Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

Chauchilla

Em outubro de 2015, percorri o deserto litorâneo ao sul do Peru. Tinha como objetivo, estudar os geoglifos de Nazca e Palpa, além de conhecer outros sítios arqueológicos famosos. Um desses lugares é chamado Chauchilla, uma necrópole pré-incaica situada a 30 km ao sul da cidade de Nazca, em um platô próximo ao rio Poroma. A área que abrange as sepulturas tem aproximadamente 2,5 x 0,5 Km. Tecnicamente, podemos dizer que Chauchilla foi um local sagrado, onde se enterravam os mortos.

Geograficamente a região impõe respeito! O vale onde se encontra o rio Poroma é um bálsamo de verde diante da secura de Chauchilla. Uma montanha próxima marca o lugar, ocultando parcialmente as sepulturas de um sol implacável; de uma luminosidade intensa.

Alguns estudiosos advertem que o local não passa de uma curiosidade arqueológica, devido à devastação que sofreu, em especial, na primeira metade do XX. Mesmo assim, Chauchilla é estranhamente atraente. O terreno foi ocupado entre os séculos II aC e IX de nossa era, mas foi tão escavado e saqueado, que podemos afirmar que seus vestígios não são mais confiáveis. Embora saibamos de sua ocupação pelas culturas Huari e Nazca, o que podemos ver é apenas uma amostra grosseira e dissimulada da realidade. Ali, corpos seculares foram remanejados a fim de se tornarem um atrativo turístico.

Contudo, o espetáculo grotesco revela também o único sítio arqueológico peruano onde conseguimos apreciar múmias em suas tumbas originais de adobe, na mesma paisagem em que foram enterradas. Isso já vale uma visita. Os corpos expostos quase não sofreram interferência no que concerne a procedimentos artificiais. Alguns órgãos e tendões foram retirados, para que pudessem manusear o corpo, colocando-os quase sempre em posição fetal. Depois eram envolto em tecidos de algodão, e ao seu lado eram depositados alimentos, joias, cerâmica mortuária e eventuais pertences do falecido.

A incrível preservação deve-se basicamente à baixa humidade e características do solo, que são suficientes para manter parte da pele e cabelos. Um dos poucos elementos encontrados nas múmias foi o “cinabre” (cinabarita, cinábrio), também conhecido como sulfeto de mercúrio. É comum encontrar esse minério em terrenos vulcânicos, na forma terrosa de cor vermelha (sangue) ou de tijolo (argila). Esse componente foi utilizado nos corpos no momento de rituais relacionados ao culto de ancestrais.

Chauchilla foi oficialmente (e tardiamente) protegida em 1997, e pode ser a prova que outros sítios semelhantes ainda estejam ocultos no deserto.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 03/01/2017 às 10h05 | daltonmaziero@uol.com.br

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