Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Novidades dos Tempos de Criança

Não sei por que, mas quando chega o Natal fico a lembrar dos meus tempos de criança em Tijuquinhas, pequena localidade, tão próxima de Florianópolis que se podia enxergar a silhueta da cidade desenhada por cima da linha do mar. Perto, mas tão isolada e distante do progresso da capital, onde tinha luz elétrica, hospital e farmácia, escolas que ensinavam professores e doutores, ruas cheias de casas, gente bonita, bem vestida, ostentando riqueza e parecendo vender felicidade. Lá, moravam o progresso, as novidades, manufaturas douradas e fantásticas, badulaques que causavam espanto na gente simples da vida rural e interiorana.

Lembro-me que, a cada mês, meu pai viajava a Florianópolis para comprar mercadorias para o nosso pequeno armazém. O ônibus voltava à noite e a família, cheia de curiosidade, se reunia para escutar as notícias da capital, que se limitavam a breves comentários sobre o movimento do Mercado Público, uma espécie de Ceasa daquela época e a “multidão” caminhando nas proximidades da Praça XV. Não podiam faltar notícias sobre a família da irmã de meu pai, casada e que tivera o privilégio de morar na capital.

Minha curiosidade infantil não se contentava com notícias. Igual aos nossos índios do passado, na maior ansiedade, ficava esperando pelos pequenos e simples presentes, novidades vindas da ilha da fantasia. Lembro-me de um canarinho de baquelite, que mais parecia um cachimbo, com um pequeno depósito d’água na parte inferior e uma biqueira para ser soprada e produzir um som estridente. E de um par de cachorrinhos com imã na base, que se chocavam, quando colocados um em frente ao outro.

Não esqueço, também, de um minúsculo monóculo, com a foto colorida de uma bela princesa em meio a flores e passarinhos. Pobres regalos, feitiços vindos da capital, que meu pai exibia como troféus misteriosos aos olhos de uma criança que enxergava o mundo do tamanho do quintal de sua casa da pequena e isolada Tijuquinhas.

Hoje, não precisamos sair de casa, muito menos viajar para conhecer os milagres, sempre renovados, da fantástica indústria eletrônica ou as novidades da velha atividade manufatureira e artesanal. Basta ficar em frente da TV ou da internet e viajamos pelo Planeta Terra, enchendo nossa retina de mensagens sobre o mundo novo recriado a cada momento.

Vivemos plugados, antenados, celularizados, conectados. Agora, a novidade já não vem mais envolta numa nuvem de surpresa, de mistério e de fantasia, pois nos chega, antes, revelada por essa infinita teia do mundo virtual.
 

Escrito por João José Leal, 12/12/2016 às 17h50 | jjoseleal@gmail.com

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A tragédia da Chapecoense

Com seu nome de origem indígena, a próspera Chapecó, a conhecida capital da agroindústria catarinense, viveu a grande tragédia de sua história.

Ocorreu longe, bem distante da casa de cada um, nas barrancas da cordilheira andina.

Mas, aterrorizadora e angustiante porque a morte não respeita distância nem fronteiras na sua implacável função de levar a dor e o sofrimento aonde quer que se encontre um coração enlutado pela perda do filho, do pai, da esposa, do irmão ou de um amigo.

Mesmo longe, acontecida em meio às trevas, à chuva e nas alturas andinas, a notícia do desastre aéreo voou célere, mais rápida que avião, nas ondas da mídia eletrônica e das redes sociais. Logo, chegou às terras que um dia pertenceram à tribo do Índio Condá para enlutar toda uma comunidade e atingir a nação brasileira mergulhada nas trevas de uma grave crise que, agora, começa a mostrar toda a sua força, todas as suas dolorosas conseqüências.

E, assim, na semana passada, os meios de comunicação não falaram mais da polêmica eleição de Donald Trump, da morte de Fidel nem da situação econômica e política nacional. Tragédia, catástrofe, fatalidade, desastre, dor e sofrimento foram as palavras mais pronunciadas, escritas e escutadas, num discurso uníssono e repetitivo focado no acidente aéreo ocorrido nas cercanias da longínqua e bela Medellin, a cidade que um dia já esteve nas mãos do mais perverso traficante e que se transformou na cidade da solidariedade e fraternidade .

Nunca, antes, na história do esporte mundial, havia ocorrido desastre dessa dimensão em vidas humanas. A imprudência criminosa de um piloto acabou com o sonho da Chapecoense, uma equipe do interior deste país que havia demonstrado, no embate de cada disputa e de cada vitória, ser capaz de chegar ao topo do futebol sulamericano e lançar mão da cobiçada taça, feito só alcançado pelos grandes e tradicionais clubes do futebol deste nosso pobre continente da banda oriental das Américas.

