Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Aniversariante ilustre

Fundada em 11 de fevereiro de 1932, a Faculdade de Direito de Santa Catarina completou 85 anos de existência. Criada por inspiração do professor, desembargador e escritor José Arthur Boiteux (*), foi a primeira escola de Direito em nosso Estado, embora não tenha sido a primeira de nível superior. Funcionava, no início, à rua Felipe Schmidt, em dependências que ficavam sobre a célebre “Confeitaria do Chiquinho” e, mais tarde, foi transferida para sua sede própria, à rua Esteves Júnior, número 11, onde funcionou por longos anos até ser instalada no campus da Trindade, integrada à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com o estranho nome de Centro de Ciências Jurídicas, denominação inexplicável, uma vez que as mais tradicionais Faculdades de Direito do País conservaram o nome antigo. Exemplos são a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, as “Arcadas”, em São Paulo, e a Faculdade de Direito do Recife, ambas conservando o nome original mesmo após todas as peripécias de nossa história. Seria a troca de nome uma forma de escamotear o passado contestador e polêmico da velha Faculdade? Funcionou por vários anos como escola particular e depois estadual, embora houvesse o pagamento de mensalidades por parte dos alunos, ônus que só foi extinto com a federalização.

A Faculdade de Direito tem formado inúmeras gerações de bacharéis desde sua turma inicial, muitos deles ocupando posições de relevo na vida pública como advogados, magistrados, integrantes do Ministério Público, policiais, políticos, professores, escritores, jornalistas etc. Tive a sorte de frequentá-la em um dos melhores momentos de sua existência, entre 1955 e 1959, ainda na vigência da Constituição Federal de 1946, a mais democrática das Cartas brasileiras, que garantia o amplo debate de todos os assuntos sem os medos e receios que o regime autoritário viria a instalar no seio das universidades. Fui aluno de professores de primeira linha, inesquecíveis, e tive colegas do maior destaque na vida profissional, parte deles pontificando até hoje em suas múltiplas atividades. Sempre ligados no que acontecia no Estado e no País, os acadêmicos discutiam, protestavam, sabatinavam candidatos, criticavam e aplaudiam. Nossas assembléias, ainda que acaloradas, constituíam exemplos do espírito democrático vigente entre os estudantes, muito diferente da alienação e do desinteresse com que me deparei, mais tarde, como professor em duas universidades.

O ambiente da Faculdade vivia em permanente ebulição. Cursos de extensão universitária eram constantes e sobre os mais variados temas. Ao longo do Curso, frequentei pelo menos uma dúzia deles. Júris simulados também aconteciam. Num deles funcionei como Promotor de Justiça, tendo como assistente de acusação meu colega de turma Telmo Marengo. Em outro, tempos depois, servi como jurado. Houve júris sobre assuntos não-criminais, como a construção de Brasília, um dos grandes temas da época. Por inacreditável que seja, havia forte oposição à construção da nova Capital e as discussões a respeito costumavam ser furiosas. Conferencistas de fora, alguns de grande renome, compareciam com frequência, pronunciando suas palestras no salão nobre com suas cadeiras de palhinha. Graças a isso, conheci muitos expoentes da cultura nacional, jurídica ou não. Nelson Hungria em campanha pela comutação da pena de morte de Caryl Chessman, o Bandido da Luz Vermelha, sem resultado; Nelson Carneiro em sua incansável luta pela adoção do divórcio; Mozart Victor Russomano, luminar do Direito do Trabalho; Darcy Azambuja, doublé de cientista social e escritor regionalista; Buys de Barros, notável economista; Ataliba Nogueira, expoente do Direito Tributário; Plínio Salgado, eterno candidato a presidente da República; Carlos Lacerda, o célebre orador padre Godinho, Roland Corbisier, o criminalista José Bonifácio de Andrada, Pedro Calmon, magnífico reitor da Universidade do Brasil, Andrés Daglio, conferencista uruguaio, Osny Duarte Pereira, Dagoberto Salles, Benjamim de Oliveira, Josué de Castro e sua luta contra a fome, o processualista Galeno Lacerda, o folclórico criminalista Mário Jorge, tantos e tantos outros que a memória não reteve. Entre os grandes eventos da época, lembro-me da realização da Semana Nacional de Estudos Jurídicos, em 1957, reunindo em Florianópolis o melhor dentre acadêmicos e professores. No concurso nacional de oratória, nessa ocasião, destacou-se o então acadêmico Norberto Ulysséa Ungaretti, em magnífico discurso, e que perdeu a primeira colocação por insignificante diferença em julgamento muito questionado. Os concursos para a cátedra e a livre-docência, expondo ao público os conhecimentos dos candidatos a professores, também despertavam grande interesse. Assisti a alguns memoráveis.

