Texto da sempre ótima Claudia Lage sobre Saramago no Rascunho.
Acho que a gente percebe que está ficando velho quando começa a conseguir (e aceitar!) as coisas depois que desiste delas e quando gente mais nova que você está te encantando, fazendo a vida acontecer. Acabei de comprar Synchronoscopio, do Ismar Tirelli Neto. Na orelha da contracapa diz que ele “é carioca e nasceu no ano de 1985”. Um ano depois de mim. Que estranho. Que liberdade.
Mrs. Dalloway abriu as cortinas do quarto e viu sua filha esfarelando uma borboleta viva com as mãos.
Se ela já não sabia lidar com o vazio de sua própria vida, como poderia lidar com o vazio da vida de uma menina de três anos que não tem o que fazer durante as férias?
Por que aquele sadismo lhe pareceu encantador?
Mrs. Dalloway nunca leu Sade, mas tinha por ele todo o amor desse mundo.
Estranhas essas existências que só à sombra delas já nos faz um bem danado.
Só a sombra delas nos faz um bem danado.
Hoje eu fui até Ilhota passar a tarde na casa da Margarete Durval e ela deixou o mato do jardim crescer até o joelho. É muito mato, parece uma plantação. Então a gente sentou na varanda da casa e ficou olhando a rua, claro, com aquele oceano verde pálido à nossa frente, imóvel. Mas de repente um movimento ínfimo e preciso começou a vir da grade em nossa direção. Eu me senti no Jurassic Park 2, com os velociraptors chegando, sabe? E quando o “bicho” chegou perto da gente, parou o movimento. E fez o caminho de volta. Não vai dar para saber se era um rato, um gato, um trauma, uma história que não era para ser _______ (não me veio a palavra, porque ela não existe; não se encaixaria ali “contada”, por exemplo, porque acabei de contar; nem “finalizada”, por que em ___ linhas chegará ao fim; muito menos “entendida”, porque a vivência e o rumo deste texto - os parênteses, eu não esperava por esses parênteses quando vim narrar a história - se colidem com violência, com a força do nascimento de um universo. Eu quero dar para você, leitor, uma sensação, mas eu não tenho uma palavra. E nem poderia inventá-la porque me escapou a substância da sensação, selvagem ela).
... esses contos seus que foram vencedores de prêmios... os direitos autorais não ficam para as instituições criadoras dos prêmios? Como você conseguiu colocar eles no seu livro? Não deu problema?
Oi Enzo... quanto aos contos, não estou nem aí para instituições.
Eu amo TUDO o que Marcos Visnadi escreve, e eu nem faço idéia do que ele seja. Mas temos trocados e-mails e estou poluído de linguagens e sensações novas com o texto. Há anos alguém vivo não me prendia assim, por completo.
“então eu comecei a rir ela tirou a mão dela, porque fazia cócegas, e levou a minha até uns seios que eu não sabia se apertava ou esfregava e não é que fosse ruim, mas tem tanta coisa mais gostosa nesse mundo”
Ele escolhe uns temas que nunca vi gente escrevendo sobre. Li todo o quase resenha, todo o atlas atrás, acompanhando o saturnália.
"Desde então, sempre que cai um ano e nasce outro, na China há fogos de artifício e dragão que sai correndo, embarrigado pelas pernas de um bando de gente chinesa afoita festeira”
"um dos primeiros conselhos que o rilke dá no "cartas a um jovem poeta" é: escrever só se houver a necessidade de escrever. quando eu sou professor, acho isso uma merda por sacralizar a escrita e aí vira aquilo pra poucos iluminados. é a tradição moderna do escritor como "gênio" e não como "artesão"."
“até 800 d.C.
cidades maias enormes no que hoje é a guatemala
centenas de milhares de habitantes
que de repente abandonaram todas as terras
e se espalharam no meio das florestas.”
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