Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

Concha Spondylus: Tesouro pré-Colombiano

As antigas civilizações utilizavam com bastante frequência, objetos de prestígio. Esses objetos – muitas vezes resgatados da natureza – eram imbuídos de um profundo sentido religioso, mágico e de poder político. Alguns adquiriam até mesmo poder econômico. Pode um objeto de prestígio, ganhar tamanha importância, sendo capaz de direcionar as atitudes de toda uma civilização? Isso ocorreu de certa forma, no Peru (Império Inca) e em quase toda a América pré-colombiana.

O objeto que ocupou tal posto de importância foi a concha marinha conhecida como SPONDYLUS, um gênero de molusco da família Spondyliade. É caracterizada por ser muito dura e resistente, com “espinhos” em seu exterior, e uma coloração vermelha intensa, embora possa ser rosada ou mesmo branca. Na região Andina Central foi chamada de “Mullu”, e associada como símbolo feminino de fertilidade, das chuvas e da água. Escavações arqueológicas revelaram exemplares em Chavín de Huántar, geoglifos de Nazca, Copán, Tenochtitlán entre outros sítios arqueológicos.

A associação da Spondylus com a fertilidade vem do fato dela ocorrer em marés baixas somente quando da chegada do fenômeno atmosférico conhecido como “El Niño”. As águas do Pacífico tornavam-se assim, avermelhadas. Sinal, para os antigos povos, de uma presença divina. Com a chegada do El Niño, vinham também as chuvas, tão necessárias para o plantio em todo território peruano. Efetuava-se assim, um estreito laço entre antigas sociedades, força da natureza e presença divina. A Spondylus conectava o mundo terreno ao mundo espiritual.

Embora sejam encontradas em diversas ruinas de norte a sul das Américas, sua procedência ocorre apenas em águas quentes, na faixa territorial entre Equador e Caribe. Isso leva a crer que existia uma efervescente transação comercial da concha Spondylus entre o sul do Chile ao México.

O intercâmbio de conchas gerou oficinas com especialistas no Equador, que colhiam e trabalhavam o mullu, tornando-o objetos de arte e adoração. Dessa forma, a Spondylus alcançou também – além de um valor divino – um valor monetário, de acumulação. No mundo Inca, o mullu virou “moeda” para transações econômicas. Foram criados grupos especiais de Chasquis (Mollo Chasqui Camayoc) que eram corredores que levavam, em nome do Inca, a concha a territórios distantes do Império.

A Spondylus, o “alimento dos Deuses” e símbolo de poder, perdeu sua importância com a conquista espanhola na América, e a derrocada de todo um sistema de vida ligado ao sagrado e a natureza.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 08/10/2017 às 11h01 | daltonmaziero@uol.com.br

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