Dentre os mestres, começo por evocar Othon D’Eça, tanto pela ligação pessoal como pela afinidade com o escritor. Nos tempos em que residiu em Campos Novos, minha cidade natal, ainda solteiro, tornou-se grande amigo de meu pai e jamais o esqueceria. Sempre que me encontrava, na rua ou nos corredores da Faculdade, abraçava-me com efusão, exclamando: “Parece que estou vendo o José ainda mocinho!”, referindo-se a meu pai. Professor de Direito Romano e homem de vasta cultura, era irrequieto durante as aulas, gesticulante, movimentado, descendo e subindo no estrado onde ficava a mesa. Apaixonado por Eça de Queiroz, bastava mencionar o escritor luso para que se desmanchasse em comentários. Suas aulas eram ministradas aos sábados à tarde, em dia e horário inacreditáveis, mas a maioria dos alunos marcava presença. Sobre ele muito tenho escrito e prefaciei seu livro “...Aos espanhóis confinantes!”, edição de suas Obras Completas, publicadas pela FCC.

Inesquecível também é Joaquim Madeira Neves, talvez o mais popular entre os alunos, sempre em meio a um círculo deles. Professor de Medicina Legal, tinha uma erudição espantosa e suas aulas nos deixavam embasbacados. Osmundo Wanderley da Nóbrega, magistrado sério e circunspeto, mestre de Direito Civil respeitado pelo grande conhecimento, embora um tanto arredio e de pouca conversa. Creio que foi o pioneiro no estudo e na aplicação da obra de Pontes de Miranda aqui no Estado. Severino Nicomedes Alves Pedrosa, pernambucano que jamais perdeu o sotaque, magistrado e professor de Direito Civil, pragmático nas lições e irônico nas respostas. Edmundo Acácio Moreira, modesto, quase humilde, mas que parecia reter todo o Direito Civil na cabeça, citando dispositivos, teorias e decisões de memória, sem recorrer a anotações. Luna Freire, professor de Direito Processual Civil, também sábio na sua matéria, conhecendo-a tanto no passado como na atualidade. João Bayer Filho, político e professor de Direito Penal, um artista na gesticulação e na impostação da voz. Alcebíades Valério Silveira de Souza, mestre de Direito Internacional Público, conhecedor profundo da matéria e que guardava na cabeça, como que desenhado em traços fortes, o complicado mapa geopolítico mundial. Atualizado como poucos, abordava qualquer fato novo que eclodisse no mais recôndito do Globo. Abelardo de Assumpção Rupp, mestre de Direito Comercial, pessoa de rara bondade e por isso muito querida. João David Ferreira Lima, professor de Ciência das Finanças, lutador incansável pela federalização e diretor da Faculdade. José do Patrocínio Gallotti, apaixonado socialista, e Pedro de Moura Ferro, sempre indignado com as injustiças do mundo e os entraves da burocracia. Ferreira Bastos, nosso iniciador nos meandros do Direito Penal, Renato Barbosa, mestre de Direito Internacional Privado, tantas vezes irritado com as urzes do caminho, Telmo Vieira Ribeiro e suas lições de Direito Constitucional. Henrique Stodieck, mestre de Direito do Trabalho, como tal respeitado em todo o País. E outros, muitos outros, inclusive os mais jovens que lecionaram por pouco tempo e talvez por isso não deixaram maiores marcas. Todos, porém, contribuíram para a formação de verdadeiros profissionais e são credores de nosso reconhecimento. Não fui aluno de Henrique da Silva Fontes, já aposentado, embora tenha assistido a várias de suas palestras.

