Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Carnaval, Cinzas e Fraternidade

Terminou o carnaval e, também, o período de férias. Mesmo os que preferiram a tranquilidade do quintal doméstico, certamente, não ficaram alheios à folia geral que tomou conta das ruas, praças e passarelas de muitas cidades deste país do samba e do futebol nos pés, mas de pouca coisa na cabeça.

Na tela mágica, cintilando em nossas salas e quartos, as impressionantes imagens de corpos em movimento, multidões de foliões contados aos milhões, mar de fantasia e ilusão a dançar e a cantar freneticamente nos quatro dias de euforia alucinante.

Não se pode generalizar e dizer que assim é a alma brasileira. Mas, é certo que grande parte dos brasileiros carrega a paixão carnavalesca em suas entranhas. Essa gente de samba nos pés escuta o bater dos tamborins, o som dos clarins e da cuíca e, crisálida da loucura momesca, se transforma nessa borboleta humana chamada folião. Sem hesitar, larga tudo, deixa a realidade atrás da porta, tira a fantasia do armário e corre a atender ao chamado das ruas, para mergulhar na fantástica festa do carnaval.

É curioso. Até quarta-feira, Brasil em festa, povo nas ruas, muita dança, muita música e bebedeira geral, curto tempo de euforia e ilusão efêmera que ignora crises, desemprego, violência e insegurança. Clarins e tambores silenciados, pés recolhidos para o repouso anual, enterradas euforia e fantasia, a tradição cristã celebrou o ritual da quarta-feira das cinzas. É o momento litúrgico em que a Igreja Católica marca seus fiéis com cinzas sobre a cabeça, simbolismo para lembrá-los da inevitável condição de mortalidade do ser humano.

Sim, precisamos buscar a felicidade, viver o prazer e a alegria da vida. Mas, não podemos esquecer das nossas limitações. das misérias, das tristezas próprias da condição humana. Devemos lembrar, também, que a morte é condição humana da qual não atalharemos e que, um dia, virá para nos devolver à Terra-Mãe e a todos nos igualar.

Seguindo a tradição, já de muitos anos, na quarta feira de cinzas, a Igreja Católica lança a Campanha da Fraternidade de 2017. O tema deste ano - “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida" - é oportuno e de grande relevância. Penso que nenhum brasileiro, independentemente de credo religioso ou político, pode ficar alheio ao chamado ecumênico contido no texto elaborado pelos bispos brasileiros.

Afinal, precisamos nos engajar na cruzada ambiental da "nova ecologia", e lutar pela preservação dos biomas brasileiros, da Amazônia aos Pampas, do Cerrado aos Manguezais. Só assim, estaremos preservando um ambiente saudável para garantir a vida das futuras gerações.
 

Escrito por João José Leal, 03/03/2017 às 07h19 | jjoseleal@gmail.com

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O Homem que Quis ser o Mais Rico do Mundo

Eike Batista estava vivendo seu tempo de glória. Em dezembro 2007, fez o batismo do Fleet Pink, seu iate de 85 milhões de reais, 35 metros de puro luxo, coisa nunca vista neste país. Na festa das mil e uma noites cariocas, com direito a shows de artistas e apresentadores de TV famosos, estava o então governador Sérgio Cabral, hoje preso por corrupção, o prefeito eleito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes e muitos outros convidados do mundo dos negócios sem patente política.

Naquela época, a propaganda oficial petista anunciava que a nação já colhia os frutos do crescimento acelerado promovido por um governo a serviço da classe trabalhadora. E Eike Batista, proprietário do império batizado de EBX, surgia no mundo dos negócios como o empresário mais poderoso deste país. Esperto, arrojado e ambicioso como poucos, havia se convertido em companheiro privilegiado de Lula da Silva. No Rio de Janeiro, mais que companheiro, era amigo do peito do governador Sérgio Cabral, o político boa-vida, dos diamantes, das jóias milionárias, dos hotéis e restaurantes de luxo das noites parisienses.

