Jornal Página 3
Coluna
CINERAMA BC
Por André Gevaerd

Wander "Fuc*#$@" Wildner!

Não quero começar um texto com o velho papo nostálgico dos nossos avós que começava mais ou menos assim: "Filho, no meu tempo..." e assim por diante, mas deve ser o tempo que está me persiguindo e me transformando em um prematuro saudosista. Vamos ao assunto que me chamou atenção. Para quem curte o bom e velho rock'n'roll o nome do mítico Wander Wildner não é nenhuma novidade, mas para a tristeza das novas gerações que vive em meio a funkeiras "Anitas" e a universitários "Queixo Grosso e Topete Fino" essa é uma triste realidade. O personagem do Wander Wildner sempre foi controverso e sempre foi parte dele afugentar alguns e balançar as estruturas sociais com frases como:

"Alô racistas disfarçados / Com suas idéias de argila / Votando a favor da igualdade / E tocando os negros pro fim da fila"

ou

"Juventude idiota está levantando as lajotas / está dançando em blumenau"

A manchete chamava atenção para um miolo que dizia: "Um show do cantor Wander Wildner na Fatiado Discos e Cervejas Especiais, em São Paulo, acabou mal. O artista gaúcho teve seu microfone desligado e a apresentação interrompida após ter feito declarações consideradas machistas e racistas. A situação foi exposta pela casa em um post no Facebook, que foi posteriormente apagado. A frase que motivou a interrupção teria sido "já que nenhuma vadia me traz uma cerveja". O cantor teria ainda se referido a um funcionário do local como "o 'nêgo' que trabalha no bar". "Desligamos o microfone e o amplificador para que esse tipo de babaquice não se propague. Falar as coisas que ele falou no microfone é um erro inadmissível, principalmente em pleno 2017. Wander Wildner aqui nunca mais", dizia o esclarecimento."

Wander Wildner, certamente perplexo frente a situação, publicou um texto em que diz ter sido "mal interpretado": "No show de ontem houve um mal entendido. É inegável que não sou racista nem machista, quem me conhece sabe. Sinto muito se o que falei foi mal interpretado. De agora em diante nos shows vou apenas cantar as músicas", escreveu o cantor.

Como pode a intolerância e hostilidade a um artista ser tamanha a ponto de impedir que o mesmo se manifeste ou ao menos se faça entender?Resumo da história: TODOS SAEM PERDENDO!

A coisa continuou na internet, onde as conversas calorosas dizem de um lado que:

"Arte não tem licença pra machismo ou racismo. Se ele respeita mulheres e negros (quem conhece sabe segundo diz) não fala essas merda."

Outros rebatem:

"É caretice mesmo! Esse politicamente correto que não relativiza nada é a mais nova forma da mais velha caretice."

O fato é que o que aconteceu no dia 27 de maio não pode ser entendido apenas a partir da leitura de uma matéria de jornal sem conhecer e entender a persona que foi moralmente julgada. Como pode uma sociedade, e pior, a parte pensante que deveria estar preparada e lúcida, tornar-se em uma simples camada reacionária, motivada por fofocas e canalhices que partem de opiniões regurgitadas no facebook. Acontece que no mundo da pós-verdade levantar bandeira dos outros é refresco para o vazio existencial das pessoas.

Na minha opinião muitas das opiniões, inclusive a dos donos que agiram como agentes da censura, só manifestam o nascimento de um novo tipo de hipócrita. Reflita uma vez que o próprio espaço apresenta um presunto na logo do espaço... hora, como o proprietário de um espaço tão lúcido e elevado moralmente poderia fazer qualquer tipo de "elogio" a morte de um animal ou a um frigorífico? Não seria motivo da patrulha vegana perseguir a casa de shows "Fatiado Discos e Cervejas Especiais" que persegue o cantor?

Sem generalizar, reconheço grandes avanços nas questões de defesa de minorias, feminismo e etnias, mas é preciso cautela para que palavras de ordem e má interpretação de movimentos não sejam uma verdade absoluta. Existe uma diferença crucial entre Crença e Razão. Espero que não surja uma nova espécie de facista. O facista moralmente superior. Sobre estes a história já nos mostrou do que são capazes.

Escrito por André Gevaerd, 31/05/2017 às 10h17 | andre@cineramabc.com

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