Com colegas de turma e contemporâneos em geral  também mantive um relacionamento muito rico e agradável. Entre os primeiros, vem-me à memória a figura de Telmo Marengo, creio que o mais inteligente de todos. Questionava os professores, em pé, com argumentação perfeita e, às vezes, colocando-os em dificuldades. Costumava ir à minha pensão, à noite, e ficava caminhando entre as camas, no quarto onde eu dormia, gesticulando e falando como quem procurava convencer. Bem humorado, ria com facilidade e gostava de relembrar fatos engraçados que havia presenciado. Henrique Gabriel Botelho Berenhauser, estudioso como poucos, leitor incansável, foi outro de meus companheiros ao longo de todo o Curso. José de Brito Andrade, simpático e alegre, tornou-se renomado criminalista. Luiz Henrique Baptista, muito amável, místico, sempre conversando com Deus, com quem parecia manter relações muito chegadas. Yara Coelho de Souza, sempre na nossa roda, grande colega e amiga. E outros, muitos outros, embora esses fossem os mais próximos, aqueles que ficaram para sempre na lembrança.

Com estas desalinhavadas, registro minha homenagem à nossa provecta Faculdade, proclamando mais uma vez – como tantos outros ex-alunos – que não concordo e não gosto do atual nome. Para nós, ela será sempre a Faculdade de Direito de Santa Catarina.

_______________________________

(*) Apesar de sua importância na vida pública e na literatura catarinense, José Arthur Boiteux não tem merecido maior destaque. A “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, dedica-lhe algumas magras linhas, e o mesmo faz o “Dicionário Literário Brasileiro”, de Raimundo de Menezes. A “Enciclopédia Brasileira Globo”, tão rica em temas nacionais, nem sequer o menciona. Sua sobrevivência se deve aos pesquisadores locais, como Celestino Sachet, Lauro Junkes e Iaponan Soares. Por mais que indague, nunca consegui saber o destino do busto do Fundador que havia diante da Faculdade.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/06/2017 às 13h57 | e.atha@terra.com.br

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João do Rio e as ruas

A Editora Martin Claret, de São Paulo, vem se esmerando em publicar caprichadas reedições de obras importantes de nossa literatura na coleção a que denomina a obra prima de cada autor. São livros em pequeno formato, editados com esmero, contendo sempre textos interpretativos que auxiliam o leitor na plena compreensão da obra. Entre estas, destaca-se o volume “A alma encantadora das ruas”, de João do Rio, publicada em 2013.

João Paulo Alberto Coelho Barreto (1881/1921), que se tornou conhecido como João do Rio, teve uma vida breve mas vertiginosa, como escreveu seu biógrafo R. Magalhães Jr. Nascido e vivido no Rio de Janeiro, iniciou-se muito cedo no jornalismo, escrevendo sobre os mais variados assuntos e usando diversos pseudônimos. Viajou muito pela Europa, em especial a Portugal, país com o qual manteve intenso intercâmbio. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras, da qual se afastou após a eleição de Humberto de Campos, seu implacável crítico. Desfrutou da amizade de Gilberto Amado, autor de muitas páginas de admiração e carinho sobre ele publicadas em suas memórias. Pertenceu à fase literária do pré-modernismo, ao lado de seu contemporâneo Lima Barreto. Seu jornalismo foi considerado inovador, em linguagem típica de período de transição. Foi um homem de fama extraordinária em certa fase da vida, aclamado e aplaudido onde quer que fosse. Após a ferrenha campanha de Humberto de Campos, impiedosa e constante, as pessoas começaram a fugir dele, evitando qualquer contato, o que lhe provocava intenso sofrimento. Faleceu dentro de um táxi com apenas 40 anos de idade.