Assim, foi fácil obter empréstimos bilionários junto ao BNDES e vencer intrincados processos licitatórios para obras do PAC, esse plano que acabou acelerando a triste caminhada da nação para a crise que estamos vivendo. Com amigos tão poderosos e a formidável ajuda governamental, Eike Batista viu seu patrimônio empresarial saltar de, 6,6 bilhões de dólares, em 2008, para a fabulosa marca de 34,5 bilhões. Em 2012, já era considerado o oitavo homem mais rico do mundo.

No entanto, não estava satisfeito. Queria chegar ao topo desse campeonato da riqueza acumulada, medida em dólares. Mandou um recado para o mexicano Carlos Slimm, então o mais rico do planeta, dizendo que iria tirá-lo do trono. E assim, o Grande Eike passou a ser referência nacional para investimentos no mundo dos negócios. Entusiasmada, a presidente Dilma esqueceu sua antiga militância anti-capitalista de guerrilheira para dizer, em tom professoral, que “O Eike é nosso padrão e orgulho do Brasil”.

A derrocada chegou cedo e muito rápido. Investigações criminais revelaram que seu império empresarial, financiado por dinheiro público, havia sido construído, em grande parte, mediante fraudes e atos de corrupção. Hoje, Eike Batista, o homem que um dia, não muito distante no tempo, quis ser o mais rico do mundo, está falido. Pior, ainda. Está na prisão, fazendo companhia ao seu amigo Sérgio Cabral.

Certamente, alguma coisa mudou na justiça criminal deste país.
 

Escrito por João José Leal, 31/01/2017 às 12h05 | jjoseleal@gmail.com

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Cabeças Decepadas

As chacinas ocorridas em alguns presídios brasileiros, verdadeiras cenas de terror e perversidade sem limites, barbárie real superando a realidade mais cruel, mostram bem o grau de degradação a que chegou o nosso sistema penitenciário. Infelizmente, evidenciam também, os males e contradições de nossa sociedade. Aqui fora, longe, muito longe do silencioso mundo penitenciário, macabro amontoado de mais de 600 mil encarcerados, vi e ouvi manifestações de aplauso a essas mortes da maldade sem piedade e sem razão.

São vozes que repetem a perigosa ladainha de que “bandido bom, é bandido morto”, não importando de onde sai o golpe fatal ou a bala assassina. Acreditam que quem está na prisão é mau, tem que pagar o preço do seu crime, tem ficar encarcerado no fundo de uma cela sem o mínimo de assistência material e de respeito à dignidade humana. Afinal, quem comete um crime escolhe livremente o caminho da exclusão social e merece o castigo previsto na lei.

Para essas vozes da repressão fundamentalista, quanto mais rigor, melhor. Não importa se essa prática punitiva transformou nosso sistema penitenciário numa realidade perversa, num ambiente de terrível selvageria e violência, com seus presídios superlotados, com seus presos amontoados em celas imundas, insalubres, sem alimentação, sem banheiro e sem camas para dormir. Num espaço de sufocante concentração humana de gente sem trabalho, asfixiada pela ociosidade de não ter o que fazer e nem aonde ir.

Não importa que nossos presídios tenham se transformado em antros intocáveis de poderosas organizações criminosas, que estabelecem as regras cruéis da vida penitenciária para dominar o tráfico e a violência extra-muros e funcionar como matrizes realimentadoras das celas sempre lotadas do sistema penal.

Todos nós queremos viver em segurança, direito legítimo e assegurado pela Constituição. Nesse ponto, a prisão ainda é uma pena necessária, legítima e de aplicação excepcional para se punir o criminoso. No entanto, é uma ilusão imaginar que podemos viver numa sociedade mais segura e tranqüila, enquanto o Estado não conseguir garantir a integridade, a vida e os direitos mínimos do presidiário. Não podemos ter ilusão. Se o Estado não consegue manter o mínimo de segurança no interior das nossas prisões, muito menos terá condições de nos garantir a segurança que todos queremos aqui fora.

Na verdade, enquanto quadrilhas organizadas ditarem a lei nas prisões, eliminando vidas, promovendo rebeliões e guerras fratricidas, o terror vai continuar imperando em nosso sistema penitenciário. A barbárie vai prosseguir, encenando a tragédia das mortes do cárcere sem lei, sem ordem e sem compaixão. Assim, ilude-se quem imagina que as cabeças decepadas dos que foram presos em nome da lei penal garantirão a paz que todos nós queremos.

