Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

NAZCA

OS ENIGMÁTICOS GEOGLIFOS DO DESERTO PERUANO

A cidade de Nazca (litoral sul do Peru) guarda um dos maiores mistérios arqueológicos das Américas: desenhos gigantescos feitos no deserto, cortados por “linhas” que varrem o solo por quilômetros! Poucos monumentos no mundo causaram tantos debates quanto essas incríveis formações, conhecidas como Geoglifos. Tecnicamente, podemos defini-los como construções terrestres realizadas através do deslocamento ou acúmulo de pedras e terra, criando assim imagens de homens, animais, plantas e figuras geométricas (foto: ao fundo no solo, triângulo “las agulhas de Cantallo”, em Nazca).

Existem na América do Sul, grandes aglomerados de geoglifos, com algumas figuras que chegam a mais de 300 metros. Podemos destacar os geoglifos chilenos do Atacama; os geoglifos peruanos de Nazca; e o grupo descoberto no Acre, em plena floresta brasileira. Todos esses agrupamentos apresentam mais de 400 figuras cada.

Compreender o motivo desses desenhos não é tarefas fácil. As Linhas de Nazca - como ficaram conhecidas - só chegaram ao grande público em 1939, com as pesquisas do historiador norte americano Paul Kosok (1896-1959). As imagens captadas por Kosok de um avião ganharam fama mundial e despertaram a atenção dos cientistas. Surgia assim, no início dos anos 40, a primeira teoria sobre os geoglifos: “o maior mapa astronômico do mundo”, cuja função seria registrar o movimento dos planetas e constelações, como um calendário capaz de determinar as épocas do ano. A alemã Maria Reiche (1903-1998) – que conheci pessoalmente em 1986 – dedicou toda sua vida ao estudo dos geoglifos e ampliou a ideia do mapa astronômico.

A partir dai foram muitas as teorias que tentaram explicar os enigmáticos e gigantescos desenhos do deserto. A mais desastrosa foi de Eric Von Daniken, que na década de 1970, relacionou Nazca a presença de seres extraterrestres. Durante muitos anos, as pesquisas sérias foram encobertas por essa onda de sensacionalismo, até que na década de 1980, novos pesquisadores relacionaram os desenhos de Nazca aos homens que lá viveram e a forma como esses compreendiam o mundo natural e sagrado que os cercavam.

Pesquisas recentes apontam para a estreita relação das antigas comunidades com um mundo sagrado, onde água e fertilidade eram almejadas através de rituais específicos com os geoglifos. A conquista espanhola da América colocou um fim nesses rituais, alterando de modo irreparável, a relação do homem com seu meio, com a paisagem, sua geografia e suas crenças. Os conquistadores não destruíram os geoglifos. Eles fizeram pior: desconstruíram o pensamento do homem americano, e com isso, a necessidade de criar e utilizar os geoglifos. A partir de então, essas admiráveis construções mergulharam no mundo do mistério e do esquecimento.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 01/02/2016 às 14h01 | daltonmaziero@uol.com.br

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TITICACA – CIDADES PERDIDAS E TESOUROS SUBMERSOS

O Titicaca é o lago comercialmente navegável mais alto do mundo. Está localizado na fronteira entre o Peru e Bolívia. É tão gigantesco que fica difícil avistar sua margem oposta. Os habitantes aymaras costumam chamá-lo de “Mar das Alturas”, uma vez que está situado a 3.820 metros sobre o nível do mar. É o segundo maior lago da América Latina, com 8.562 km².

Quando contornei suas margens a pé em 1997 - caminhando 1.300 km em busca de ruinas perdidas pré-colombianas - os aymaras me contaram estranhas histórias sobre tesouros submersos em suas águas escuras. Em 1541, o espanhol Hernando Pizarro nos relata sua tentativa de recuperar esse ouro jogado no lago. Pizarro não encontrou nada, mas perdeu dez de seus homens afogados nessa tentativa. Cronistas como o padre Bernabé Cobo e o Inca Garcilaso de La Vega falam sobre o antigo costume de atirar objetos preciosos como oferenda aos deuses. O quanto disso será verdade?

A partir de 1950, foram inúmeras as tentativas de recuperação dos supostos tesouros do Titicaca. Algumas não passaram de meras aventuras, outras tiveram apoio internacional. Mergulhadores profissionais (e amadores) como William Mardoff, Johan Reinhard, Ramón Avellaneda - entre outros - após vários mergulhos, concluíram que a sedimentação do fundo do lago impossibilitava o resgate de objetos. Relatórios e matérias de imprensa sensacionalistas apontavam a existência de ruínas, muros e templos submersos, sem provas materiais que confirmasse tais descobertas.

De todas as expedições em busca dos mistérios do Titicaca, talvez a do oceanógrafo francês Jacques Yves Cousteau seja a que mais chamou a atenção. Ela ocorreu em 1968 e dispunha de 20 toneladas de equipamentos modernos, entre os quais, mini submarinos. As prospecções em torno da Ilha do Sol atingiram 114 metros de profundidade. Nenhuma ruína submersa foi encontrada. Pior do que isso: os supostos muros e templos apontados por outros mergulhadores não passavam de antigos ancoradouros que ficaram submersos com o passar do tempo. O relatório final de Cousteau, impreciso e cheio de falhas, não chega a lugar algum.