João do Rio foi um amante das ruas, um observador arguto de tudo que nelas acontecia, desvendando-lhes a própria alma. Era um “flâneur”, isto é, gostava de flanar vagarosamente pelas ruas, olhando, observando, cheirando, ouvindo o bruaá das pessoas conversando. Graças a isso, conhecia muito bem a cidade, não apenas nos locais elegantes e sofisticados, mas também nos feios, tristes e miseráveis. Essas andanças aconteciam também nas cidades estrangeiras que visitava. Inspirado nelas e nas leituras que fazia, escreveu a série de crônicas que compõe este livro e que não tardou a se tornar um clássico sobre o assunto, sempre exaltado pelos amantes das ruas, entre eles um Jorge Amado. João do Rio acabou se tornando uma espécie de filósofo das ruas, incluindo-se aí tudo que nelas ocorre, inclusive as feiras e mercados. Ele dizia que para bem penetrar a alma de uma cidade, é indispensável conhecer esses lugares de comércio popular.

Na primeira crônica, - A rua, - a mais longa do livro, ele abre com a confissão de que ama a rua, “espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia.” Em seguida, aborda a rua sob todos os aspectos imagináveis, inclusive como início da estrada, sinônimo de libertação. A rua faz celebridades, algumas eternizadas nos próprios nomes, e também provoca revoltas que nela se iniciam e muitas vezes desenvolvem. Certas ruas são tão individuais que parecem humanas, como diz Balzac; outras são impessoais e incaracterísticas.  Existem ruas contraditórias: a da Misericórdia abriga casas velhas a caírem, a miséria e a desgraça, “os corredores bafientos.” Existem as ruas oradoras, ostentando nomes de santos: São Francisco, São Bento, São José. Há ruas calmas e ruas nervosas, silenciosas e barulhentas. Há, enfim, ruas para todos os gostos e todas as explorações.

Nas crônicas posteriores ele desvenda todos os segredos das ruas. As pequenas profissões, os tatuadores, os vendedores de orações, os urubus (vendedores de coroas fúnebres à porta dos cemitérios), os vendedores de livros e as leituras de rua, as pinturas das ruas, as tabuletas, os viciados, os músicos ambulantes, os cordões carnavalescos e mil outros aspectos.

Após a leitura deste livro o leitor jamais voltará a ver a rua com os mesmos olhos.

 

Escrito por Enéas Athanázio, 12/06/2017 às 15h15 | e.atha@terra.com.br

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Atmosfera sufocante

Entre os bons lançamentos destes últimos tempos está o livro “Mestres de Armas” (Companhia das Letras – S. Paulo). Trata-se de uma antologia reunindo seis histórias sobre duelos, cada uma de autoria de um autor diferente, subscritas por grandes nomes das letras universais, como Joseph Conrad, Arthur Schmitzler, Guy de Maupassant, Heinrich Von Kleist, Ivan Turguêniev e Wladimir Nabokov. Todos são pesos pesados da grande literatura, sendo Maupassant considerado por muitos críticos o maior contista de todos os tempos.

Nos dias atuais, o duelo tradicional é uma prática alheia aos nossos costumes, embora em passado não muito distante fosse comum e às vezes até incentivada, em especial entre militares. Constituía um meio de lavar a honra com sangue e tinha início quase sempre com o lançamento de uma luva à face do adversário. Escolhiam-se, então, as armas (espadas ou pistolas), os padrinhos, o local e a hora para o embate. Muitas vezes um dos combatentes caía morto; em outras, ambos saíam ilesos ou apenas feridos, mas a honra estava lavada.  Na França e na Rússia os duelos foram muito praticados. É interessante notar que na Alemanha Imperial o duelo integrava o sistema judicial e religioso. Quando chancelado pelo imperador, tinha o sentido de um julgamento divino, isto é, o vencido se considerava condenado pelo próprio Deus.

No Brasil aconteceram alguns casos, sendo lembrado o desafio dos escritores Olavo Bilac a Raul Pompéia, provocado por desentendimentos literários, e que foi evitado porque alguém teve a boa ideia de avisar a polícia. O episódio foi muito comentado nos jornais, inclusive pelo aspecto hilário, uma vez que os dois eram “janotas” ou “almofadinhas”, de todo incapazes de manusear uma espada, além de que eram ambos estrábicos. A história ficou gravada nos anais literários como um episódio bizarro. Em Florianópolis, segundo historiadores da literatura, o escritor Othon D’Eça teria desafiado o crítico Altino Flores para um duelo à espada. A turma do “deixa disso” entrou em cena e o embate não aconteceu. Fui aluno e amigo do primeiro e muito me arrependo por não ter conversado com ele sobre o assunto.