Escrito por João José Leal, 18/01/2017 às 17h27 | jjoseleal@gmail.com

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Dragão Armado

Estava caminhando na praia de Balneário Camboriú e me deparei com uma cena preocupante. Quinze jovens, não sei se algum adolescente, todos em pé, mãos para trás, trajando bermuda ou calção e camiseta, enfileirados, um ao lado do outro. Não estavam fazendo exercícios físicos nem de contemplação esotérica. Estavam, sim, sob a mira de dois fuzis, sendo revistados por mais dois guardas municipais, esses que vemos fardados e empertigados, armados e cheios de aparelhos ciborguianos, a desfilar pelas calçadas desta cidade balneária.

Não vi o começo da operação, ocorrida próxima das 10h da manhã, de sexta feira. Assim, não sei qual foi o critério utilizado para selecionar, dentre tantos veranistas que já se encontravam na praia, as pessoas selecionadas para a revista feita de forma tão ostensiva. Também não fiquei para ver o que aconteceu ao final. Não sei se alguém foi preso e se a draconiana operação teve algum sucesso em termos de prevenção da delinquência, se é que esta era o objetivo da acintosa ação policialesca.

Parece que a guarda municipal armada vem agindo dessa forma, com certa frequência. Ao menos, já assisti duas vezes a essa mesma cena, em menos de um mês. E só caminho na praia aos finais de semana.

Não há dúvida de que todos querem viver em paz. De forma expressa, diz a Constituição Federal que a segurança coletiva é dever do Estado e direito de todos. Aliás, ninguém desconhece que a segurança está entre as prioridades reivindicadas pela maioria dos brasileiros. Em consequência, se queremos viver em segurança, temos que apoiar qualquer ação policial. Mas, sempre que necessária, razoável e realizada em conformidade com a lei.

A meu ver, as operações realizadas na praia, em meio aos banhistas, pela Guarda Municipal Armada de BCamboriú, não são necessárias nem eficientes para prender criminosos. Com certeza, ali não estão os bandidos da cidade. Ao ser executada com o uso de fuzis, ostensivamente apontados e engatilhados, a ação policialesca se torna chocante e assustadora porque realizada em local de entretenimento, em meio a milhares de famílias reunidas com suas crianças, numa atividade de puro lazer.

A ação da Guarda é, desnecessária, também, porque indiscutivelmente perigosa. No caso de tentativa fuga de um desses "selecionados" para revista, é razoável prever que o guarda armado dispare o fuzil, em meio aos banhistas. E não é absurdo prever que, por erro, algum veranista se transforme em vítima desse tipo de ação policial.

Está aí uma questão que não pode ser ignorada pela nova administração municipal.

O Dragão precisa ser controlado!

Escrito por João José Leal, 11/01/2017 às 14h45 | jjoseleal@gmail.com

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Ano Novo, Feliz 2017

Já estamos vivendo os primeiros dias de um Novo Ano. O que passou, ninguém tem dúvida. Por conta dos desgovernos petistas, foi dos piores dos últimos tempos. E, se as previsões estão certas, a nação vai continuar colhendo os males da desastrosa administração marcada pela corrupção generalizada, gastos públicos sem responsabilidade fiscal, desemprego elevado e penúria para milhões de brasileiros.

Mas, o que fazer? Vamos ter que enfrentar este novo ano porque o tempo não pára. Aliás, para quem já chegou à velhice, como eu, o tempo corre rápido, com ou sem crise econômica e financeira. O fato é que a roda do tempo move-se sem parar, leva para frente nossas vidas e nos deixa mais velhos a cada momento, a cada dia, cumprindo o inevitável processo de desfolhamento gradativo de nossas existências.

Quando crianças, temos a impressão de que o tempo caminha lentamente. Principalmente, nos períodos de ansiedade e impaciência infantil, quando ficamos à espera de que aconteçam os mitos criados para alegrar inocentes corações infantis, de gente pequena que ainda não compreende que os nossos desejos nem sempre são possíveis e que nossos sonhos sempre estão mais adiante, num horizonte difícil de ser tocado, quase impossível de ser conquistado.

