Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Alfaiate, uma Crônica Costurada com Afeto

Com o avanço da indústria da confecção, com suas roupas e vestes prontas para levar, estão desaparecendo as costureiras, essas mulheres guerreiras do trabalho sem parar em seus ateliês domésticos, mãos na panela para o almoço de cada dia e na máquina de costura, que já não é mais a antiga Singer, para vestir a elegância das mulheres da sua rua.

Essa nova onda industrial está acabando, também, com o alfaiate, palavra de origem árabe que incorporamos ao dicionário português para designar esse estilista da indumentária masculina, que os franceses chamam de tailler, os ingleses de tailor e os alemães de schneider..

Desde criança, sempre tive curiosidade para observar o trabalho dos poucos alfaiates tijucanos, esses profissionais do tecido, a pedalar a máquina de costura, cabeça baixa, olhos atentos, mãos firmes junto ao vai-e-vem incessante da agulha para a costura definitiva das peças do quebra-cabeça cortadas uma a uma, na transformação do pano em vestes da elegância masculina.

Máquina parada, alfaiate em pé, junto à mesa, fita métrica pendurada no pescoço, tecido estendido, traços a giz, retas e curvas sobre o pano riscado para o corte sem retorno da tesoura manejada por mãos de mestre. Depois, o ritual dos alinhavos, pespontos, provas e a costura definitiva dos paletós, coletes e calças.

Indiscutivelmente, o alfaiate marcou a vida econômica, política e cultural brasileira. As alfaiatarias sempre foram um local de reunião da elite da cidade, onde políticos, médicos, juristas, jornalistas, inteletuais, enfim, gente da burguesia e classe média deste país se encontrava para discutir as grandes questões nacionais e propor soluções de salão, como fazemos hoje sentados à mesa de uma cafeteria ou mandando e compartilhando mensagens pelo Face ou pelo WhatsApp.

Basta lembrar da esquecida Conjuração Baiana, movimento rebelde que eclodiu em agosto de 1798. Inspirada nos ideais republicanos, tinha como objetivo lutar pela emancipação política da então Colônia brasileira, do domínio português. Dois de seus principais líderes - Manuel Faustino dos Santos Lira e João de Deus do Nascimento - eram profissionais da costura masculina. Muitas reuniões para discutir as razões, objetivos e ações do movimento separatista devem ter sido realizadas em suas alfaiatarias, entre tecidos, alinhavos e fios. Porisso, o movimento separatista ficou mais conhecido como a Revolta dos Alfaiates.

A rebelião foi desmantelada e os conjurados foram presos. Os líderes pertencentes à elite intelectual e econômica baiana foram condenados à prisão ou ao degredo. No entanto, os dois alfaiates e um soldado acabaram enforcados, lutando pela liberdade para a pátria brasileira. Tem sido assim. A glória e a vitória das lutas pelas conquistas sociais e políticas são sempre atribuídos à elite, enquanto que os mais humildes acabam pagando com a vida o preço da liberdade.

Aos alfaiates, dedico esta crônica, alinhavada com carinho e costurada com o fio da admiração.
 

Escrito por João José Leal, 05/04/2017 às 15h03 | jjoseleal@gmail.com

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