O livro se abre com um interessante ensaio introdutório de Cláudio Figueiredo, o organizador da coletânea. Ele faz um passeio pela história literária, revelando o quanto o duelo esteve presente na vida de inúmeros escritores. Marcel Proust, por exemplo, tido em geral como pessoa frágil e sofisticada, foi entusiasta dos duelos; Stemdhal, da mesma forma, assim como Tolstói (quem diria!), que vivia às turras com Turguêniev, rompendo relações por quatorze anos e se desafiando sempre entre si. Maupassant, ainda que criticando a prática duelista em seus escritos, considerando-a “o cúmulo da idiotice”, desafiou para um embate certo escritor Jean Lorrain, que o havia ridicularizado num de seus livros, mas o combate não aconteceu porque o desafiado se retratou. Muito vaidoso, Maupassant praticava esportes e levantava pesos em casa para impressionar as muitas mulheres que conquistou com seus bíceps.

Dentre todos os contos, porém, destaca-se “O duelo”, de Joseph Conrad, o mais longo de todos. Escritor polonês de língua inglesa, ele foi um homem do mar e teve uma vida repleta de aventuras. Em seus romances, criou sempre um ambiente sombrio e de suspense decorrente muito mais das situações que das palavras usadas. Neste conto, partindo de um incidente menor e que não justiçaria a atitude tomada, descreve a inimizade entre dois tenentes do exército francês que se estende pela vida a fora até que ambos se tornassem generais. Por conta disso, ao longo de duas décadas, vão se batendo em sucessivos duelos. Um deles, afinal, é vencido e fica devendo a vida ao outro. Mesmo assim nunca o perdoa. No epílogo, à beira da miséria, acaba sendo sustentado pelo outro sem que jamais o soubesse. O conto gera tal clima de suspense que prende o leitor incrédulo diante da absurda atitude de um dos personagens. É uma atmosfera sufocante que só um mestre consumado consegue criar.

Escrito por Enéas Athanázio, 05/06/2017 às 09h03 | e.atha@terra.com.br

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Um livro para morar

Dizia Monteiro Lobato que livro bom é aquele em que se pode morar, ou seja, ler, reler e tresler sem que ele se esgote. Não são muitos os afortunados que suportam tantas investidas do leitor. Para minha agradável surpresa, acabo de encontrar um deles, de autoria de autor bem próximo, e que fui lendo, voltando, relendo e repassando para bem fixar certos episódios, alguns de efeitos cinematográficos. Refiro-me ao romance “Sangue Verde”, de autoria de David Gonçalves, catarinense por opção e radicado em Joinville (Sucesso Pocket – 2014 – 400pp).

Trata-se de acalentada saga romanesca com ambiente amazônico, revelando um autor maduro, dono do ofício e de fôlego, paciência e dedicação exigidos pelos textos longos. Fica evidente também que conheceu a região em profundidade, muito além de seus aspectos pitorescos, e absorveu a atmosfera reinante naquelas paragens. A geografia, a paisagem, a floresta, os animais, os rios e igarapés, os peixes, os alimentos, os costumes, as ervas, as línguas indígenas, nada lhe escapa. Isso tudo vai se descortinando aos olhos do leitor ao natural, sem pretensões didáticas ou expositivas, mas como integração entre o texto e o enredo. O resultado é perfeito.

O romance se abre em tom sombrio. É um panorama de devastação, violência e miséria em que vive o povo numa das partes mais ricas do planeta. A derrubada sem limite ou escrúpulo da floresta com imensos tratores e fortíssimas correntes que tudo levam de roldão; os garimpos que envenenam as águas; o avanço incontido do latifúndio para o gado e a soja; o furto de espécimes vegetais e animais; a exploração do homem pelo homem pelas formas mais primárias e brutais; o contrabando em todas suas modalidades; a prostituição e o alcoolismo constituem um quadro aterrador exibido às claras diante de um Estado inerte e desinteressado. É um mundo sem lei que o Brasil não enxerga e parece ter relegado à própria sorte.