Contudo, na década de 1970, algumas expedições japonesas confirmaram a antiga prática de oferendas atiradas no Titicaca. Foram encontradas “capsulas” entalhadas em pedra com pequenas estatuetas de ouro em seu interior. Esses artefatos podem ser vistos hoje no Museu da Ilha do Sol. Em 2013, uma equipe belga liderada por Christopher Delaere encontrou 31 peças de ouro, além de prata, ossos e cerâmica de 1500 anos! Delaere afirma – através de levantamento geofísico – já ter localizado seis sítios arqueológicos de origem Tiwanaku na parte inferior do Titicaca. O resultado dessas pesquisas pode, finalmente, revelar a verdade sobre os tesouros ocultos do Lago Titicaca.

 

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 14/01/2016 às 16h50 | daltonmaziero@uol.com.br

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O VULCÃO HUAYNAPUTINA – A POMPÉIA PERUANA

Quase todos nós já escutamos - em algum momento de nossas vidas - sobre o fabuloso desastre histórico de Pompéia (Itália)! Em 79 dC., essa cidade habitada pela elite romana foi assolada pelo vulcão Vesúvio. O ineditismo do cataclisma e a fúria do fluxo piroclástico soterraram ruas, templos e casas, poupando poucas vidas. Hoje, Pompéia é um dos mais interessantes sítios arqueológicos do mundo, pois, retirada a camada de cinzas e lava, descobriu-se uma cidade “congelada” no tempo.

Poucas pessoas sabem, mas existe algo muito semelhante na América Latina. Mais especificamente ao sul de Lima (Peru), na região de Moquegua. Em 19 de fevereiro de 1600 dC., 33 povoados foram cobertos de cinzas pela erupção do vulcão Huaynaputina, de 4.850 metros de altura. Naquele ano, a montanha expeliu cerca de 30 Km³ de detritos ao céu. Foi a maior erupção registrada na América do Sul ao longo de 2.000 anos, e hoje é comparada ao famoso Krakatoa (Indonésia - 1883). Estima-se que o calor emitido pelo evento sobre as cidades soterradas alcançou 1.200 graus centígrados. Um ano após a erupção, a temperatura mundial caiu 1,3 graus, criando um longo inverno que alterou todo o clima da Terra.

O Huaynaputina (do quéchua: jovem vulcão) faz parte da Zona Vulcânica Central peruana, uma cadeia montanhosa nos quais se incluem o Misti, Ampato (foto), Ubinas, Coropuna e Sabancaya. Análises geológicas mostram que ele já havia explodido antes, por volta de 7.700 aC.

Em 1600, os povoados soterrados marcavam historicamente a passagem do antigo reino Inca ao período colonial espanhol (vice-reino da Espanha). Após meses de pesquisa, o Observatório Vulcanológico do Instituto Geofísico Minerador Metalúrgico do Peru, localizou seis dos 33 povoados soterrados, a uma profundidade que varia entre três e quinze metros. Sua erupção na época causou fortes terremotos e deslizamentos de terra, e suas cinzas imediatamente cobriram regiões distantes como Lima, Lago Titicaca, Potosi, Arica e Cusco.

A equipe de especialistas – formada por peruanos, franceses, chilenos, bolivianos e belgas – busca não apenas recuperar detalhes do passado daqueles povoados, mas criar uma atração turística nos moldes de Pompéia: um lugar onde possamos caminhar e observar como era a vida em 1600! A pesquisa e escavação estão estimadas em três anos.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 05/01/2016 às 13h49 | daltonmaziero@uol.com.br

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Teotihuacán e o Mundo Subterrâneo

 

Em 2003, arqueólogos mexicanos realizaram uma das mais importantes descobertas do século: um túnel de 140 metros de comprimento e 18 de profundidade, que se estende por debaixo da gigantesca Pirâmide do Sol e do Templo da Serpente Emplumada, nas ruínas de Teotihuacán. O achado foi casual, graças às chuvas de uma manhã de outubro que deixaram à mostra um buraco de 83 cm, com acesso ao sistema subterrâneo.

Escavações posteriores revelaram mais de 50 mil objetos magníficos, como esculturas em rocha, pedras de jade provenientes da Guatemala, incensos, conchas do Caribe, sementes, bolas de borracha, espelhos de pirita, bolas de cristal e metal, cabaças, pelo de felinos e pele, que parece ser humana. Parte desse tesouro pré-colombiano está sendo exposto aos poucos, nos principais museus mexicanos.

Acredita-se que o túnel encontrado represente a visão do “infra mundo” (mundo subterrâneo) tal como era concebido pelos mexicas (astecas). Nele, os cientistas descobriram câmaras mortuárias que devem pertencer a importantes governantes de Teotihuacán. Contudo, até o momento, nenhum corpo foi localizado.

