Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

Paracas - Operações cranianas no antigo Peru

É possível acreditar que alguém possa sair vivo de uma operação craniana, centenas de anos antes de Cristo? O que pensar de um povo capaz dessa proeza?

Assim eram os Paracas, que viveram em um dos desertos mais secos do mundo, no litoral sul do Peru entre 700 a.C. e 200 d.C. A técnica da perfuração craniana ocorreu em diversas partes do mundo antigo, mas foi nessa região que ela alcançou status de arte! Em 1906, o famoso arqueólogo Julio C. Tello – então estudante de medicina – desenterrou na região de Paracas, cerca de 10 mil crânios. Destes, 200 apresentavam interferência cirúrgica! 

Essas operações são conhecidas como “Trepanações Cranianas”. Muitos estudiosos se perguntam sobre os motivos de tais intervenções cirúrgicas. Certamente não foram feitas com uma única finalidade. Alguns acreditam que elas estiveram ligadas às práticas mágico-religiosas, como parte de um culto. Outros pensam tratar-se simplesmente de uma cirurgia convencional, que servia para curar pessoas acidentadas, em especial as vitimadas pelas guerras. Mas também podem estar relacionadas a pacientes que reclamavam de fortes dores de cabeça, ou que apresentavam deficiência mental.

A operação consistia em deslocar o couro cabeludo, colocando à mostra o osso craniano. Nele, o cirurgião aplicava incisões – normalmente retangulares – com instrumentos rudimentares, como facas de obsidiana (vidro vulcânico). Retirada a placa óssea, tampava o orifício na cabeça com uma lâmina de ouro. O paciente (homem ou mulher), deitado no chão, recebia fortes doses de alucinógenos e álcool. Coca, chá de Ayahuasca ou Chicha (bebida fermentada) eram utilizadas como anestésico.

A operação era delicadíssima! Se o cirurgião aprofundasse por demais o corte com a obsidiana, podia atingir o cérebro, causando lesões permanentes ou mesmo a morte do paciente. Sabemos hoje quais eram os instrumentos utilizados para esse tipo de operação, pois foi encontrado em uma sepultura Paracas, um “kit” cirúrgico, contendo facas de obsidiana, tecidos de algodão (alguns com manchas de sangue) e dentes afiados de baleia cachalote.

Paracas se destaca do resto do mundo nesse tipo de operação na antiguidade, não apenas pelo cuidado com que ela era realizada, mas pelo fato de que muitos pacientes viviam ainda por anos após a cirurgia! Ao redor de muitas trepanações, foram encontradas calosidades ósseas que só se formam em seres vivos, ao longo de muitos e muitos anos!

As trepanações cranianas de Paracas são mais uma prova que os antigos povos das Américas detinham um conhecimento muito além do imaginado!

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 16/08/2017 às 09h56 | daltonmaziero@uol.com.br

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