A gloriosa trajetória da Chapecoense foi para sempre interrompida, levada nas asas de uma tragédia aérea que ceifou a vida de 71 pessoas, jornalistas, dirigentes desportivos e, praticamente, toda a equipe do clube que levou nome da cidade para o Brasil e, agora, para mundo.

O sonho acabou sem a disputa final, em gramados do embate desportivo. Mas, a Chapecoense não terminou derrotada. Pela bondade solidária dos hermanos de Medellin, foi ela simbólica e fraternalmente reconhecida como a grande campeã do certame. Respaldando o belo exemplo de solidariedade, a Conmebol concedeu-lhe o título de campeã da Copa Sulamericana de 2016. Um título marcado pela tragédia, que custou dezenas de vidas para ficar gravado na história do futebol mundial.
 

Escrito por João José Leal, 06/12/2016 às 11h58 | jjoseleal@gmail.com

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A Morte de Fidel Castro

Nos meus tempos de Universidade, havia um sentimento generalizado de admiração e simpatia por Fidel Castro, Che Guevara e pelos jovens soldados cubanos da liberdade e da fraternidade, farda verde-oliva, bonés e boinas na cabeça, quase todos barbudos, cabelos despenteados, muitos fumando charuto a propagandear o vício do tabagismo, num tempo de juventude rebelde. Haviam descido da Sierra Maestra, fuzis nas mãos, para libertar o povo cubano da ditadura de Fulgêncio Batista. Chegaram ao poder, em 1959, com a promessa solene de estabelecer um governo democrático, de independência e de liberdade para o seu povo. Quem poderia ser contra?

Anos antes, Fidel teria pronunciado na prisão a célebre frase, “A História vai me julgar e me absolverá”. Para a militância dos que ainda teimam em se rotular de esquerda, a veneração continua forte. Adeptos do culto à personalidade, enxergam a realidade pelo filtro dialético da ideologia marxista-leninista, baseada idéia de que os fins justificam os meios, de que tudo é válido e bom quando feito em nome do Estado, do Partido e do governo revolucionário. Para eles, o regime castrista transformou Cuba num paraíso, num exemplo de modelo educacional e saúde para o povo. E assim, absolverão o líder da Revolução de 26 Julho para colocá-lo, no panteão da história, como uma das grandes lideranças da política latinoamericana.

Esquecem ou não enxergam a realidade existente para além da propaganda oficial e da crença ideológica. Ignoram que Fidel derrubou uma ditadura para se tornar, ele próprio, um ditador por quase 60 anos e instaurar um regime de opressão responsável por milhares de condenações em tribunais de exceção, por execuções sumárias e prisões políticas dos considerados “inimigos do Estado”, muitos deles ex-companheiros da luta guerrilheira. No plano econômico, o regime castrista tem sido um fracasso, que tem sobrevivido graças à ajuda da antiga União Soviética, do camarada Hugo Chaves e do turismo europeu.

Com sua morte, Fidel Castro sai da cena política sem cumprir suas promessas revolucionárias de democracia, de liberdade e de bem estar para seu povo. Economicamente, Cuba está mais pobre. Agora, ironia dos tempos, o processo de recuperação econômica parece depender do comércio com o imperialismo norteamericano, tão execrado pelo comandante supremo. Desfile de modas da Chanel e show dos Rolling Stones, coisas da burguesia capitalista e decadente, já aconteceram na envelhecida Havana.

O veredicto da História, dificilmente, conhece a unanimidade. Assim, muitos cubanos chorarão a perda do seu líder. No entanto, muitos outros continuarão chorando, sim, a memória dos milhares de cubanos, executados sumariamente pelo regime comandado por Fidel Castro, enorme preço pago em vidas e liberdade para tudo recomeçar com 60 anos de atraso. 

Escrito por João José Leal, 29/11/2016 às 12h56 | jjoseleal@gmail.com

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Saramago e o Convento de Sofrimentos

Para quem gosta de ler e quiser enfrentar o desafio de encarar um romance de José Saramago, penso que não vai se arrepender. Falecido em 2010, foi o único autor da Língua Portuguesa a receber, com justiça, o prêmio Nobel Literatura.