Aos poucos, porém, o leque se abre e vão entrando em cena os viventes, humanos e animais. É uma galeria imensa de personagens, todos bem caracterizados e coerentes. Existem os sedentos de lucros rápidos e fáceis, com os olhos ardentes de cobiça pelas preciosas pepitas que brotam do chão e pelas quais praticam as maiores atrocidades. Não faltam os que estendem cercas intermináveis, inclusive sobre terras indígenas, não titubeando em eliminá-los de forma sumária quando atrapalham seus planos. Cruzando-se e entrecruzando-se, segue um verdadeiro rebanho de seres estranhos em que se incluem contrabandistas, prostitutas, comerciantes de pequeno porte, índios desterrados e bêbados e a fina flor da rafuagem nacional que para lá acorre. Nesse torvelinho estonteante, ainda que correndo todos os riscos, surgem os corajosos, os honestos e os bem intencionados que tentam impedir o mergulho no caos definitivo. A luta é árdua, amarga e perigosa mas indica que a inata inclinação pelo bem ainda subsiste. E o juiz pequenino, de aparência frágil e insignificante, se lança quase sozinho numa cruzada infernal.

Aparece a figura humilde do padre que celebrava suas missas com seu cão amarelo ao lado, provocando a ira das beatas. Zé das Trilhas palmilhando sem cansaço pela floresta sem fim, certo de que ela lhe daria a fortuna sem violência ou maldade, como de fato acontece. E Doca, bafejado pela sorte, encontra imensa pepita que lhe permite reiniciar a vida abalada por intensa tragédia. Um biólogo europeu, buscando a glória no meio científico, estuda os macacos e as ervas até se converter no líder dos adoradores da Grande Pedra Preta em cujo topo vicejava uma orquídea. Em torno dela celebravam ao calor dos chás e do Santo Daime, encontrando um fim trágico e coletivo por artes de Pageú, inconformado com a invasão branca nos seus domínios. A justiça, afinal, chega, Cascalho Rico sofre uma depuração e o sol volta a brilhar radioso, exceto para os que pagaram pelos seus malefícios. Até o amor ressurge exuberante.

O romancista escreve bem, sem volteios torturantes, é claro e comedido no descritivo. Domina com segurança o diálogo e move com firmeza os cordéis dos múltiplos personagens.

A chamada literatura nortista se engrandeceu. O rico plantel de seus celebrados autores conta com mais um expoente. Alberto Rangel, Inglês de Souza, Raul Bopp, Dalcídio Jurandir, Sílvio Meira, Bruno de Menezes, Márcio Souza, Jesuíno Ramos, Jorge Tufic, Alcides Werk, Sylvia Helena, Adrino Aragão, Gaitano Antonaccio, Nicodemos Sena e tantos outros têm novo companheiro. Santa Catarina bata com alegria no peito: ganhou um grande escritor brasileiro.

Escrito por Enéas Athanázio, 29/05/2017 às 15h59 | e.atha@terra.com.br

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ZYKLON B

Num gesto de admirável coragem editorial, a Companhia das Letras, capitaneada por Luís Schwarcz (S. Paulo – 2015) lançou em edição brasileira um livro que é odiado e vem sendo atacado em todo o mundo pelos neonazistas, simpatizantes e agregados. Trata-se de “Assim foi Ausschwitz”, de autoria de Primo Levi e com a colaboração de Leonardo De Benedetti, em tradução de Federico Carotti. O livro em seu conjunto se constitui numa verdadeira bomba, tão ou mais violenta que o Zyklon B, veneno destinado a exterminar ratos dos porões dos navios e outros espécimes animais indesejáveis que os carrascos dos campos de concentração usavam nas câmaras de gás onde asfixiavam judeus, velhos, doentes, aleijados, ciganos, soldados inimigos e outros condenados em sua gigantesca operação de limpeza étnica. Agora o formidável documentário está ao alcance do leitor brasileiro.

