Kleist, Ivan Turguêniev e Wladimir Nabokov. Todos são pesos pesados da grande literatura, sendo Maupassant considerado por muitos críticos o maior contista de todos os tempos.

Nos dias atuais, o duelo tradicional é uma prática alheia aos nossos costumes, embora em passado não muito distante fosse comum e às vezes até incentivada, em especial entre militares. Constituía um meio de lavar a honra com sangue e tinha início quase sempre com o lançamento de uma luva à face do adversário. Escolhiam-se, então, as armas (espadas ou pistolas), os padrinhos, o local e a hora para o embate. Muitas vezes um dos combatentes caía morto; em outras, ambos saíam ilesos ou apenas feridos, mas a honra estava lavada.  Na França e na Rússia os duelos foram muito praticados. É interessante notar que na Alemanha Imperial o duelo integrava o sistema judicial e religioso. Quando chancelado pelo imperador, tinha o sentido de um julgamento divino, isto é, o vencido se considerava condenado pelo próprio Deus.

No Brasil aconteceram alguns casos, sendo lembrado o desafio dos escritores Olavo Bilac a Raul Pompéia, provocado por desentendimentos literários, e que foi evitado porque alguém teve a boa ideia de avisar a polícia. O episódio foi muito comentado nos jornais, inclusive pelo aspecto hilário, uma vez que os dois eram “janotas” ou “almofadinhas”, de todo incapazes de manusear uma espada, além de que eram ambos estrábicos. A história ficou gravada nos anais literários como um episódio bizarro. Em Florianópolis, segundo historiadores da literatura, o escritor Othon D’Eça teria desafiado o crítico Altino Flores para um duelo à espada. A turma do “deixa disso” entrou em cena e o embate não aconteceu. Fui aluno e amigo do primeiro e muito me arrependo por não ter conversado com ele sobre o assunto.

O livro se abre com um interessante ensaio introdutório de Cláudio Figueiredo, o organizador da coletânea. Ele faz um passeio pela história literária, revelando o quanto o duelo esteve presente na vida de inúmeros escritores. Marcel Proust, por exemplo, tido em geral como pessoa frágil e sofisticada, foi entusiasta dos duelos; Stemdhal, da mesma forma, assim como Tolstói (quem diria!), que vivia às turras com Turguêniev, rompendo relações por quatorze anos e se desafiando sempre entre si. Maupassant, ainda que criticando a prática duelista em seus escritos, considerando-a “o cúmulo da idiotice”, desafiou para um embate certo escritor Jean Lorrain, que o havia ridicularizado num de seus livros, mas o combate não aconteceu porque o desafiado se retratou. Muito vaidoso, Maupassant praticava esportes e levantava pesos em casa para impressionar as muitas mulheres que conquistou com seus bíceps.

Dentre todos os contos, porém, destaca-se “O duelo”, de Joseph Conrad, o mais longo de todos. Escritor polonês de língua inglesa, ele foi um homem do mar e teve uma vida repleta de aventuras. Em seus romances, criou sempre um ambiente sombrio e de suspense decorrente muito mais das situações que das palavras usadas. Neste conto, partindo de um incidente menor e que não justiçaria a atitude tomada, descreve a inimizade entre dois tenentes do exército francês que se estende pela vida a fora até que ambos se tornassem generais. Por conta disso, ao longo de duas décadas, vão se batendo em sucessivos duelos. Um deles, afinal, é vencido e fica devendo a vida ao outro. Mesmo assim nunca o perdoa. No epílogo, à beira da miséria, acaba sendo sustentado pelo outro sem que jamais o soubesse. O conto gera tal clima de suspense que prende o leitor incrédulo diante da absurda atitude de um dos personagens. É uma atmosfera sufocante que só um mestre consumado consegue criar.

Escrito por Enéas Athanázio, 05/06/2017 às 09h03 | e.atha@terra.com.br

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Um livro para morar

Dizia Monteiro Lobato que livro bom é aquele em que se pode morar, ou seja, ler, reler e tresler sem que ele se esgote. Não são muitos os afortunados que suportam tantas investidas do leitor. Para minha agradável surpresa, acabo de encontrar um deles, de autoria de autor bem próximo, e que fui lendo, voltando, relendo e repassando para bem fixar certos episódios, alguns de efeitos cinematográficos. Refiro-me ao romance “Sangue Verde”, de autoria de David Gonçalves, catarinense por opção e radicado em Joinville (Sucesso Pocket – 2014 – 400pp).