É verdade que, brasileiros como Érico Veríssimo, Jorge Amado ou Guimarães Rosa, bem que mereciam essa distinção, passaporte para a fama e o sucesso literário garantido. Mas, os críticos da comissão julgadora lá da Escandinávia, sempre à procura de escritores de estilo inovador ou complicado, preferiram oferecer o milionário premio ao lusitano José Saramago, que entrou na Suécia pobre, com poucos euros no bolso e saiu de Estocolmo com um cheque de milhão de dólares na carteira.

O mais importante, no entanto, foi se transformar numa estrela da literatura internacional, com garantia de vender milhões de exemplares de suas obras.

Rápido, sua obra literária cruzou as pobres fronteiras da língua portuguesa para ser traduzida e lida por leitores do mundo inteiro. E Saramago passou a marcar presença nos mais importantes eventos literários mundiais. Cumpriu esses compromissos sempre com o azedo humor do seu temperamento.

Numa de suas andanças, convidado ao Brasil, daqui saiu falando cobras e lagartos por ter se sentido mal atendido por funcionários do aeroporto. De Portugal, exilou-se na Espanha até o final de sua vida, contrariado com as autoridades portuguesas, que não reconheciam, segundo sua opinião, o valor de suas obras.

Assim, a meu ver, foi José Saramago, a pessoa, com suas chatices e irritações que ele próprio nunca fez questão de esconder. E, ao mesmo tempo, um dos maiores escritores da última Flor do Lácio, nossa querida Língua Portuguesa. No entanto, é preciso saber que sua prosa não é fácil. Antes do seu prêmio Nobel, comecei a ler o romance Jangada de Pedra e parei após a leitura de uma dezena de páginas. Mais tarde, insisti na leitura deste romance e compreendi o seu grande valor literário.

É verdade que o autor usa imensos períodos e frases sem ponto, marcados apenas por vírgulas. Criou um estilo próprio para narrar suas histórias portuguesas, onde o real e o imaginário ou o realismo fantástico - sempre pontuados por uma fina ironia a respeito das coisas de Portugal - se entrelaçam de forma admirável.

Li boa parte de sua obra, feita de excelentes romances. Destaco, neste curto espaço, Memorial do Convento. Com sua brilhante pena e seu estilo cheio de provocantes meandros, Saramago narra história do trabalho desumano de portugueses quase escravos, gente miserável, gente sem nome e nada, os coisa-nenhuma de uma sociedade opressora, recrutados para construir o Palácio de Mafra, promessa do rei João V à poderosa Igreja Católica, em agradecimento pela gravidez de sua fervorosa rainha.

Em meio a tanto sofrimento e miséria humana para edificar a glória lusitana, o fio da narrativa se prende às figuras misteriosas da humilde e mediúnica Blimunda Sete-Luas, que seu companheiro Baltasar Sete-Sóis, sem crime e sem culpa, findar seus dias de agonia, nas chamas da intolerância religiosa e da ignorância inquisitorial.
 

Escrito por João José Leal, 22/11/2016 às 07h41 | jjoseleal@gmail.com

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Velho Chico e Lava Jato

Não sei se, intencional ou mera coincidência, a novela Velho Chico terminou na véspera das eleições municipais, focalizando a vitória da candidata a prefeita, que havia feito campanha pregando o fim da corrupção na administração pública da imaginária Grotas do São Francisco, pequena comunidade do sertão nordestino. Foi uma das melhores novelas da Globo, que se destaca na produção de séries e folhetins de excelente qualidade técnica e artística. A novela realmente agradou por sua ótima trilha sonora, bela fotografia e seu texto preocupado com a preservação ambiental, com o drama familiar e com a vida política de uma pobre cidade explorada por um coronel latifundiário e por governantes corruptos.

Foi bonito ver, a cada noite, o desfile das belas imagens do Rio São Francisco, com os capítulos acontecendo para formar um álbum fotográfico de rara beleza.

A cada noite, podia-se contemplar a fachada iluminada do imponente casarão dos tempos coloniais, refletindo nas águas mansas, os desfiladeiros, as curvas e os meandros cheios de mistério do rio correndo lentamente, como a marcar o ritmo da vida da fazenda da família Saruê e da pequena cidade de Grotas, com sua população encabrestada, alienada, assistindo à disputa entre um coronel latifundiário e a família rival do agricultor Santo dos Anjos, seguidor da saga Capitão Ernesto Rosa, guerreiros de uma cruzada por uma sociedade mais justa e humana.

Merece ser destacado o apelo ecológico da novela, em favor da preservação das águas do São Francisco, um dia já conhecido como “o rio da integração nacional”, com suas gaiolas então navegando de Minas até suas águas se lançarem ao Atlântico.

