Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Cabeças Decepadas

As chacinas ocorridas em alguns presídios brasileiros, verdadeiras cenas de terror e perversidade sem limites, barbárie real superando a realidade mais cruel, mostram bem o grau de degradação a que chegou o nosso sistema penitenciário. Infelizmente, evidenciam também, os males e contradições de nossa sociedade. Aqui fora, longe, muito longe do silencioso mundo penitenciário, macabro amontoado de mais de 600 mil encarcerados, vi e ouvi manifestações de aplauso a essas mortes da maldade sem piedade e sem razão.

São vozes que repetem a perigosa ladainha de que “bandido bom, é bandido morto”, não importando de onde sai o golpe fatal ou a bala assassina. Acreditam que quem está na prisão é mau, tem que pagar o preço do seu crime, tem ficar encarcerado no fundo de uma cela sem o mínimo de assistência material e de respeito à dignidade humana. Afinal, quem comete um crime escolhe livremente o caminho da exclusão social e merece o castigo previsto na lei.

Para essas vozes da repressão fundamentalista, quanto mais rigor, melhor. Não importa se essa prática punitiva transformou nosso sistema penitenciário numa realidade perversa, num ambiente de terrível selvageria e violência, com seus presídios superlotados, com seus presos amontoados em celas imundas, insalubres, sem alimentação, sem banheiro e sem camas para dormir. Num espaço de sufocante concentração humana de gente sem trabalho, asfixiada pela ociosidade de não ter o que fazer e nem aonde ir.

Não importa que nossos presídios tenham se transformado em antros intocáveis de poderosas organizações criminosas, que estabelecem as regras cruéis da vida penitenciária para dominar o tráfico e a violência extra-muros e funcionar como matrizes realimentadoras das celas sempre lotadas do sistema penal.

Todos nós queremos viver em segurança, direito legítimo e assegurado pela Constituição. Nesse ponto, a prisão ainda é uma pena necessária, legítima e de aplicação excepcional para se punir o criminoso. No entanto, é uma ilusão imaginar que podemos viver numa sociedade mais segura e tranqüila, enquanto o Estado não conseguir garantir a integridade, a vida e os direitos mínimos do presidiário. Não podemos ter ilusão. Se o Estado não consegue manter o mínimo de segurança no interior das nossas prisões, muito menos terá condições de nos garantir a segurança que todos queremos aqui fora.

Na verdade, enquanto quadrilhas organizadas ditarem a lei nas prisões, eliminando vidas, promovendo rebeliões e guerras fratricidas, o terror vai continuar imperando em nosso sistema penitenciário. A barbárie vai prosseguir, encenando a tragédia das mortes do cárcere sem lei, sem ordem e sem compaixão. Assim, ilude-se quem imagina que as cabeças decepadas dos que foram presos em nome da lei penal garantirão a paz que todos nós queremos.

Escrito por João José Leal, 18/01/2017 às 17h27 | jjoseleal@gmail.com

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