Trata-se de acalentada saga romanesca com ambiente amazônico, revelando um autor maduro, dono do ofício e de fôlego, paciência e dedicação exigidos pelos textos longos. Fica evidente também que conheceu a região em profundidade, muito além de seus aspectos pitorescos, e absorveu a atmosfera reinante naquelas paragens. A geografia, a paisagem, a floresta, os animais, os rios e igarapés, os peixes, os alimentos, os costumes, as ervas, as línguas indígenas, nada lhe escapa. Isso tudo vai se descortinando aos olhos do leitor ao natural, sem pretensões didáticas ou expositivas, mas como integração entre o texto e o enredo. O resultado é perfeito.

O romance se abre em tom sombrio. É um panorama de devastação, violência e miséria em que vive o povo numa das partes mais ricas do planeta. A derrubada sem limite ou escrúpulo da floresta com imensos tratores e fortíssimas correntes que tudo levam de roldão; os garimpos que envenenam as águas; o avanço incontido do latifúndio para o gado e a soja; o furto de espécimes vegetais e animais; a exploração do homem pelo homem pelas formas mais primárias e brutais; o contrabando em todas suas modalidades; a prostituição e o alcoolismo constituem um quadro aterrador exibido às claras diante de um Estado inerte e desinteressado. É um mundo sem lei que o Brasil não enxerga e parece ter relegado à própria sorte.

Aos poucos, porém, o leque se abre e vão entrando em cena os viventes, humanos e animais. É uma galeria imensa de personagens, todos bem caracterizados e coerentes. Existem os sedentos de lucros rápidos e fáceis, com os olhos ardentes de cobiça pelas preciosas pepitas que brotam do chão e pelas quais praticam as maiores atrocidades. Não faltam os que estendem cercas intermináveis, inclusive sobre terras indígenas, não titubeando em eliminá-los de forma sumária quando atrapalham seus planos. Cruzando-se e entrecruzando-se, segue um verdadeiro rebanho de seres estranhos em que se incluem contrabandistas, prostitutas, comerciantes de pequeno porte, índios desterrados e bêbados e a fina flor da rafuagem nacional que para lá acorre. Nesse torvelinho estonteante, ainda que correndo todos os riscos, surgem os corajosos, os honestos e os bem intencionados que tentam impedir o mergulho no caos definitivo. A luta é árdua, amarga e perigosa mas indica que a inata inclinação pelo bem ainda subsiste. E o juiz pequenino, de aparência frágil e insignificante, se lança quase sozinho numa cruzada infernal.

Aparece a figura humilde do padre que celebrava suas missas com seu cão amarelo ao lado, provocando a ira das beatas. Zé das Trilhas palmilhando sem cansaço pela floresta sem fim, certo de que ela lhe daria a fortuna sem violência ou maldade, como de fato acontece. E Doca, bafejado pela sorte, encontra imensa pepita que lhe permite reiniciar a vida abalada por intensa tragédia. Um biólogo europeu, buscando a glória no meio científico, estuda os macacos e as ervas até se converter no líder dos adoradores da Grande Pedra Preta em cujo topo vicejava uma orquídea. Em torno dela celebravam ao calor dos chás e do Santo Daime, encontrando um fim trágico e coletivo por artes de Pageú, inconformado com a invasão branca nos seus domínios. A justiça, afinal, chega, Cascalho Rico sofre uma depuração e o sol volta a brilhar radioso, exceto para os que pagaram pelos seus malefícios. Até o amor ressurge exuberante.

O romancista escreve bem, sem volteios torturantes, é claro e comedido no descritivo. Domina com segurança o diálogo e move com firmeza os cordéis dos múltiplos personagens.

A chamada literatura nortista se engrandeceu. O rico plantel de seus celebrados autores conta com mais um expoente. Alberto Rangel, Inglês de Souza, Raul Bopp, Dalcídio Jurandir, Sílvio Meira, Bruno de Menezes, Márcio Souza, Jesuíno Ramos, Jorge Tufic, Alcides Werk, Sylvia Helena, Adrino Aragão, Gaitano Antonaccio, Nicodemos Sena e tantos outros têm novo companheiro. Santa Catarina bata com alegria no peito: ganhou um grande escritor brasileiro.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/05/2017 às 15h59 | e.atha@terra.com.br

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