Mas, como disse, o tempo não pára. Quando nos damos conta, passou a adolescência, vivemos a idade adulta e enfrentamos a velhice.

E, agora, quando já se foi a inocência dos menores, já esmoreceu o ímpeto da adolescência; já terminou a safra dos frutos semeados pela pretensiosa sabedoria da maturidade, quando já nos vemos velhos e sem sonhos, somos conduzidos por essa inexorável roda viva do costume e nos descobrimos a embarcar na carruagem da ilusão para vivenciar a magia das festas de final de ano.

É um período curto, de despreocupação e de alegria por um ano terminado. E, de esperança, porque esta sempre se renova, diante do raiar de um novo tempo.

Agora, que o Papai Noel já se foi e, também, a ilusão dos fogos da virada, pés no chão é preciso. Vamos viver um ano de grandes dificuldades econômicas e de turbulência política. Portanto, não vai ser fácil e coragem é preciso.

Mesmo diante dos problemas que vamos enfrentar, desejo aos meus leitores um Novo Ano cheio de paz.

Escrito por João José Leal, 04/01/2017 às 09h33 | jjoseleal@gmail.com

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Natal e Tempos de Criança

Não sei por que, mas quando chega o Natal fico a lembrar dos meus tempos de criança em Tijuquinhas, pequena localidade, tão próxima de Florianópolis que se podia enxergar a silhueta da cidade desenhada por cima da linha do mar. Perto, mas tão isolada e distante do progresso da capital, onde tinha luz elétrica, hospital e farmácia, escolas que ensinavam professores e doutores, ruas cheias de casas, gente bonita, bem vestida, ostentando riqueza e parecendo vender felicidade. Lá, moravam o progresso, as novidades, as manufaturas douradas e fantásticas, badulaques que causavam espanto, na gente simples da vida rural e interiorana.

Lembro-me que, a cada mês, meu pai viajava a Florianópolis para comprar mercadorias para o nosso pequeno armazém. O ônibus voltava à noite e a família, cheia de curiosidade, se reunia para escutar as notícias da capital, que se limitavam a comentários sobre o movimento do Mercado Público, uma espécie de Ceasa daquela época e a “multidão” caminhando nas proximidades da Praça XV. Não podiam faltar notícias sobre a família da irmã de meu pai, casada e que tivera o “privilégio” de morar na capital.

Minha curiosidade infantil não se contentava com notícias. Igual aos nossos índios do passado, ficava esperando pelos pequenos e simples presentes, novidades vindas da ilha da fantasia. Lembro-me de um canarinho de baquelite, que mais parecia um cachimbo, com um pequeno depósito d’água na parte inferior e uma biqueira para ser soprada e produzir um som estridente. E de um par de cachorrinhos com imã na base, que se chocavam, quando colocados um em frente ao outro.

Não esqueço, também, de um minúsculo monóculo, com a foto colorida de uma bela princesa em meio a flores e passarinhos. Pobres regalos, feitiços vindos da capital, que meu pai exibia como troféus misteriosos aos olhos de uma criança que enxergava o mundo do tamanho do quintal de sua casa da pequena Tijuquinhas.

Lembrei desse tempo de minha vida porque, no próximo domingo, será Natal. Todos farão o possível para presentear familiares e amigos e não precisarão viajar até a ilha da magia para adquirir os regalos natalinos. Aliás, se quisermos, nem precisamos sair de casa para conhecer os milagres, sempre renovados, da fantástica indústria eletrônica ou as novidades da velha atividade manufatureira e artesanal. Basta ficar em frente da TV ou da internet e viajamos pelo Planeta Terra, enchendo nossa retina com mensagens sobre as novidades do mundo da fantasia recriada a cada momento.

Aos meus estimados leitores, desejo um Feliz Natal e um Novo Ano de Paz.

Escrito por João José Leal, 19/12/2016 às 17h08 | jjoseleal@gmail.com

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