O folhetim de cada noite de muitos brasileiros sentados em frente à TV desempenhou muito bem, por meio de seus atores e da sofisticada técnica televisa, um importante papel ambiental. Foi uma lição sobre o grave problema da seca do São Francisco, carinhosamente, chamado de Velho Chico, hoje, um rio envelhecido, ressequido, assoreado, até ressentido pelos maus tratos causados pela insensatez humana.

O final foi emocionante. Cheio de sonhos, maravilhas e utopias enfim realizadas. Como sempre acontece nas novelas, que existem para que as pessoas se emocionem em frente à tela mágica, o último capítulo foi um desfile completo de romances, desejos e projetos realizados. Casamento proibido, chegando aos pés do altar; eleição da candidata do bem, triunfando sobre as forças políticas da corrupção; agricultura sustentável, em cima de terras áridas; ressureição surrealista do ator morto nas águas do São Francisco, tudo isso aconteceu no grande final da novela Velho Chico.

E, ainda, vida real adentrando o palco da ficção novelística, a transformação ética do personagem principal, o grande vilão da história, Coronel Saruê, arrependido de seu passado de crimes e de maldades, que se apresentou ao Ministério Público para colaborar com a justiça criminal. E, então, a Polícia Federal entra em ação para prender prefeito, vereadores e secretários, com a Lava-Jato nordestina acabando com a impunidade de políticos corruptos, levando a esperança ao povo de Grotas do São Francisco. 

Escrito por João José Leal, 10/10/2016 às 08h51 | jjoseleal@gmail.com

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O Comandante Máximo

Mesmo diante das provas e evidências das infrações penais que lhe estão sendo imputadas, o agora denunciado Lula da Silva reagiu como se fosse um injustiçado político, quando se sabe que as ações que praticou (corrupção, improbidade, lavagem de dinheiro) são crimes comuns, desses que levam milhares de brasileiros ao banco dos réus e que se defendem com as armas da lei, sem gritar que são perseguidos da justiça.

Arvorando-se em paladino da honestidade, convocou a militância petista, esse batalhão de ferrenhos apedrejadores dos pecados dos outros, mas apaixonados defensores da irresponsabilidade política e da improbidade administrativa dos seus companheiros, para se postar à frente de dezenas de microfones e câmeras e encenar a sua a demagógica e teatral defesa.

E, então, embalado nos aplausos da companheirada, Lula, ator e personagem talhado nos palanques das portas das montadoras e dos comícios petistas, ali encenou a sua própria tragicomédia sindical, política e, agora, também, policial. Relembrou seu papel de líder metalúrgico do passado, quando lutou pela melhoria salarial e das condições de trabalho dos companheiros operários do ABC.

Num segundo ato, apresentou-se Lulinha, o bonzinho, o coitado, perseguido, incompreendido, o cidadão cheio de honestidade para dar e vender, vítima da justiça criminal e das grandes elites deste país, que um dia, por 8 anos, esteve em suas mãos de primeiro mandatário, para nos legar uma nação economicamente desgraçada, politicamente dividida e sem rumo. Foi o momento do choro, das lágrimas, estas, talvez de remorso pelos malfeitos praticados e jamais confessados, especialmente, as disfarçadas aquisições do triplex e do sítio de Ibiúna, foco da denúncia.

No terceiro ato, naquele palco da ribalta petista, iluminado pelas luzes da ideologia populista e dos devaneios políticos, vimos falar Lula, o carismático líder, que se diz o grande presidente que jamais existiu neste país e que, cheio de si, o personagem arrogante que se imagina acima das instituições. E, então, passou a desqualificar os seus acusadores, os Procuradores da República que, diante dos indícios, evidências e provas dos fatos delituosos por ele praticados, apresentaram a denúncia com fundamento na lei penal e em cumprimento do dever funcional.

Pelo voto popular, Lula teve um suas mãos a presidência da República. Por sua mediocridade política, sua incompetência administrativa e  ambição de poder, não soube aproveitar a grande oportunidade de se tornar um verdadeiro líder nacional. Agora, “comandante máximo de organização criminosa”, virou caso de polícia. Suas ações cheiram a fraudes e corrupção.

Porisso, como cidadão comum, igual a milhares de outros infratores da lei penal, sem imunidade de foro e sem ameaças de incendiar a nação, precisa ajustar contas com a justiça criminal. Certamente não irá a pé provar sua inocência, conforme prometeu, debochando da justiça e do povo brasileiro. Mas, sim, em automóvel, com motorista e seguranças pagos com o dinheiro do tesouro nacional. 

Escrito por João José Leal, 27/09/2016 às 11h47 | jjoseleal@gmail.com

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