Fui dormir pensando que devo aprender a descrever melhor. Produzir mais narração e menos diálogo (tenho pavor daqueles contos que são travessão embaixo de travessão – sempre caio nisso; mas para isso existe teatro, pô!). Então acordei, depois de uns cinco sonhos em que eu estava acordando na minha cama procurando observar como eu acordava. A temperatura do meu corpo, o edredom usado mais como companhia ao meu lado esquerdo do que para me cobrir (mesmo nos dias mais frios eu tenho essa maldita propensão), a posição dos meus braços sempre emaranhando-se ao redor da minha cabeça (costume que ficou de uma criança que tinha medo de ver espíritos). Enfim, isso é um bom exercício. Lá vou eu!
Eta livro bom! Mesmo sabendo que esse é um livro de férias, porque a Virginia escrevia “livros que descansam de outros livros”, e Flush descansa do seu livro mais difícil, As Ondas.
As qualidades deste livro passam tão longe de orelhas, contracapas, até mesmo de resenhas. É a história de um cão, é uma história quase real, inspirada nas cartas de amor entre uma poetisa e um poeta famosos do séc XIX. Nessas cartas, Woolf observou que a poetisa Elizabeth Barrett sempre citava a presença do cocker spaniel que ganhou de presente de uma amiga do campo (ou seja: o cachorro conheceu a vida livre no começo da sua filhotice), e como a poetisa tinha sérios problemas de saúde e mal saía do quarto, a vida que a Woolf deu ao cachorro é tão altruísta, é como se ele fosse colocado nas trevas com a obrigação de amar uma pessoa. E ele acaba amando. E não há porque sair de lá.
Na vida, eu jogo coisas do passado no presente; na escrita, eu jogo coisas do presente no passado. (com poesia eu nunca fiz isso, mas com prosa é mecanismo básico)
...não parece um pônei?
Não simpatizo com aquele skoob. Acho tão fútil, tão quarta-série (“olha o livro que eu to lendo!”, “eu já li mais livros que você!”). As discussões são mais superficiais que meu pai, ou minha mãe, interrompendo palestrante de centro espírita - os dois têm esse ponto em comum: adoram erguer o braço na platéia e dizer que a vida depois da morte não é assim não!
Numa sala de oitava série, minha professora de Filosofia falou sobre um reino muito distante, onde um rei chamou um escravo e disse: “Eu te dou duas opções: continuar escravo até o último dia da sua vida ou A Porta Negra. O que você prefere?” Mesmo apavorado com o que iria encontrar, o escravo optou pela Porta Negra. Caminhou até ela e abriu. Era a liberdade.
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