Nele se encontra o primeiro depoimento de um sobrevivente do Campo de Monowitz, pertencente ao complexo de Auschwitz, prestado ao Comando Russo, logo após a libertação dos prisioneiros com a chegada do exército soviético. O depoente era ninguém menos que Primo Levi (1919/1987), italiano de Turim, químico industrial e integrante da Resistência Italiana durante a II Guerra Mundial. Além de resistente, era judeu, ou seja, duas vezes marcado pelas sinistras SS. Tinha 24 anos de idade quando foi detido pela milícia fascista e entregue às forças alemãs de ocupação. Com um grupo de 650 prisioneiros, incluindo idosos, mulheres e crianças, foi enviado para Monowitz num trem cargueiro, com vagões destinados ao transporte de gado, sem água, alimentos ou agasalhos, viajando por seis dias até chegarem ao destino. Ao chegarem, foram divididos em dois grupos, o primeiro deles, bem menor, dos que estavam aptos para o trabalho escravo, e o outro, bem maior, foi conduzido direto para as câmaras de gás. Por estar em boas condições físicas, foi ele integrado ao primeiro grupo e graças a isso, por verdadeiro milagre, conseguiu sobreviver. Ficou preso durante quase um ano e foi um dos 11 sobreviventes de todo o numeroso grupo. Esquelético, faminto, desgrenhado, com as faces encovadas, trêmulo e claudicante, saiu da prisão como um trapo humano e necessitou de extraordinário esforço para se recuperar e reiniciar a vida.

O livro se abre com o relatório (depoimento) de Primo Levi e Leonardo De Benedetti redigido a pedido das forças soviéticas e publicado pela primeira vez na revista “Minerva Medica”, de Turim, em 1946, provocando intensa repercussão. Seguem-se outros depoimentos, inclusive os que foram prestados em processos movidos contra os nazistas, artigos publicados em livros e na imprensa, entrevistas, cartas e um sem número de documentos reunidos em apêndice. É um volumoso conjunto documental que revela todas as atrocidades praticadas por um império que pretendeu se elevar sobre milhões de cadáveres de inocentes e para isso arquitetou e montou uma verdadeira indústria da morte jamais vista na história da humanidade. Foi o império da mais extremada barbárie no coração da civilizada Europa.

O tratamento dispensado aos prisioneiros era brutal. Socos, pontapés, chutes, cacetadas. Alimentação miserável, acomodações apertadas, uniforme insuficiente para o frio reinante, sapatões do solado de madeira que feriam os pés. Trabalho braçal exaustivo, sem descanso ou pausa. Tudo, enfim, para destruir o ser humano por meio de um sofrimento atroz até a morte. À medida que as pessoas se debilitavam ocorriam as chamadas “seleções”, ou seja, a separação dos que eram enviados para a morte. Em seu uniforme impecável, com as botas reluzentes e um meio sorriso no rosto, o monstruoso Dr. Mengele, munido de um chicote, apontava para aquele que deveria morrer de imediato porque não servia mais para o trabalho. Decisão sumária e irrecorrível.

O livro semelha uma obra de literatura de terror, embora baseada em provas documentais e depoimentos concludentes. É de arrepiar. Deveria ser lido por todos os brasileiros, em especial pelos inocentes úteis que andam por aí a pregar ideias nazistas sem conhecer a história e as consequências delas. A leitura é ainda mais oportuna porque vivemos momentos de ódio, intolerância e xenofobia, não apenas no Brasil, mas também em outros países, como nos Estados Unidos, na França e na Holanda. Até a França, pátria da democracia, da liberdade, igualdade e fraternidade, berço de Montesquieu, o idealizador da tripartição dos poderes, dos pesos e contrapesos e da convivência pacífica dos contrários está assolada pelo obscurantismo. É desalentador. Fica a impressão de que o ser humano não aprende com as lições da história e insiste sempre em reincidir nos mesmos e trágicos erros.

Escrito por Enéas Athanázio, 22/05/2017 às 13h19 | e.atha@terra.com.br

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ET VIVE LA FRANCE!

