Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

A CORRENTE DE HUÁSCAR E O MITO DO TESOURO PERDIDO

A Corrente de Huáscar alimentou durante muito tempo a imaginação dos caçadores de tesouros. Supostamente feita em ouro, esse objeto alcançaria 200 metros de comprimento, ocupando lugar privilegiado na praça da antiga capital Inca em Cusco. Estaria a corrente nas profundezas do lago Titicaca? Será esse objeto real, ou fruto da imaginação dos conquistadores espanhóis?

Estátuas de ouro, oferendas em prata, objetos sagrados. Peças de arte com incalculável valor. São tantos os tesouros supostamente lançados nas profundezas do lago Titicaca, que se fossem todos verdadeiros, faria seu nível d'água subir. Podemos acreditar em tais histórias? A primeira notícia documentada que temos sobre o resgate dessas riquezas foi em 1541. Hernado Pizarro - irmão do conquistador Francisco Pizarro - ao escutar tais comentários, enviou um grupo para encontrar as peças submersas. Hernando nada achou, e ainda acabou perdendo dez de seus homens afogados.

A prática de lançar oferendas no Titicaca era comum em tempos pré-incaicos. Entre os deuses reverenciados, estava Kupakati, Senhor das Águas. Expedições encontraram recipientes em pedra, cujo interior revelaram pequenas estatuetas de ouro, ossos e ervas. No caso da Corrente de Huáscar, a “oferenda” do objeto estaria ligada – segundo a lenda – a tentativa de escondê-la dos espanhóis. A narrativa fala de 200 nativos que, na calada da noite, rumaram com a corrente pelo Altiplano, depositando-a sobre uma fileira de barcos feitos em junco, lançando assim nas profundezas do lago.

Delírios a parte, o que poucos autores esclarecem, é que a lenda da Corrente de Huáscar pode ter sua origem em um fato real. A confusão teria começado por causa de uma festa praticada na praça central da antiga Cusco. Uma dança cerimonial que ocorria na primeira noite do calendário incaico. No ponto alto da festa, uma grossa corda era agitada pelos dançarinos como se fosse uma serpente. Seria essa festividade incaica a origem da Corrente de Huáscar? É provável que sim, pois sua descrição em muito coincide com a da corrente, seja em tamanho, local de exposição (em torno da Praça em Cusco), número de pessoas que a carregavam, e coloração (os tecidos aproximavam-se ao dourado).

O desejo por ouro não gerou apenas perseguição e morte durante a conquista da América. Gerou também um incrível imaginário popular, riquíssimo em histórias sobre tesouros e cidades perdidas. Muitas vezes, esses boatos foram criados pelos próprios espanhóis, que não satisfeitos com o espólio adquirido, jogavam suas esperanças e desejos para uma região distante: uma floresta impenetrável, as profundezas de um lago ou alguma cidade perdida na Cordilheira.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 04/07/2017 às 10h56 | daltonmaziero@uol.com.br

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