A antiga cidade – localizada a 47 Km da Cidade do México – é hoje o maior sítio arqueológico das Américas. Quando os mexicas chegaram nesse local no século XIV, ela já estava completamente abandonada, em ruinas. Sabemos hoje, que a população que lá viveu a ocupou entre 150 aC e 650 dC., deixando um legado monumental impressionante, formado por pirâmides, templos e palácios gigantescos. Contudo, as atividades ritualísticas realizadas no subterrâneo ocorreram apenas entre 150 e 200 dC.

Um detalhe curioso do achado é que os antigos mexicas recobriram parte das paredes do subterrâneo com minerais (pirita e magnetita) que brilham no escuro após receberem luz. A ilusão é de estar frente a um céu estrelado, só que debaixo da terra.

Os arqueólogos levaram cinco anos para revelar essas maravilhas, e para isso retiraram mais de 970 toneladas de terra e pedras que bloqueavam a passagem de acesso. As pesquisas só foram possíveis graças a um alto investimento tecnológico, com o uso de robôs, escaneamento laser e georadar. Esses recursos muitas vezes permitiram aos arqueólogos prospectar o que existia debaixo da terra antes mesmo da retirada do entulho.

A parte mais profunda do túnel – ainda obstruída – pode revelar o mais importante dos tesouros. Talvez algum sepultamento de dignitário a exemplo dos Maias. De qualquer forma, as evidências mostram que Teotihuacán foi utilizada posteriormente pelos mexicas, como uma cidade santuário para valorização de mitos de criação e também, para exercício de poder. Em 1987, a UNESCO declarou Teotihuacán como Patrimônio da Humanidade.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)
 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 15/12/2015 às 11h00 | daltonmaziero@uol.com.br

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Machu Pichu - A descoberta da cidade perdida dos incas

 

Como pode uma cidade das proporções de Machu Picchu, ficar "perdida" por tantos séculos?

Muitos falam dos mistérios que suas ruínas guardam, mas poucos comentam hoje os detalhes de sua impressionante descoberta, realizada pelo americano Hiram Bingham em 1911.

Mas afinal, como se “perde” uma cidade? Machu Picchu – situada na Cordilheira peruana – nunca esteve propriamente perdida. Certo será chama-la “abandonada”! A descoberta de Machu Picchu é quase tão fascinante quanto o estudo de suas construções.

Em 1894, moradores de Cusco já sabiam de sua existência, embora não soubessem de sua importância arqueológica para o passado da civilização Inca. Na época, camponeses do Vale do Urubamba costumavam guiar pessoas em busca por tesouros perdidos.

O americano Hiram Bingham (1875- 1956) – historiador, aviador, explorador e político – que esteve no Peru em 1909 para refazer a rota de Simon Bolívar, tomou conhecimento dessas ações. Parece certo que durante esta primeira experiência, Bingham entrou em contato com boatos de camponeses, que contaram sobre ruínas em meio às montanhas, motivando-o a buscar apoio nos EUA para uma grande expedição.

Com o apoio da University of Yale e da National Geographic Socity, Bingham retorna a Lima em junho de 1911. Seu objetivo inicial não era Machu Picchu, mas sim a antiga capital incaica de Vilcabamba La Vieja, citadas na crônica do padre Antônio de Calancha (1630).Em Cusco, traça seu roteiro através do Vale do Urubamba e parte para sua histórica jornada.

Bingham e sua equipe contavam com vários carregadores, que se aventuraram através do majestoso Vale do Urubamba, sempre acompanhados do caudaloso e barrento rio de mesmo nome. No caminho, conheceu várias ruínas menores como Salapuncu, Llajtapata, Torontoy, além da grande Ollantaytambo.Contudo, nenhuma das ruínas vistas até então eram dignas das descrições dos cronistas espanhóis da conquista.

Finalmente, na manhã fria e chuvosa de 24 de junho de 1911, um camponês quéchua chamado Melchor Artega indicou a existência de grandes ruínas no topo de uma montanha. A subida desgastante e perigosa revelou uma imagem irreal. Como por encanto, enormes patamares se abriram aos seus olhos, e centenas de estruturas arquitetônicas surgiram entre emaranhados de raízes e árvores. Era Machu Picchu!

Ao contrário do que muitos possam pensar, Machu Picchu era bem diferente do que se vê hoje. Bingham encontrou uma cidade em ruínas, pedras desconexas, e raízes disformes. Naquela visão caótica, estava uma das mais notáveis cidades incaicas, que levaria anos para ser reconstruída.

Apesar da fantástica descoberta, não era aquilo que Bingham procurava. Os primeiros estudos mostraram a ele que Machu Picchu não era Vilcabamba La Vieja, a última morada dos Incas. Um feliz engano, que acabou por revelar ao mundo, um dos maiores tesouros da cultura incaica.

(Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador, escritor e especialista em culturas pré-colombianas. Autor de “Titicaca – Em busca dos antigos mistérios pré-colombianos” e “Sacralizando o Solo – o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos” Visite o Blog: Arqueologia Americana).

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 03/12/2015 às 09h03 | daltonmaziero@uol.com.br

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