O mundo deu um profundo suspiro de alívio diante da notícia da derrota de Marine Le Pen como candidata à presidência da República Francesa. A marcha da fascistização do mundo sofreu um duro revés. A França da democracia, berço de Montesquieu, genial idealizador da tripartição de poderes independentes e harmônicos entre si, terra da liberté. égalité e fraternité, de tantas e tão gloriosas conquistas humanitárias, revelou perceber a gravidade do momento e as consequências de um erro, como não enxergaram os enfatuados ingleses e o simplórios americanos. E assim, Emanuel Macron, aos 39 anos de idade, galga o poder para um governo conservador mas de viés democrático. Enquanto Le Pen, a chamada Trump de Saias, vai curtir o ostracismo com suas horrendas ideias, tão feias quanto ela própria.

País de extraordinária cultura, detentor de uma das melhores literaturas de todo o mundo, seus grandes expoentes hão de estar vibrando com a decisão dos compatriotas. Imagino o que diria Émile Zola, a exemplo do que fez no Caso Dreyfus, num momento de perigosa vacilação antissemita de alguns políticos franceses. E o vejo fustigando sem piedade os que comprometiam os ideais franceses de liberdade e pluralismo. Penso na alegria dos grandes juristas franceses cujas obras luminosas influenciaram o Direito mundial. Então, entôo com eles com intensa emoção:

Et vive la France!

Enquanto isso, por aqui as coisas fervem no reino da política, que deveria ser a arte nobre de gerir o povo e se transformou numa via crucis para o país. O governo-tampão de Michel Temer vem decepando sem dó e nem piedade as cabeças dos ocupantes de cargos indicados por deputados que votaram contra suas propostas de reformas. É a política do crê ou morre, deixando evidente o aparelhamento do governo em troca de votos, tão combatido em passado recente. A Lava Jato é o assunto nacional e há quem não durma, não coma e nem apareça por receio da próxima delação premiada. O suspense paira no ar empestado que respiramos a contragosto. Juízes se transformam em heróis, o japonês da federal é sagrado celebridade nacional e o país se tornou um estado policial com todas as semelhanças dos regimes nazistas e soviéticos. Qualquer um, na calada da noite, poderá ser acordado com brutais batidas na porta e ser conduzido de forma coercitiva para depor em local ignorado. Eu, que vi tantas arbitrariedades, jamais imaginei que teria que voltar a presenciar tudo isso. Infeliz do país que precisa de heróis, bradou outro francês ilustre.

Em compensação, há surpresas deveras impressionantes e que só não fazem rir porque são um esboço de tragédias mal escritas. Os Bornhausen, por exemplo, se tornaram socialistas desde crianças; Roberto Freyre, quem diria, se converteu ao neoliberalismo e até mesmo pratica o velho aparelhamento; Esperidião Amim votou contra as reformas, enquanto outro deputado da decantada “base” não compareceu. Parece que, no último momento, uma breve centelha brilhou em suas consciências e perceberam a monstruosidade que estava prestes a perpetrar contra o povo. Renan Calheiros, vejam só, se posiciona contra o governo e o critica com severidade inacreditável. Tucanistas fanáticos de ontem agora alinham FHC, Alckmin, Serra e Aécio como suspeitos e duvidosos. Nem a imaginação portentosa de um Simenon poderia arquitetar tal quadro. Mas uma maioria dócil e submissa, baixa a cabeça de maneira carneiral e, em palavras cândidas e melosas, procura justificar as atrocidades sem pensar por um momento nas consequências que recairão sobre milhões de miseráveis espalhados pelo país.
Tudo isso me choca e espanta e me lembra de uns versinhos caboclos muito ouvidos na infância:

“Tatu sobre em pau?
Mentira de vassuncê!
Tatu faz buraco,
isso sim pode sê!”

Confesso que nunca vi tatu subir em pau, mas, como diz o povo, na sua inata sabedoria, a gente morre e não vê tudo.

Escrito por Enéas Athanázio, 19/05/2017 às 09h44 | e.atha@terra.com.br

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